SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 04:17

Afinidades torrejanas na obra “Felizmente há Luar!”

Há alguma ligação entre a peça de teatro “Felizmente há Luar!”, de Luís de Sttau Monteiro (1926-1993), e Torres Novas?

Pergunta de menor dificuldade, se interpelarmos os nossos alunos do último ano do secundário. A obra é leitura obrigatória neste grau de ensino. O que possibilita o conhecimento do seu enredo e das personagens.

Dado à estampa a 27 de Dezembro de 1961, o livro de Sttau Monteiro procura, sobretudo – através da dramatização do episódio histórico da prisão e consequente enforcamento de Gomes Freire d’Andrade-, retratar o clima repressivo e as miseráveis condições de vida do povo, no reinado de D. João VI. Realidade não muito diferente do tempo autor. Que viu no trajecto político e pessoal de Humberto Delgado uma fonte inspiradora para a feitura da obra.

Sem grandes embaraços, os alunos conseguem responder identificando, por detrás da figura carismática do general Gomes Freire d’Andrade, a atitude corajosa e desassombrada de Humberto Delgado. Um dos filhos mais amados da nossa terra. Que teve, nas eleições presidenciais de 1958, a ousadia de enfrentar o regime salazarista.

O mesmo brilhantismo militar, a mesma popularidade e coragem, enfermam os dois grandes heróis portugueses. Símbolos de esperança e liberdade de um povo, vitimado pela opressão e obscurantismo.

Mas as afinidades torrejanas não se esgotam na figura do ilustre general. Uma outra personagem aparece no texto. Agora com o poder de enredar os alunos numa teia de enganos. Visto possuir o mesmo apelido de um dos mais destacados cidadãos nascidos na localidade do Almonda. Referimo-nos ao delator Andrade Corvo. Na verdade, esta sombria figura existiu. Os seus traços psicológicos não foram produto de um devaneio ficcional do autor do drama.

Luís de Sttau de Monteiro para o caracterizar (como todos os outros intervenientes da peça) socorreu-se da leitura do livro de Raul Brandão “A Conspiração de 1817 – Gomes Freire”. Obra histórica construída com enorme rigor e profusamente documentada. Nas páginas do livro, são divulgados alguns apontamentos sobre a vida, o carácter e a actividade profissional de José de Andrade Corvo de Camões.

Natural de Lisboa, tinha na altura da conspiração 27 anos de idade, e estava integrado nos quadros da infantaria nº 10, com a patente de capitão. Desprovido de quaisquer princípios, ou valores éticos e morais, Andrade Corvo agia sob a capa de um falso patriotismo e fingido “amor à pátria ” (” Felizmente há Luar!” Acto 1, pág. 46, 1961). Postura não muito distante das sinistras personagens que pululam pelos corredores do poder e que ostentam na lapela a bandeira de Portugal (um comportamento pueril, vazio de conteúdo).

Cumulado de êxitos e prebendas pelo regime vigente em 1817, o papel de José Andrade Corvo na história está marcado pelo estigma da traição. Fez parte do séquito de verdugos que denunciaram o general Gomes Freire D’Andrade. Movidos unicamente por interesses materiais e pela conveniência.

Após a execução de Gomes Freire, recebeu, pelo seu acto, a prometida pensão anual de 800 mil réis (Raul Brandão, “A Conspiração de 1817 – Gomes Freire” pág. 278, 1914). Anos mais tarde, foi visto na batalha de Asseiceira com a patente de coronel do exército (op. cit. pág. 354-355).

Apesar de ser lisboeta, José de Andrade Corvo tem fortes ligações a Torres Novas. O seu irmão, Francisco de Andrade Corvo de Camões, viveu na vila almondina, onde esteve integrado no corpo militar da Cavalaria 7. No período da sua actividade profissional, nasceu-lhe, na antiga rua Direita, o filho João de Andrade Corvo. Um ilustre torrejano que se destacou, no país e estrangeiro, nas áreas das letras e da política. Que por sinal, não partilhava as ideias defendidas pelos seus dois familiares, ferrenhos miguelistas.

O percurso do tio de João Andrade Corvo é um autêntico tratado de oportunismo. Como podemos verificar numa passagem dos “Anais e Código dos Pedreiros Livres” e, principalmente, no livro “Polícia Secreta dos Últimos Tempos do Reinado do Senhor D. João VI”, Lisboa, 1835, onde estão registrados episódios da sua vida.

José de Andrade inicia os seus primeiros passos na Maçonaria, integrado na Loja Virtude ao Oriente de Lisboa, no ano de 1814. Irmão diligente, foi um dos três deputados, mandado pela sociedade, para proceder à instalação da Loja Philantropia ao Oriente de Santarém. Nomeado pela mesma Loja como um dos seus representantes, obteve o grau de Rosa-Cruz.

Um curioso apontamento é relatado no livro da “Polícia Secreta…”, a respeito dos elementos da família Andrade Corvo. Diz o seguinte: ” Francisco de Andrade Corvo, foi também recebido maçon na Loja Virtude, e ambos, em certa ocasião, conspiraram contra seu pai e insultaram-no só porque ele disse mal dos maçons” (op. cit., pág.184).

Levado pela ambição, em conluio com a Viscondessa da Juromenha, João de Sá Pereira e Morais Sarmento, atraiçoou os maçons do reino. Esta conjura teve o forte apoio do Marechal Beresford, que via em Gomes Freire D’Andrade um entrave às suas desmedidas pretensões de poder e dinheiro. O tio do nosso ilustre torrejano foi um dos mais fiéis agentes do militar inglês.

A actividade deste membro da família Corvo não passou despercebida à Polícia Secreta no tempo de D. João VI, que vigiou os seus passos. A instabilidade do seu carácter e amizades, tornava-o suspeito ao olhar dos agentes. Deu-se até o caso de violarem a sua correspondência.

Numa das páginas do livro ” A Polícia Secreta…” encontra-se a cópia integral de uma carta dirigida ao seu irmão, Francisco de Andrade Corvo, onde aborda a fracassada tentativa de assassinato do monarca [a Abrilada- 30 de Abril de 1824]. Para festejar o acontecimento, pede-lhe que vá ter com o Juiz de Fora de Torres Novas para que ” se aclame El-Rei, e que se ponham luminárias, e se cante o Te Deum em acção de graças”. Sabemos, também, pelo relato do agente da Polícia Secreta, que o Juiz de Fora da vila rejeitou a descabida solicitação (op. cit., pág.51).

Outras personagens, ricas em densidade psicológica, integram a obra “Felizmente há Luar!”. O mais importante drama narrativo português, na linha do teatro épico do escritor Berthold Brecht (1898-1966). Não cabe a nós, no presente artigo, caracterizá-las. Apenas pretendíamos esclarecer alguns aspectos do livro de Sttau Monteiro, onde é perceptível a presença de elementos ligados a Torres Novas. Julgamos que esse objectivo foi cumprido.

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