SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 16:55

Um Torrejano no mundo das Revistas Literárias em Portugal

O nome de Augusto Moita de Deus (1889- 1961) inscreve-se na história torrejana como um dos grandes promotores de actividades culturais, ocorridas na vila do Almonda. Figura destacada do nosso meio, coube-lhe o papel de dinamizar o projecto de cariz artístico “ Uma Hora Útil”, que trouxe a Torres Novas conhecidas individualidades do panorama literário e político do país.

Por um breve período de tempo (1928 e 1929), o desaparecido Centro Republicano “ 5 de Outubro”, foi palco de momentos sublimes e de enorme paixão pelas artes culturais. Nos seus dois anos de existência, nos meses de Abril a Junho, o sarau literário contou com as presenças, entre outros, de Hernâni Cidade, Brito Camacho, João Barreira, Artur Gonçalves, Bivar Pinto Lopes, Maria Lamas e Rafael Duque. Em cada uma das semanas, o orador convidado expunha um assunto sujeito à reflexão do público-ouvinte.

As palestras incidiram sobre os mais variados temas, como: “ A influência da arte na educação”, “Torrejanos ilustres na história pátria”, “ A crise Política Portuguesa”, “Portugal de além-mar e África” “ A Mulher”, “ O povo na literatura portuguesa”, os “Direitos das crianças”, etc. O Grupo Musical Torrejano era presença assídua nas sessões, através da actuação dos seus músicos.

Este apego de Augusto Moita de Deus pelas coisas do espírito já vinha de longe. Remonta ao tempo de estudante de Direito na Universidade de Coimbra. Altura em que o ilustre torrejano desenvolve a sua actividade nos meios académicos, colaborando em jornais e, principalmente, nas revistas.

É integrado neste último género de publicações que, hoje em dia, o nome de Moita de Deus se inscreve no mundo literário da cultura portuguesa. O ilustre torrejano faz parte do grupo de companheiros de uma geração que editou em Coimbra, a célebre revista “ A Rajada”, na segunda década do século XX, em 1912.

Na história da literatura portuguesa, este período reveste-se de uma enorme importância para a compreensão dos emergentes movimentos literários e estilos. Foram as revistas o meio escolhido pelos jovens poetas e autores para a difusão das suas ideias e afirmação no plano cultural português. Numa década inesquecível, assinalada com as publicações da “ Alma Nova” (1914), “Renascença” (1914), “Atlântida” (1915), “Orpheu” (1915), “Centauro” (1916), “Exílio” (1916), “Portugal Futurista” (1917) e “Ícaro” (1919).

Mas antes de conseguirem vingar, as revistas enfrentaram diversos problemas. Algumas tiveram uma existência efémera. Mal compreendidas e, por vezes, alvo de chacota, soçobraram por falta de apoios financeiros e pela indiferença do público. Caso flagrante, deu-se com a revista modernista “Orpheu”. Desta celebérrima publicação, apenas foram editados dois números e o terceiro não passou das provas tipográficas. Facto que, em parte, envergonha o país. Os seus poetas – outrora rejeitados-, são hoje estrelas maiores dos cânones da literatura. Nomes como os de Mário de Sá- Carneiro, Fernando Pessoa e Almada Negreiros, integram o imaginário colectivo das letras e artes.

A revista mensal “ A Rajada”, não fugiu ao mesmo destino. Publicado o número 1 em Coimbra, no dia 1 de Março de 1912, a sua existência prolongou-se até ao mês de Junho, não chegando a atingir os previstos seis números, necessários para efeitos de assinatura. Ficou-se pelas quatro publicações (em diversas monografias locais, como é o caso dos “Anais Torrejanos” de Artur Gonçalves, referem a existência de seis números o que, na verdade, julgamos estar incorrecto), mais um número especial de apresentação, dedicado à grande actriz italiana, Mimi Aguglia. Em torno desta famosa vedeta do teatro e do cinema, há uma história singular: a actriz nasceu num palco de teatro em 1884, quando a sua mãe representava o papel de Desdémona, personagem feminina da peça “Otelo”, de William Shakespeare.

Os novos poetas pretendiam com a revista falar “ aos corações em rajadas de emoção… porque com eles tudo vive.” (Rajada, nº 3, pág. 22). O estilo literário aproxima os autores dos textos das correntes decadentistas e simbolistas (exemplos das poesias “O elogio dos sons” e “Coimbra – Ao ritmo da Saudade” de Casimiro de Brito, A Rajada, nº 1 e nº3). Há quem os associe ao movimento saudosista pelo facto de muitos dos seus colaboradores também terem participado na conhecida revista “A Águia” (1910). Como são os casos do seu director literário Afonso Duarte, Manuel Laranjeira (faleceu uns dias antes do aparecimento do nº 1 da revista “A Rajada”), Jaime Cortesão, Mário Beirão e Veiga Simões. Os poemas, “Alegoria da Tarde” e “ Crepúsculo” de Afonso Duarte, traduzem essa estética saudosista, na linha de um Teixeira de Pascoaes.

Nota-se no periódico um elevado apuro gráfico e formal, motivado pela excelente colaboração de alguns conhecidos artistas plásticos, nomeadamente, o seu responsável artístico, Correia Dias. Ao longo da sua curta existência, a revista brindava os leitores com desenhos saídos da pena do citado director artístico, de Christiano Cruz, Balha e Melo, Luís Filipe e do genial Almada Negreiros.

Para tentar diminuir os custos de edição, no periódico havia espaços onde eram divulgados anúncios comerciais, muitas vezes estranhos ao propósito da publicação. Na contracapa dos três primeiros números, “ A Rajada” faz o reclamo de uma alfaiataria. Na parte interior da revista, aparece publicitado o Depurativo Assis. Uma tisana que tinha por objectivo curar os indivíduos “das doenças sifilíticas em todas as suas manifestações”. Este artificialismo não conseguiu colmatar o fracasso financeiro do periódico.

Apesar da sua curta duração, Moita de Deus conseguiu reunir na revista uma plêiade de colaboradores que mais tarde singrariam nas letras e no jornalismo nacional. Além dos citados nomes, poderíamos referir: Artur Ribeiro Lopes, Joaquim Manso, Nuno Simões, João de Barros, Acácio Leitão, Alves Martins, etc. Os seus méritos de grande dinamizador cultural reflectiram-se no importante papel que desempenhou ao assumir as funções de proprietário e editor d’ “A Rajada”. Sem o contributo e entusiasmo de Augusto Moita de Deus, a literatura não abordaria nos nossos dias esta importante aventura de alguns dos nossos conceituados escritores. Numa publicação que ocupa um lugar indelével na apaixonante história do mundo das revistas literárias em Portugal.

One thought on “Um Torrejano no mundo das Revistas Literárias em Portugal

  1. uma página acerca de meu avô saída no jornal Almonda de torres novas…..como senhor de grande intelectualidade como podes ver a que se seguiu meu pai,mas que muito que leu não nos deixou a biblioteca do mais velho que só pôde ser vendida em leilão de uns bons milhares de livros

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