SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 14:59

A Imprensa Panfletária Católica nas Eleições de 1958 (3)

Outro panfleto, publicado durante a campanha, apela para que os católicos não se esqueçam das grandes verdades emanadas pela igreja. A consciência religiosa obrigava-os a defenderem os princípios da dignidade humana, da justiça e liberdade, que foram postos em causa pelo regime fascista do Estado Novo. Eram do conhecimento geral, os casos de tortura e maus-tratos infligidos nas prisões políticas do governo. Pelo simples facto de alguns portugueses tentarem exercer o seu direito de cidadania, num país repleto de gritantes desigualdades económicas e sociais.

A folha com o título “ O CATÓLICO NÃO PODE ESQUECER AS LIBERDADES DA IGREJA” (retirada da homilia do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes), destaca o 25º aniversário da Acção Católica Portuguesa, alongando-se na reflexão sobre o papel desta organização no país e no mundo.

O objectivo passava por atribuir ao católico uma função mais interventiva e responsável na sociedade: “ Estando no mundo, sem ser do mundo, o cristão consciente tem de ser a alma do mundo. Alma do mundo em todas as dimensões, sem exclusão da política”. Evitando cair no risco de absolutizar a dimensão política.

Um imperativo religioso empurrava-o a impregnar o mundo da doutrina Cristã, assente na justiça e no amor ao próximo: “ Na cidade dos homens o cristão, homem total renascido em Cristo, tem o direito e o dever de ser o mais íntegro, o mais responsável, o mais livre cidadão.

Nada do que é humano civil, social ou político, lhe é estranho. Tendo como lei total o amor bipartido entre Deus e o próximo (…).

A sua contribuição para o bem comum, a sua colaboração na vida cívica e política, direito comum a todo o cidadão, é para ele um dever de consciência, sobre civil, moral e religioso.”

O folheto refere, também, a errada utilização dos princípios do cristianismo, feita pelos católicos ligados ao Estado Novo: “ Dentro do relativismo das realizações importa acima de tudo guardar a hierarquia de valores; nunca o religioso autêntico pode ceder ao moral, nunca o moral autêntico ao social, nunca o social autêntico ao económico ou político. Em nenhum momento e sob nenhum pretexto pode pois o católico esquecer ou subestimar as liberdades da Igreja, nunca confiando a coisa pública a quem não dê as melhores provas de ser capaz de as compreender e respeitar.”

Nestas últimas palavras podemos encontrar alguns dos motivos que levaram os católicos progressistas a rejeitarem a política vigente e a manifestarem o seu declarado apoio ao candidato da oposição. Humberto Delgado assumia-se como o único homem capaz de terminar o ciclo de desrespeito do Estado Novo à liberdade e justiça dos cidadãos. Só o ilustre torrejano poderia garantir uma sociedade livre e civilizada, fazendo retornar “Portugal para a Lei de Cristo”.

Também nas eleições de 1958, algumas vozes ligadas ao catolicismo denunciaram a política de partido único existente no país, própria de um regime totalitarista. O momento eleitoral era propício para exigirem a legalização dos partidos políticos, proibidos pelo fascismo. Um panfleto, posto a circular pela oposição “ Sintomas Políticos”, reafirma essa necessidade, própria dos Estados democráticos. Para o efeito, serve-se das palavras escritas num artigo do semanário de inspiração católica “ Correio de Coimbra”, onde é dito o seguinte: “ Temos de reconhecer que, durante este período, a ditadura se habituou ao mundo, gerando por isso, na maioria dos cidadãos, um desinteresse político que denuncia má preparação cívica, medo de intervir ou discordância silenciada. A opinião pública, sempre fiscalizada pela censura política, perdeu a coragem de colaborar, de estabelecer colóquio, de apontar defeitos ou mesmo de louvar com independência.

(…) Que os partidos gerem debates, corram o risco de interesses ideológicos restritos, tragam consigo o perigo de vários defeitos [como acontece no Portugal de hoje], ninguém deixará de o ver. Mas que também obrigam a estudo, seleccionam homens e impulsionam reformas, afigura-se incontestável.”

A questão da liberdade de imprensa foi um dos leitmotivs presentes na eleição à presidência da República. A oposição deparou-se com enormes obstáculos, cada vez que tentava difundir o programa político de Humberto Delgado. As arbitrariedades do regime sufocavam e corrompiam o exercício de cidadania dos eleitores.

Várias campanhas dos serviços de candidatura do general fizeram o apelo aos católicos para votarem no ilustre torrejano. Num pequeno panfleto – após a citada frase do Papa Pio XII, onde é denunciado o silenciamento da voz do povo-, esclarecem os católicos: “que, nas próximas eleições, só há um caminho a seguir: Votar no GENERAL HUMBERTO DELGADO”.

Era mais uma tentativa da oposição para remediar a contra-informação e propaganda feita pelo Estado Novo. Que tinha conseguido segurar grande parte do seu eleitorado, através de tácticas reprováveis como a calúnia e o medo.

Na campanha eleitoral acontece um facto bastante comum nos panfletos: a frequente utilização das palavras do Bispo do Porto sobre as injustiças e a miséria que assolavam o país. Como é o caso de uma passagem extraída do Jornal” A Voz do Pastor”, de 17 de Maio de 1958. O ilustre torrejano encontrou nas afirmações do distinto servo de Deus um aliado involuntário do seu ambicionado projecto político para Portugal. Que pretendia dar voz aos mais fracos e oprimidos da sociedade, através da defesa dos seus direitos e liberdade.

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