SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 09:47

A Indefectível Amizade de um Torrejano pelo seu Infeliz Monarca (2)

O 9º Visconde de Asseca torna-se no exílio do monarca, um dos seus elementos mais valiosos. D. Manuel II dá-lhe plenos poderes de representação da casa de Bragança, quando não lhe é possível estar presente. Anos mais tarde, numa altura em que a facção miguelista clamava para si o direito à coroa de Portugal, reitera essa delegação, numa carta escrita a João Ferraz de Sequeira: “ Vejo muitas vezes nos jornais que a Casa de Bragança se fez representar, neste ou naquele funeral etc. no qual às vezes Eu não estou representado. Ora a Casa de Bragança sou Eu. Julgo pois conveniente restringir essa representação da Casa de Bragança, a Casa de Bragança é a administração da Minha Casa (…). Pode falar nesta questão com o Conde de Tarouca e com o Visconde de Asseca, que são as duas pessoas que me representam e a quem dei poderes para nomear Meus representantes” (24- 01-1926).

Esta incómoda interferência de D. Miguel na sucessão do reino de Portugal já vinha de longe. Aconteceu pouco tempo depois do início da República. Numa altura em que, o silêncio de D. Manuel II e o fraco apoio dispensado aos resistentes monárquicos, acantonados na Galiza, faziam pensar que o rei tinha desistido de voltar a conquistar o ceptro real. O que não era verdade! Estando num país estrangeiro, era incorrecto D. Manuel II utilizar a sua situação de exilado, para chefiar os grupos contestatários ao novo regime.

D. Manuel II, apercebendo-se que as divisões existentes entre os dois ramos da casa de Bragança, enfraqueceriam uma possível restauração da monarquia, aceita reunir-se com D. Miguel. Esta primeira tentativa de reconciliação denominou-se Pacto de Dover, estabelecido a 30 de Janeiro de 1912. Neste histórico encontro esteve presente o Visconde de Asseca, na qualidade de acompanhante do rei. É, em parte, baseado neste acordo que assistimos à continuidade da Casa Real de Bragança.

Num dos pontos do texto, redigido por Paiva Couceiro, D. Miguel reconhecia a D. Manuel II o direito ao Trono de Portugal. Em contrapartida, o monarca português, garantia que se não tivesse herdeiros, o direito à coroa real pertenceria ao Infante D. Duarte, terceiro filho de D. Miguel.

Mas os partidários miguelistas não viam com bons olhos a renúncia do seu eleito ao trono. Deste modo, a carta posteriormente redigida por D. Miguel, não correspondia à minuta acordada por D. Manuel II. O rei fora traído na sua boa-fé. No seu gabinete de trabalho confessa a desilusão ao nosso ilustre torrejano e ao marquês de Soveral.

Depois disso, muita tinta tem corrido à volta do Pacto de Dover. Já depois da trágica morte do rei D. Manuel II, o Visconde de Asseca (figura sempre presente nos momentos cruciais da vida do monarca) escreveu à rainha-mãe, D. Amélia, estas conclusivas palavras:

“É muito difícil, infelizmente, a que chegámos!, arranjar quem não tenha aceite D. Duarte (…).

Os monárquicos, como Vossa Majestade sabe, para encobrirem a sua covardia no 5 de Outubro, não se achando onde deviam, inventaram a lenda do «Rei fugiu». Porque se não o tivesse feito, eles teriam exposto o peito às balas, etc.

Agora, muitos ainda se encobertam com El-Rei para aclamarem D. Duarte, dizendo que na Sua vida Ele disse que não tinha dúvida em o aceitar como Sucessor, e vêm com os acordos.

Tudo isso é um facto, mas El-Rei punha uma condição «sine qua non» e era que O reconhecessem como Rei. O que nunca fizeram, e choram, mas agora só lágrimas de crocodilo sobre o «Malogrado Primo». Os acordos foram três desacordos [referência também ao Pacto de Paris]. Uma miséria o que ouço dizer que se passa (…).

Conto demorar-me aqui até 20 e não demoro mais por causa do Natal. É-me extremamente desagradável encontrar a cada passo gente de pouca lealdade e carácter, e muitos a quem o Rei tanto queria!” (Sidró, 29-11-1932).

