SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 07:06

Soldados Torrejanos mortos na Grande Guerra (3)

Votados ao abandono e à incúria da nação, jazem nos inóspitos territórios ultramarinos os militares torrejanos que lutaram em África. Um silêncio espectral, enorme como o oceano que nos separa, emana das suas maltratadas campas. Símbolo de uma vida, onde o queixume e a revolta contra uma pátria ingrata, não lhes toldou os heróicos pensamentos. Julgaram que a defesa do país justificava o sacrifício dos seus mais fortes e valorosos filhos. Pura inocência! A guerra roubou-lhes os sonhos e as esperanças deixando, por sua vez, nos seus familiares e amigos, profundas marcas de dor, que o tempo não conseguiu cicatrizar. Vidas perdidas com o intuito de suster, momentaneamente, a sede de cobiça e a infinita maldade de alguns dos homens.

Nesta listagem de mortos torrejanos, no absurdo conflito bélico (como todos os outros), encontra-se também o militar João Pereira, nascido a 11 de Dezembro de 1896, no lugar dos Riachos. Desempenhou as funções de soldado clarim no Regimento de Artilharia de Montanha, com o número de identificação 993. A sua campanha em território moçambicano é interrompida pela morte no dia 2 de Janeiro de 1918. Está sepultado na localidade de Ponta Vermelha, Moçambique.

O historiador Artur Gonçalves refere que o soldado torrejano expirou em Mussimboa da Praia, no ano de 1917 (Memórias de Torres Novas, pág. 206).

Na mesma ex-colónia portuguesa sucumbiu o soldado José Francisco dos Santos, com o nº de identificação 469,pertencente ao Regimento de Infantaria nº 23. Era natural da Ribeira Ruiva, freguesia da Ribeira Branca, tendo nascido a 3 de Março de 1895. O relatório aponta como causa da morte a disenteria, ocorrida a 4 de Janeiro de 1917. Está entre o vasto grupo de militares que se desconhece o local onde estão enterrados.

Outro combatente torrejano, que perdeu a sua vida em Moçambique, foi Joaquim dos Santos Ruivo, natural de Parceiros de Igreja, Torres Novas. Desempenhava a função de 1º Cabo, com o número 473, no Regimento de Infantaria nº 23. Uma fatal anemia levou-o à morte no dia 3 de Dezembro de 1918.Desconhece-se o paradeiro dos seus restos mortais. O seu nome também não consta na citada monografia de Artur Gonçalves.

Por fim, falta-nos referir o soldado José Garcia, nascido a 1 de Novembro de 1895, na localidade dos Riachos.

Estava integrado no regimento de Infantaria. Morreu em Luanda, Angola, no ano de 1917. Mas esta homenagem, aos nossos soldados mortos na Grande Guerra, ficaria incompleta se não fizéssemos referência aos militares que prestaram o serviço militar na Escola de Equitação em Torres Novas, e que foram combater para terras de França. Relembremos aqui, também, os seus nomes: Manuel Joaquim Ferreira Serra, soldado do 2º Esquadrão de Remonta, era natural da freguesia de Rates, Póvoa de Varzim. Morreu em combate no dia 20 de Maio de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l’Avoué, Talhão B, Fila 14, Coval 8. João de Nascimento, soldado do 2º Esquadrão, nascido no Rabal, concelho de Bragança, perdeu a vida no dia 14 de Abril de 1918. Ignora-se onde esteja sepultado. João Melchivo (e não, Melchior), soldado do 1º esquadrão, natural de Castainço, concelho do Penedono, morreu a 10 de Maio de 1917. Desconhece-se também o local onde descansam as suas ossadas. Manuel Teixeira, soldado do 2º Esquadrão de Remonta, natural de Fridão (Telões?!), Amarante, sucumbiu em combate no dia 13 de agosto de 1917. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l’Avoué, Talhão C, Fila 19, Coval 7. António Gonçalves, soldado, natural da freguesia de Limões, concelho de Ribeira de Pena, encontrou a morte no dia 26 de Março de 1919, alguns meses após o fim da guerra. Está sepultado no Cemitério de Richebourg l’Avoué,Talhão D, Fila 21, Coval 2. Augusto Gomes, soldado do 1º Esquadrão de Remonta, nascido em São Pedro de Fins, concelho da Maia, morreu em combate a 2 de Janeiro de 1918. Jaz num outro cemitério francês, o de Boulogne-Sur-Mer (onde se encontram 44 sepulturas portuguesas), Talhão B, Fila 2,  Coval 7.  O sargento-ajudante Ricardo Joaquim, era natural de Oura, concelho de Chaves. Militar com diversas condecorações, viu a sua carreira findar no dia 7 de Agosto de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l’Avoué, Talhão D, Fila 9, Coval 18. Também na guerra morreu o soldado António da Costa, pertencente ao 1º Esquadrão de Remonta, da Escola de Equitação. Era natural da freguesia de Avô, concelho de Oliveira do Hospital. José Pereira, soldado do 1º Esquadrão, nascido na freguesia de Atalaia e Carvalhal, concelho de Pinhel, veio a morrer no dia 19 de Maio de 1918. Desconhece-se o local da sua sepultura. Alberto Maria Bravo, soldado do 1º Esquadrão de Remonta, era natural da freguesia de Nossa Senhora da Conceição, Vila Viçosa. Morreu em combate no dia 10 de Junho de 1918. Jaz no Cemitério de Richebourg l’Avoué, Talhão C, Fila 19, Coval 1. Também morreu em França, o soldado António Gomes,pertencente ao 1º Esquadrão de Remonta, da Escola de Equitação. Era natural da freguesia da Gordaria e Santa Cantarina, concelho de Leiria.

No lado este da Praça “5 de Outubro” em Torres Novas, num pequeno espaço denominado “Largo dos Combatentes da Grande Guerra”, foi erigido um monumento que teve como objectivo homenagear os soldados torrejanos mortos no conflito. O autor do projecto, Henrique  César da Silva Campos, ofereceu-o à comissão, no tempo em que frequentava o curso na Academia de Belas Artes. Os embelezamentos artísticos em bronze foram modelados por Francisco dos Santos.

O monumento, com uma altura de cinco metros, foi inaugurado no nono aniversário do armistício, a 11 de Novembro de 1927. Por cima de uma das  pedras da base, podemos observar um equipamento militar de campanha completo em bronze, entrelaçado de uma palma e com uma coroa de louros. No alçado da mesma peça de metal podemos ler a seguinte inscrição: “AOS MORTOS DO CONCELHO NA GRANDE-GUERRA”. E por baixo do artístico troféu: 1914-1918/ ARSENAL DO EXÉRCITO/1927”. Na base do monumento ainda encontramos uma referência, colocada por ocasião dos cinquenta anos do final da guerra: “AOS COMBATENTES MORTOS PELA PÁTRIA/ HOMENAGEM DOS COMBATENTES DA GRANDE GUERRA/ XI-1918 XI-1968”.

A parte superior do monumento está encimada por um cubo, onde, em cada uma das faces, pode-se observar uma cruz de guerra em metal. Também a acompanhar a face dos frisos encontramos um baixo relevo em pedra, com as antigas armas de Torres Novas, que são ligadas por braçadeiras de bronze, tendo em relevo folhas de loureiro.

Nos primeiros tempos do segundo milénio, foi colocada, no primeiro degrau, uma placa de mármore alusiva aos 90 anos do armistício. Contém o seguinte cabeçalho: “ MEMÓRIAS DA HISTÓRIA–2008/90 ANOS DO ARMISTÍCIO – HOMENAGEM AOS TORREJANOS TOMBADOS EM COMBATE”. Segue-se depois uma lista com os nomes de onze soldados torrejanos mortos na Grande Guerra.

Este momento solene redundou numa anódina homenagem, já que enferma alguns equívocos: o número de combatentes do concelho, que morreram no conflito, é deveras superior. Esqueceram-se que a 1ª Guerra Mundial não se restringiu apenas ao espaço europeu. Muito antes do primeiro contingente português rumar para a França, os nossos soldados combatiam em África, há alguns anos. Quase desde o início das hostilidades.

Como estamos na altura em que decorre o centenário da Primeira Guerra Mundial, seria de bom tom dignificar a memória dos nossos combatentes, injustamente esquecidos. Para isso, basta colocar uma nova placa (num local visível e de melhor acesso para o público) onde estivessem evocados todos os torrejanos mortos na Grande Guerra. E, também, não seria incorrecto homenagear numa lápide, junto ao monumento, os soldados da Escola de Equitação de Torres Novas que tombaram em combate ao serviço da Pátria.

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