SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 06:45

Cartas de Soldados Torrejanos na Grande Guerra

No dia 2 de Julho de 1917, partia para Lisboa, um grupo composto por quase quatrocentos militares (alguns deles, nascidos na vila) da Escola de Equitação de Torres Novas, a fim de seguirem para França, como Depósito de Remonta do Corpo Expedicionário Português.

Apesar de iniciarem a marcha pelas 4 horas da manhã, a população torrejana compareceu em grande número no Rossio da igreja do Carmo (respondendo ao apelo do Presidente da edilidade, Pedro Gorjão Maia Salazar), para se despedirem dos soldados que iam participar na Grande Guerra. A efusiva e calorosa homenagem, teve a presença das autoridades torrejanas e de destacadas figuras do concelho. Também não faltou, ao solene momento, a Banda dos Operários da Fábrica que à passagem da Escola, abrilhantou-os com o hino nacional.

Um mar de gente acompanhou, a pé ou de trem, os militares até à estação de combóio no Entroncamento. Que depois viajaram até Lisboa, com destino às terras de França, zona do conflito bélico.

De olhos embargados, os soldados levaram no coração o amor e a saudade dos entes queridos. Um longo período de ausência iria privá-los do contacto com os familiares, amigos e a terra-pátria. Em ambos nascia o mesmo desejo: que a guerra fosse breve. Até lá, para atenuar a dor e a saudade, restaram-lhes, mutuamente, as cartas que escreviam. Cheias de desabafos e de medos por uma ausência que temiam fosse eterna.

Por vezes um assomo de patriotismo aflorava nas missivas dos soldados. Sustentadas pela crença de que estava em jogo o futuro da Humanidade e da Pátria. São desta natureza as palavras escritas pelo soldado de Torres Novas, Manuel Rodrigues, dirigidas a um camarada:

“ França, 29-8-1917

Amigo Joaquim

Do fundo do meu coração desejo que esta minha carta o vá encontrar gozando de uma absoluta saúde e bem assim sua família, que eu fico bom felizmente.

Amigo Joaquim, como sabe que a minha partida de aí que foi a chorar, mas hoje confesso que foi com saudades que parti, mas ao deixar a Pátria, a Família, os amigos, uma certeza absoluta se apoderou de mim, certeza de que o cumprimento do dever para com a Pátria e a Humanidade é superior a todos os sentimentos do coração.

Se uma bala ou as mil maneiras de destruição que esta guerra é fértil, me fizer baquear para não mais me erguer, a morte encontra-me sempre pronto para a viagem eterna, comungando no sacrossanto altar da Pátria, envolto nas dobras da sublime bandeira de Portugal (…).

Luto por mim, por vós, por Portugal e até mesmo pela Humanidade…” (“ O Torrejano”, nº 85, de 23 de Setembro de 1917).

Mas nem sempre o soldado português tinha um familiar ou amigo que escutasse os seus brados de alma. Valeu-lhes, neste cenário hostil e bárbaro, um grupo de mulheres portuguesas (madrinhas de guerra), dispostas a regarem de amor e carinho a insuportável vida dos militares no inferno das trincheiras. Alguns soldados torrejanos corresponderam-se com estas almas-santas, que se prestaram a desempenhar o papel de confidentes nas horas de infortúnio e solidão.

Era frequente haver nos jornais pedidos de soldados, com o intuito de encontrarem uma correspondente de guerra. Foi o caso do soldado Pedro Costa Neves, 1º cabo nº 866, do 2º Escalão – 1º grupo do Combóio-automóvel do C.E.P., natural da aldeia de Árgea. Numa carta dirigida à redacção d’ “O Torrejano” pede-lhes que o ajudem a encontrar “uma madrinha de guerra, deste mesmo concelho” (“ O Torrejano”, nº 84, de 16 de Setembro de 1917).

Um caso mais trágico de isolamento, aconteceu com os militares analfabetos. A maior parte dos soldados do Corpo Expedicionário Português provinham do meio rural, onde a escrita e a leitura estavam ausentes. Com a guerra, foram forçados a abandonar a sua aldeia e a entrarem num mundo onde o conhecimento das letras era uma exigência imprescindível. Privados da ferramenta da escrita, um muro de silêncio erguia-se entre eles e os seus familiares. Por vezes um paciente companheiro escrevia-lhes as missivas carregadas de saudade e desalento. Mas, por vergonha ou orgulho, não se predispunham a pedir que vertessem nas folhas em branco da carta, o que lhes torturava na alma.

Atento às misérias e lacunas humanas, o ilustre torrejano, Augusto Mendes, fez no jornal da terra, um apelo ao povo do concelho, com o objectivo de remediar a intolerável situação. O texto aparece sob o sugestivo título “ Para o soldado português”, e diz o seguinte:

“Abismado com a percentagem pavorosa de analfabetos do Corpo Expedicionário Português, actualmente em França, propôs-se o distinto alferes médico miliciano, Sr. Dr. Augusto de Azevedo Mendes, ilustre filho deste concelho, criar uma Casa de Recreio e Instrução onde os soldados portugueses não só se instruam e eduquem, mas lhes sirva de passatempo nos momentos que o pesado ofício da guerra lhes deixa livres.

Para efectivação de tão prestante ideia necessário se torna que todos interessem por tão patriótico empreendimento auxiliando-o nos limites de seus recursos, por mais modestos.

E assim, podem ser-lhe enviados: métodos de leitura João de Deus, cadernos de escrita ou qualquer papel para escrever, tabuadas, livros de histórias ou de qualquer outra leitura instrutiva, romances e revistas, postais ilustrados, bolos, tabaco, em suma, tudo quanto possa servir de distracção ao soldado ou a estimular a sua vontade” (“O Torrejano”, nº 81, 26 de Agosto de 1917).

Elos de ligação a uma humanidade distante, as cartas dos soldados da Grande Guerra, foram o frágil fio que os mantinha próximos da sanidade. Nas suas linhas desordenadas, escritas ao ritmo da dor e saudade, encontraram o equilíbrio e o ânimo perdidos no teatro de guerra. A correspondência entabulada com os familiares e amigos permitiram-lhe sonhar com a esperança, de um dia, poderem voltar para a sua terra, sãos e salvos.

Quem hoje as lê, sente, nas ternas linhas das cartas, o vibrar da alma de um povo simples e humilde, para quem a guerra foi uma trágica e traumatizante realidade.

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