Mas na curta vida de D. Manuel II também existiram momentos de grande felicidade, os quais foram vividos com a incontornável presença do nosso ilustre torrejano. Um deles, ligado ao seu casamento com D. Augusta Vitória, familiar do imperador Guilherme II, no dia 4 de Setembro de 1913. Foram convidados para a boda do rei, um pequeno grupo de amigos, entre os quais a família dos Asseca. Durante a cerimónia, Salvador Correia de Sá (Visconde de Asseca) é agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, em reconhecimento dos serviços prestados a favor do seu amigo e monarca.

Depois do casamento, D. Manuel II passa a residir na sua propriedade, em Fulwell Park, Twickenham, nos inícios de 1914. O casal tem por hábito receber convidados na sua casa. O Visconde de Asseca está entre os amigos chegados que assiduamente frequentam a bela residência dos noivos. Também acompanha o rei nos banquetes e em cerimónias protocolares. Outra tarefa desempenhada pelo distinto torrejano consistia em ser o intermediário na concessão e uso de títulos nobiliárquicos, dirigidos ao rei, por parte das famílias nobres portuguesas.

Com a primeira guerra a actividade do monarca vai centrar-se na ajuda e protecção dos portugueses que integravam o Corpo Expedicionário. A ele se deve a construção da sala de operações do Hospital Português, em Paris. É durante o período da guerra, em 20 de Setembro de 1915, que D. Manuel elabora o seu célebre testamento. O nome do Visconde de Asseca aparece como um dos executores testamentários em território estrangeiro, acompanhado pela casa Coutts & Cª.

Finda a guerra, a atenção de D. Manuel recai sobre a tentativa de restaurar a monarquia em Portugal. O descontentamento da maior parte dos portugueses pelos caminhos trilhados pela República, incentivavam-no a agir. Nesta empresa, o rei contou com a ajuda de Salvador Correia de Sá. Ele foi um dos elos de ligação com os chefes do golpe: os lugares – tenente do rei, Paiva Couceiro e Aires de Ornelas.

Mais uma vez a tentativa de restauração da monarquia redundou num fracasso. O desânimo começou a apossar-se do monarca. Cada vez mais isolado, e contando apenas com amizade de um grupo restrito de amigos, D. Manuel II volta ao seu trabalho de pesquisa da literatura medieval e renascentista portuguesa.

Quando se preparava para finalizar um novo estudo sobre esta importante época da nossa literatura, a morte veio surpreendê-lo estupidamente. No dia 2 de Julho de 1932, aos 42 anos. Com este rude golpe, o Visconde de Asseca perdia o seu fiel companheiro de jornada. Na vida, são escassos os exemplos de amizade que se comparem àquele que existiu entre o rei D. Manuel II e o Visconde de Asseca.

O destino ainda reservaria ao ilustre torrejano mais dois préstimos ao finado rei: na catedral de Westminster, em Londres, coube ao desolado Visconde de Asseca o papel de orquestrar o protocolo régio, na presença de vários reis, nobres da Europa e dos embaixadores de Portugal, Brasil e Espanha.

O outro préstimo aconteceu na transladação dos restos mortais do rei para Portugal, conforme vontade expressa em vida por D. Manuel II. No dia 29 de Julho, o navio britânico Concord saía de Portsmouth a caminho de Lisboa. Segundo a “Gazeta dos Caminhos de Ferro”, nº 1236, de 16 de Junho de 1939, pág. 300, o Visconde de Asseca foi quem “representou nas exéquias a senhora D. Amélia e a viúva srª D. Vitória, tendo nesta qualidade sido, o único português que acompanhou o féretro régio a bordo do cruzador inglês.”

A 2 de Agosto os restos mortais de D. Manuel II descansavam, por fim, ao lado do seu pai e irmão, na igreja de São Vicente de Fora.

O Visconde de Asseca ainda duraria mais alguns anos. Falece em 12 de Junho de 1939, vitimado por uma hemorragia cerebral. Por essa razão, no corrente mês, assinalam-se os 75 anos do desaparecimento de Salvador Correia de Sá Benevides Velasco da Câmara (9º Visconde de Asseca). Uma efeméride que levou-nos a alinhavar estas toscas palavras. Para que conste, no mosaico da memória colectiva torrejana, alguns aspectos da vida e do carácter deste ilustre filho da nossa terra. A quem D. Manuel II devotava uma enorme e sincera amizade.

Nota: Na primeira parte do artigo, onde se lê “Afonso III”; deve ler-se “Afonso XIII”.

Vitor Antunes

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados