SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Junho 2021, 23:22

A Indefectível Amizade de um Torrejano pelo seu Infeliz Monarca (1)

Se procurarmos nas diversas monografias e artigos sobre Torres Novas, dados a propósito do 9º Visconde de Asseca (1873-1939), somos confrontados pela ausência de elementos que abordem esta importante figura torrejana. Artur Gonçalves, em duas obras (“Memórias de Torres Novas”, pág. 143; e “Anais Torrejanos”, pág. 87), ainda tece uma singela informação sobre um dos membros desta nobre família, a saber: António Maria Velasco Correia de Sá, 8º Visconde de Asseca, pai do nosso eventual biografado, que desempenhou as funções de presidente da Câmara, de 1876 a 1879.

Anos antes do patriarca da linhagem estar à frente dos destinos camarários da vila, nascia em Torres Novas, o seu filho, Salvador Correia de Sá e Benevides Velasco da Câmara. A certidão de nascimento agrega-o à freguesia de Santiago, em 14 de Dezembro de 1873.

Desde muito novo, o segundo rebento do 8º Visconde de Asseca, abraça a carreira militar, onde atingiu a patente de capitão, na arma de Engenharia. Mas é na qualidade de oficial-mor da casa real, par do reino e secretário de D. Manuel II no exílio, que a sua acção adquire maior destaque. Próximo do último monarca português, a existência de Salvador Correia de Sá está povoada de situações vividas no mesmo palco da História do seu rei e amigo. Em incidentes com enorme impacto na trajectória social e política do país.

Esta filigrana de encontros vão testemunhar o irrepreensível afecto do nosso ilustre torrejano pelo jovem monarca. Ele foi a estimada mão que confortou e protegeu o desventurado rei nas tumultuosas intempéries do seu destino. Numa inequívoca prova de verdadeira amizade. Que apenas existe entre homens de bem, onde cada encontro é uma marca da perfeição moral e da indissociabilidade que une duas almas gémeas virtuosas.

Os manuais de História dão conta dessa presença e encontros relevantes bastante cedo. Um dos primeiros, acontece no final da adolescência do futuro monarca. Naquele que é considerado como o pior momento da sua vida: falamos do fatídico 1 de Fevereiro de 1908, data em que o pai, rei D. Carlos, e o irmão, príncipe Luís Filipe, são assassinados. Nesse dia, D. Manuel II, da parte da tarde, tinha almoçado tranquilamente na companhia do Visconde de Asseca e do seu perceptor, Franz Kerausch. Nada fazendo prever a tragédia que se avizinhava.

Pouco depois, pelas quatro horas, D. Manuel II sai do Paço das Necessidades, num landau (carruagem aberta) com o nosso ilustre torrejano, em direcção ao Terreiro do Paço, para esperar Suas Majestades e Alteza, que chegariam ao cais de barco. Na viagem de regresso, a carruagem onde seguiam os quatro elementos da família real, é atacada. Sobrevivem aos disparos inimigos, a rainha D. Amélia e D. Manuel II, com um pequeno ferimento na parte superior do braço direito. Neste infeliz cenário, as palavras amigas do Visconde de Asseca (entre a de outras pessoas próximas do rei) tiveram o condão de atenuar a dor do futuro monarca, contribuindo para a sua recuperação anímica.

Após a eleição de D. Manuel II como rei de Portugal, a presença do Visconde de Asseca torna-se mais frequente nas diversas cerimónias reais. Tanto no país como no estrangeiro.

Em Novembro de 1909, o monarca viaja para Londres, aceitando o convite endereçado no mês de Julho por Eduardo VII. O périplo leva-o a passar por Espanha (onde é recebido por Afonso III) e França. O Visconde de Asseca integra a comitiva real, desempenhando as funções de ajudante-de-campo do rei. Foi uma das poucas vozes em quem D. Manuel II depositava uma enorme confiança. Algum tempo depois, os acontecimentos vieram provar a incondicional fidelidade do ilustre torrejano.

Aconteceu com revolução republicana do 5 de Outubro. Nessa altura, o rei achava-se no Palácio das Necessidades. Prevendo a gravidade da situação o monarca mantinha-se alerta, para que pudesse tomar uma medida, de acordo com o evoluir dos acontecimentos. Cercado no palácio, algumas balas dos revolucionários atingem as janelas colocando em risco a vida do monarca. Muitos dos seus fiéis súbditos abandona-o. Dos ajudantes-de-campo do rei apenas comparecem o almirante Hermenegildo Brito Capelo (velha glória das lides africanas) e o nosso conterrâneo Visconde de Asseca.

Mas o curso dos acontecimentos favoreceu a vitória dos republicanos. Com a instauração do novo regime D. Manuel II é deposto. Parte para o exílio, a bordo do Yatch Real Amélia, rumando em direcção a Gibraltar, onde chega na tarde de 7 de Outubro de 1910. Nesse mesmo mês, no dia 16 de Outubro, o monarca com a sua mãe e um reduzido grupo de amigos, embarcam para a Grã-Bretanha, fixando-se em solo Inglês, no palácio de Woodnorton; propriedade do irmão da rainha, D. Amélia, o duque de Orléans. Após um breve período em que viveu na companhia do seu tio, fixa-se em Richmond, perto da capital inglesa.

Sabendo que não podia continuar a exercer a actividade militar no país sem que traísse a ligação que o unia ao rei, o Visconde de Asseca demite-se. Vai também para a Grã-Bretanha, fixando-se primeiramente em Londres. O destino reservava-lhe um importante papel na vida do desventurado monarca.

(continua)

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