SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 09:31

O Marechal Massena em Torres Novas (3)

As condições do exército francês iam degradando-se em resultado da crescente penúria de alimentos e forragens que afectavam os soldados e animais. Segundo previsões de alguns dos seus lugares-tenentes, os recursos da região não durariam para além de Janeiro. Entregue a si próprio, Massena tinha que encontrar respostas para resolver o problema. A acrescentar a este obstáculo, os frequentes conflitos e desobediências dos oficiais franceses prenunciavam o fracasso dos planos do príncipe de Essling na derradeira conquista de Portugal.

Também as hesitações de Napoleão Bonaparte e a longa espera dos ansiados reforços, contribuíram para o colapso moral que alastrava pelos regimentos acantonados no concelho de Torres Novas e em outros pólos do território, distribuídos por Santarém, Rio Maior, Tomar e Ourém.

Nos primeiros dias do ano de 1811, uma nova contrariedade vem ensombrar o desanimado exército napoleónico: Agasseau, ajudante-de-campo de Massena, morre longe dos seus pais e da sua pátria. Na igreja principal de Torres Novas construíram um túmulo para abrigar os seus restos mortais (Marbot, Memórias, pág. 93). Meses antes, um outro oficial, ao serviço do príncipe de Essling, foi sepultado na igreja da Misericórdia, junto à parede, ao lado do púlpito. A inscrição em francês, afirma tratar-se do capitão Jean Barbu, falecido nos finais de 1810.

Entretanto a miséria das tropas napoleónicas tinha atingido a sua última fase. Sobrevivendo às expensas das rações, um terço do exército ocupava-se em fazer a ronda e esquadrinhar os campos na procura de alimentos sem resultados concretos. Em Torres Novas, uma parte das tropas acantonadas, tinham abandonado a vila, por motivo da falta de pão. Apenas havia uma diminuta reserva de carne (Gazeta de Lisboa, nº 9, 10 de Janeiro de 1811). O príncipe de Essling, perante o desastroso quadro, tomou uma decisão: no termo de Janeiro atravessaria o Tejo, deixando o seu 6º corpo para guardar as comunicações, conjuntamente com o 9º.

A eventual ordem de retirada estava assente, quando no dia 6 de Fevereiro, o general Foy chegou aos “ postos avançados do 6º corpo trazendo 1862 homens e 110 cavalos pertencentes, na sua maioria, ao 2º corpo. Todos os ofícios do major-general que ele trazia eram referentes a acontecimentos passados e, portanto, de pouco interesse, com excepção de um que revelava as intenções de Napoleão. O Imperador -dizia- considera de máxima importância que tenha constantemente os ingleses em respeito e disponha de pontes sobre o Zêzere e o Tejo. A estação vai pôr-se boa para as operações militares, e terá meio de flagelar os ingleses e de infligir-lhe perdas.” (General Koch, Memórias de Massena, pág.159).

Perante as ordens expressas de Napoleão, restava a Massena revogar a proposta que tinha feito no dia anterior, e seguir o plano arquitectado pelo Imperador, com o intuito de fazer perder homens aos ingleses, atraindo-os a pequenas batalhas. Estas escaramuças serviriam para dar vantagem ao exército francês num hipotético confronto final.

A opção suscitou, durante algumas semanas, imensas dúvidas à perspicaz inteligência do marechal Massena. No seu pensamento de grande estratega brotaram vários cenários possíveis, capazes de solucionar o problema. Mas não queria escolher o mais adequado sem que ouvisse os chefes do seu Estado-Maior.

Surgiu-lhe então a ideia de organizar um encontro informal entre os generais, a que erradamente foi atribuído o nome de “ Conferências da Golegã”. Na verdade, segundo o biógrafo do príncipe de Essling, este evento conta-se nos seguintes termos: “ Massena (…) repugnava-lhe convocar um conselho de guerra porque as decisões nele tomadas acorrentavam, de certo modo a vontade de um general comandante-em –chefe (…). Usou, pois, de astúcia para obter as vantagens de um conselho de guerra sem lhe suportar os inconvenientes, e, sob pretextos diferentes, convidou os seus lugares-tenentes para uma visita ao general Loison a 18 de Fevereiro, na Golegã. Loison mandara organizar um almoço para o qual convidara outros generais, e foi assim que Massena, os duques de Elchingen e de Abrantes, Reynier, Éblé, Lazowski, Fririon, Foy, Solignac e Loison se acharam sentados à mesma mesa e que depois de almoço conversaram, muito naturalmente, sobre a situação” (General Koch, Memórias de Massena, págs. 162-163).

