SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 01:03

A Morte de um Ilustre Torrejano na Revolução de Outubro

Nos anais da História, nem sempre encontramos gravada nas suas páginas, uma referência aos combatentes vencidos que participaram em alguns dos nossos mais importantes episódios históricos. Esquece-se, por vezes, que no lado dos derrotados há também homens valorosos, aos quais, apenas, podemos apontar um único erro: o de lutarem pela facção inimiga. Caso que veio a acontecer, na Revolução de Outubro, com o oficial torrejano Pedro Celestino da Costa (1852-1910).

Sobre o ilustre conterrâneo, os registos militares dão conta das suas enormes qualidades morais e profissionais. Ao longo da carreira, foram-lhe atribuídas várias condecorações (entre elas, a de Comendador de Avis) e louvores, pelos serviços prestados à Nação. No vasto currículo do coronel Celestino da Costa, encontram-se diversas referências a cargos de comando de enorme responsabilidade, em importantes unidades militares. O seu nome consta na galeria dos honrosos comandantes da Escola Prática de Infantaria (1904-1908).

Até à véspera do 5 de Outubro de 1910, o militar torrejano desempenhava as funções de comandante na Infantaria 16. Regimento reconhecido nas hostes republicanas como um dos mais fiéis ao rei D. Manuel II que, pouco tempo antes, tinha estado presente no quartel, numa cerimónia onde lhe foram reiterados juramentos de lealdade.

O êxito do ataque a esta unidade, foi uma das peças-chave para a desejada viragem governativa. Com consequências trágicas para o ilustre torrejano (os outros dois conterrâneos, feridos na revolução, tiveram melhor sorte) que, seguidamente, passamos a descrever:

No plano arquitectado pelos revolucionários republicanos, o primeiro objectivo estratégico – com a finalidade de derrubar a monarquia – passava pela tomada dos regimentos de Infantaria 16 e da Artilharia 1. Ao carbonário Machado Santos coube o papel de chefiar o assalto ao Regimento de Infantaria 16, na madrugada do dia 4 de Outubro. A sequência, do histórico episódio, encontra-se descrita no seu relatório sobre “ A Revolução Portuguesa”, editado no ano de 1911:

“ Pelas oito horas da noite desse dia (2) reuniu a Comissão de Resistência no centro de S. Carlos. Cândido dos Reis apareceu (…) Ficou resolvido que à frente de cada um dos grupos civis que iam sublevar os regimentos, iria um caudilho da democracia e novamente Cândido dos Reis indicou a uma hora da noite para os regimentos saírem para a rua. Disse a Cândido dos Reis que iria buscar a infantaria 16 por lá não termos nenhum oficial, nem sequer um sargento para amostra; que não desejava que para esse regimento fosse qualquer pessoa importante do partido, porque contava com a morte na parada ” (“A Revolução Portuguesa”, pág. 60-61).

Na primeira hora do dia 4 de Outubro, Machado Santos (vestido com a sua farda de gala), partia do Centro Republicano de Santa Isabel, para encetar o plano gizado. Acompanhavam-no um grupo de Carbonários civis predispostos a morrer pela República. Ao chegarem ao quartel de Infantaria 16, encontram a porta fechada. Os soldados aliciados para a causa revolucionária não tinham cumprido o acordo feito com Machado Santos, horas antes (20 horas). Era preciso abrir a porta. Valeu a acção do cabo nº 30 da 3ª companhia do primeiro batalhão, Pedro Forçado, que solucionou o grave problema, ao indicar-lhes “a porta de uma arrecadação regimental e à coronhada [ter conseguido] arrombá-la” (op. cit., pág. 66).

O militar de sentinela adere ao movimento e, arrombada a porta, sobem por uma pequena escada onde, novamente, utilizam a força para romper um alçapão que dava acesso à parada. No seu interior os soldados unem-se aos revoltosos dando largas ao contentamento, abraçando-se e gritando: “Viva a República!” (op. cit., pág. 66). Gera-se uma enorme gritaria. Os oficiais do regimento são acometidos pela surpresa e dirigem-se para a parada do quartel. Desencadeia-se uma troca de tiros que provoca a morte de um soldado. A confusão instalou-se!

No calor dos tumultos, surge na parada o ilustre torrejano que não traz a sua pistola ou a espada. Surpreendido pela confusão, apenas conseguira pôr à pressa nos ombros a capa militar, e na cabeça o seu boné (Luís de Montalvor, “História do Regimen Republicano”,1930-1932). Sem compreender o que estava em jogo, questiona o porquê de tamanha algazarra (Hermano Neves,

“Como triunfou a República”, 1910, pág. 89). Bastou-lhe uns breves instantes para compreender que ocorria uma rebelião. Indiferente ao perigo, aproxima-se dos amotinados, ordenando-lhes que se rendam e cessem de disparar. Após ter executado alguns passos, uma bala perfura-lhe o ventre fazendo-o tombar por terra. Uma arma de fogo, disparada por um dos revoltosos, extinguira, na madrugada do dia 4 de Outubro de 1910, a vida do valoroso torrejano (Luís de Montalvor, op. cit.) Aos 58 anos, o comandante Pedro Celestino da Costa chegava ao fim de uma carreira militar pautada por distintos serviços à Pátria.

Os outros dois torrejanos, feridos nas lutas travadas durante a revolução (Celestino Steffanina, “Subsídios para a História…”,1913, págs. 36-39), tiveram melhor sorte que o seu ilustre conterrâneo. Principalmente o soldado António de Sousa (24 anos) que pertencia à 8ª bateria do Regimento da Artilharia 1. Esta unidade foi um dos baluartes da vitória republicana, pela forma denodada com que repeliram, na rotunda (Praça Marquês de Pombal), os ataques das forças monárquicas. Ferido em combate, o militar nascido em Torres Novas, viu os seus actos de bravura serem compensados pela promoção a 1º cabo (A Revolução Portuguesa, pág. 164).

Já o 1º Cabo torrejano, Manoel Graça (24 anos) saiu da contenda com alguns ferimentos, na sequência de uma troca de tiros registada, para os lados de Campolide, entre as forças governamentais e os revolucionários. Ao contrário de António Sousa, Manoel Graça fazia parte dos quadros militares afectos à monarquia, estando integrado no corpo militar da Cavalaria da Guarda Municipal. Mormente o seu heroísmo, António Sousa vê chegar ao fim o regime monárquico e o batalhão em que serviu. Após a Implantação da República, a Guarda Municipal deu lugar à actual Guarda Republicana.

No cumprimento do dever, os valorosos torrejanos souberam estar à altura do grandioso acontecimento histórico, que foi a Revolução de Outubro de 1910. Apesar de o destino reservar-lhes caminhos diferentes.

Passados mais de cem anos da efeméride, resta-nos lembrar, principalmente, o esquecido torrejano que na decisiva noite da revolução morreu no exercício das suas funções. Também ele merece ser colocado na galeria dos heróis do 5 de Outubro, não obstante se encontrar no outro lado da barricada.

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