SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 00:32

Ilustres Torrejanos Governadores da Índia (1)

Há algum tempo atrás, fomos surpreendidos pelas declarações de um responsável político, ao pretender de forma irresponsável retirar os brasões das ex-colónias ultramarinas portuguesas, existentes no jardim da Praça do Império, em Lisboa.

Mais uma vez, um obscuro representante eleito sai do anonimato – a que obrigatoriamente deveria estar circunscrito – pelas piores razões. O nosso dever, especialmente dos governantes, é preservar o património do país. Portugal tem um rico passado histórico que devemos cuidar e enaltecer. O orgulho pátrio (hoje tão vilipendiado, por causa dos actuais actores políticos), passa por sentirmos que já fomos uma Nação preponderante no rumo da História Mundial. E que temos uma herança histórica que não podemos omitir. Mesmo aquela pequena parte constituída por símbolos (o que acontece no caso dos brasões) ligados a um passado colonialista. Que, no incauto pensamento do vereador, deveria ser apagado, porque, segundo ele, “ já não existe”.

Ao discordarmos da atitude irreflectida do representante político, não nos move a tentativa de fazer ressurgir o extinto império português, ou um saudosismo bacoco. O país, enquanto Nação, está indelevelmente vinculado a um passado histórico. Apagar os seus acontecimentos e testemunhos (mesmo aqueles que à luz do pensamento actual, são considerados reprováveis), seria desvirtuar a História e atentar contra a nossa identidade nacional. Era com se eliminássemos, na vida de um sujeito individual, todas as suas acções desajustadas. O que originaria um ser dilacerado, destituído de sentido. Incapaz de organizar-se enquanto totalidade indivisível.

Baseados na falaciosa expressão de “já não existir o império colonial”, poderíamos chegar ao impensável ponto de apagarmos, nas monografias locais, os nomes dos torrejanos que chefiaram ex-colónias portuguesas.

Ainda bem que o historiador torrejano Artur Gonçalves – muitos anos antes -, não partilhou desta nefasta imprudência de renegar o nosso domínio ultramarino. Actualmente, estaríamos privados das suas minuciosas descrições biográficas sobre os ilustres conterrâneos, que desempenharam destacadas funções governativas, nas províncias portuguesas além-mar. Como veio a acontecer em solo indiano, onde assumiram o cargo de Governadores da Índia.

Para desempenharem as funções de Vice-Reis e, em alguns casos, de Governador, escolhiam-se apenas os fidalgos que tivessem o dom e título. Também era fundamental, na atribuição régia, a conquista de alguma fortaleza.

A nomeação do primeiro representante de D. Manuel I na Índia, ocorreu no dia 27 de Fevereiro de 1505. Nesta data, D. Francisco de Almeida, através da assinatura da Carta dos Poderes, tomava sobre si o cargo político de segundo lugar no Reino e de capitão-general dos mares da Índia.

O facto de referirmos o nome do primeiro Vice-Rei da Índia não é inocente. D. Francisco de Almeida está ligado, por laços familiares, a uma das mais nobres casas torrejanas. O seu irmão, D. Diogo Fernandes de Almeida, nasceu em Torres Novas, onde foi Alcaide-Mor. Além disso, o ilustre torrejano desempenhou as funções de monteiro-mor do rei D. João II, Prior do Crato e de general dos mares de África.

Mas foi necessário passarem-se mais de cento e cinquenta anos da tomada de posse do primeiro Vice-rei, para que o primeiro torrejano assumisse os destinos da antiga província oriental portuguesa. Aconteceu a 13 de Dezembro de 1686. Data em que o 33º Vice-Rei, D. Francisco de Távora, entregou o governo da Índia a D. Rodrigo da Costa Pimentel.

O distinto torrejano era filho de D. António da Costa Pimentel e de D. Joana de Meneses, e nasceu no solar da família, situado na antiga Quinta da Paz, Ribeira Ruiva. Valoroso militar, alcançou postos de alto comando, prestando relevantes êxitos na Índia, na defesa do território português. Durante o seu governo (1686-1690), foi criada a Companhia que monopolizou o comércio do reino do Oriente, e as obras para a construção da nova capital em Mormugão. Projecto que se encontrava suspenso por decisão do ilustre torrejano.

O curto “reinado” que exerceu na Índia, não possibilitou a D. António da Costa concretizar muitos das reformas que tinha em mente. No dia 23 de Junho de 1690, falecia o nosso ilustre torrejano. Os seus restos mortais repousam na igreja do Bom Jesus de Goa.

Abertas as vias de sucessão, foi indigitado para o cargo de governador D. Miguel de Almeida, que desempenhou as funções por um curto período de tempo, morrendo um ano depois de assumir o cargo (1690-1691).

O segundo representante torrejano, que chefiou o executivo nesta província oriental portuguesa, era irmão do nosso falecido governador D. António da Costa. Chamava-se D. Vasco Luís Coutinho da Costa, também ele nascido na citada Quinta da Paz, no lugar da Ribeira Ruiva. Destacou-se nas lides militares, e granjeou enorme reputação na Índia, pela forma enérgica e honesta com que desempenhou as funções governativas. O ilustre torrejano ocupou o cargo deixado por D. António da Câmara Coutinho (1698-1701).

A actuação do intitulado 35º Vice-Rei não foi coroada de êxito. No período da sua vigência, perdeu-se Mombaça e as forças estrangeiras começaram a apoderar-se de parcelas de territórios portugueses nestas paragens. Compelido a regressar a Portugal, D. António Coutinho deixara vago o lugar, que seria ocupado pelas indicações escritas nos documentos régios das vias de sucessão (método iniciado depois da morte do Vice-Rei D. Vasco da Gama, em 1524). Este procedimento visava assegurar o governo do estado indiano, precavendo-se da inesperada morte do Vice-Rei ou da sua destituição. Os documentos eram sigilosamente guardados, e neles constavam três nomes, que estabeleciam um conselho, até que fosse nomeado o Vice-Rei.

D. Vasco Luís Coutinho iniciou as suas funções no dia 17 de Setembro de 1701, conjuntamente com o arcebispo de Goa, D. Frei Agostinho de Anunciação, constituindo o 8º Conselho do Governo. Na parte final do seu mandato exerceu o cargo sozinho.

Através de uma rigorosa administração o ilustre torrejano tentou remediar a actuação desastrosa deixada pelo anterior Vice- Rei, D. António Câmara Coutinho. Empreendeu-se também na tarefa de reconquistar Mombaça. Só que, a destruição de alguns dos melhores navios da armada portuguesa, provocada por uma forte tempestade, inviabilizou o projecto.

Apesar de enaltecida, a acção governativa de D. Vasco Luís Coutinho foi curta. No dia 1 de Outubro de 1702, o ilustre torrejano entregava os poderes ao 36 º Vice-Rei da Índia, Caetano de Melo e Castro. No mesmo ano em que afrontava a inevitável morte.

(Continua)

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