Alguns autores atribuem a Junot, duque de Abrantes, o papel de anfitrião. Quanto à data, há também um equívoco: muitos autores – incluindo a própria duquesa de Abrantes, nas suas “Memórias”-, falam no dia 15 de Fevereiro, contradizendo a data que surge na biografia de Massena. (Memoires de madame la duchesse d’Abrantès, vol.3, pág.97)

A discussão não trouxe resultados clarividentes, tendo terminado sem que Massena se pronunciasse sobre o que pretendia fazer. Mas, dois dias depois, o príncipe de Essling recebeu de seu general Reynier, uma síntese escrita do que tinha acontecido na localidade ribatejana, com o título “ Conferências da Golegã”. A estupefacção do marechal foi enorme, pois eram omissas certas conclusões que referiu, e expressas ideias que apenas estavam na cabeça do autor do texto. Por outro lado, o seu carácter formal impregnava-o de uma importância que ultrapassava o propósito do encontro: “ Massena dirigiu fortes censuras a Reynier pela sua leviandade: Primeiro, fiquei surpreendido – disse-lhe-, por causa do nome Conferências da Golegã que deu a uma simples conversa que tivemos durante o almoço que o general Loison nos ofereceu no passado dia 18. Mas o meu espanto aumentou quando li reflexões das quais nem uma única palavra foi dita e encontrei alteradas aquelas que realmente foram feitas.” (General Koch, Memórias…, pág. 168)

Para desfazer equívocos que poderiam ser usados contra si, Massena deu a conhecer o texto aos generais que estiveram presentes (nota escrita em Torres Novas, no dia 20 de Fevereiro de 1811), reconhecendo todos, excepto o duque de Elchingen, “ as inexactidões e omissões” do texto.

No sentido de evitar uma surpresa por parte do inimigo, Massena deu ordens ao seu exército para que estivesse “ em condições de retirar ou de atacar”, aguardando, entrementes, pela resposta do Imperador, que deveria chegar entre os dias 5 e 20 de Março. Só que a missiva demorava em chegar.

A fome e o descontentamento redobravam nas fileiras do seu exército. Consultados os seus oficiais sobre as reservas de alimentos, Massena ouviu de Junot, o veredicto que “ já não teria pão a partir de 1 de Março, que a sua cavalaria e a sua primeira divisão já não tinham carne nenhuma”. Reynier teceu um quadro mais sombrio argumentando que “ o único meio de aguentar até 10 de Março é comer a reserva toda, e o 2º corpo não tem outros recursos” (General Koch, Memórias de Massena, págs. 169-170). Também a doença alastrava pelo seu exército. Só em Torres Novas encontravam-se três mil doentes. Em meados de Fevereiro, um surto de diarreia levou à morte um número considerável de franceses (Gazeta de Lisboa, nº 45 de 21 de Fevereiro de 1811).

O príncipe de Essling viu chegar o momento da retirada sobre Coimbra. No dia 1 de Março, deu ordens aos chefes de corpo, com as seguintes disposições: “ o movimento devia começar na noite de 5 para 6, pela Golegã, Tomar, Ocaril, Venda Nova e Espinhal para o 2º corpo, e por Torres Novas, Chão de Maçãs, Boiça e Pombal para o 8º. O duque de Abrantes e Reynier [enviariam] para Torres Novas os seus batalhões de carga para transportar os seus doentes para Tomar, no dia 5 à noite; a sua artilharia devia desfilar para Torres Novas, com excepção das duas peças do 8º corpo e das de 3 do 2º” (General Koch, Memórias…, pág. 171).

Terminava assim o domínio dos invasores franceses, sem que Torres Novas tivesse escapado às suas crueldades. Um cenário dantesco caíra sobre a população e edifícios: as casas estavam completamente desmoronadas; as ruas repletas de objectos queimados e destruídos (Gazeta de Lisboa, nº 69, 21 de Março de 1811) Os seus esqueléticos habitantes procuravam na imundície restos de alimentos que pudessem minorar a fome devastadora, que os reduziu a esquálidas figuras. Um rasto de cadáveres dos soldados franceses, ia-se formando à medida que o seu exército abandonava Torres Novas. Fragilizados pela fome e moléstia, jaziam mortos pelas estradas. (Gazeta de Lisboa, nº 60, 11 de Março de 1811).

A retirada do exército francês da vila deveria constar nos anais da história como o prelúdio da derrocada do Império de Napoleão Bonaparte. A partir desta data, uma onda de fracassos e derrotas vai assolar as hostes francesas, até à queda do imperador e ao apagamento do seu sonho.

Na parte final das suas memórias, Massena apresenta as diversas causas que estão na origem do desaire da tentativa de unificação napoleónica. Vale a pena recordar a perspicaz ilacção do príncipe de Essling, no momento em que se constrói o projecto europeu: “ um império gigantesco, fundado por dez anos de vitórias e que não dispunha de quaisquer vínculos além da força, não podia [pode] durar muito tempo” (General Koch, Memórias…, pág. 278).

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