SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 01:22

O Marechal Massena em Torres Novas (2)

O recato da vila torrejana serviu para que o marechal Massena, pudesse arquitectar os planos que permitiriam às suas tropas atravessar o Tejo, com o objectivo de conquistar Portugal. Também vieram, para os improvisados hospitais de Torres Novas e Tomar, os feridos e doentes que se encontravam em Santarém.

No tempo de pausa concedido pela guerra, as tropas do príncipe de Essling ocupavam o seu dia-a-dia na leitura e em outras distracções. Além dos veraneios pelos jardins e lugares aprazíveis da vila, o exército francês divertia-se com as representações teatrais, protagonizadas por elementos pertencentes aos próprios regimentos. Muito populares foram as peças de teatro de fantoches. Marbot destaca a sua importância para a elevação anímica das tropas: “ O tenente Perron, piemontês, de uma família distinta, feio, mas muito espiritual e com um carácter jovial, maravilhou os nossos momentos de tédio durante o inverno de 1810, que passámos na pequena cidade de Torres Novas, onde as chuvas torrenciais nos detinham. O marechal e os seus generais vinham, de vez em quando, recuperar ânimo ao teatro de marionetas que ele tinha sabido organizar” (Marbot, “Memórias”, pág. 19).

As actividades comerciais não pararam na localidade do Almonda. Os artesãos franceses abriram as lojas do comércio, entretanto desocupadas pela fuga dos seus donos, prestando serviços aos habitantes autóctones. Os negócios foram retomados com o seu eficaz apoio.

Mas a presença inimiga nem sempre espelhou o clima de paz e cooperação, perfilhados nas memórias de alguns intervenientes bonapartistas na guerra peninsular. O domínio francês encontra-se marcado por actos ignominiosos. A par de outras selvajarias, os soldados de Massena foram responsáveis pelo roubo e destruição de bens pertencentes aos cidadãos torrejanos e às suas igrejas. Um testemunho da época, escreveu o seguinte comentário inédito a propósito das atrocidades cometidas pelos franceses: “ (…) Seguiu-se o estrago de algumas igrejas; e tomam estes monstros o título de Católicos Romanos, quebrando, arrombando os sacrários, derramando as Sagradas Formas, chegando ao tremendo e mais que sacrilégio insulto de as calcarem aos pés das bestas, somente com a avareza do pequeno resultado das píxides, e cálices!! Quando os antigos Pagãos respeitavam no último ponto os Templos, e em vez dos arrombarem os enriqueciam com os despojos das suas vitórias! Oh Deus!!!” (Reverendo Beneficiado M. J. da S. C.C. F. ; “Memórias Cronológicas, Críticas e Circunstanciadas das Invasão dos Franceses em Portugal”, terceira parte, pág. 136). A Santa Casa da Misericórdia da vila, foi uma das instituições religiosas do concelho que sofreram maior delapidação pelas mãos rapaces dos invasores.

Se ao princípio, os franceses mantiveram algum espírito de cordialidade, este desvaneceu-se rapidamente. Várias narrativas dão conta das espoliações e ataques a pessoas, ao ponto de as levarem a abandonar as suas terras. O periódico a “Gazeta de Lisboa”, número 299, de 14 de Dezembro de 1810, descreve o êxodo forçado dos habitantes da zona do Médio Tejo: “ Têm chegado ultimamente muitas pessoas vindas do termo de Tomar, e de Torres Novas; por elas sabemos que as extorsões, e violências dos Franceses têm crescido a um ponto inaudito: eles trataram ao princípio com menos crueldade aqueles habitantes, que por ambiciosos, por irresolutos, ou por impossibilidade absoluta não largaram os seus lares. Porém, era evidente que aquela menor crueldade era afectada: os Franceses não trazem, nem jamais trataram de comprar armazéns de víveres, não trazem caixa militar; não têm calçado, nem fardamentos, etc. Enfim, não têm coisa alguma; e por consequência devem pedir tudo aos povos, onde estiverem- etapa- fardamentos – calçado – soldos; além dos roubos que todos os Franceses querem fazer, para levarem ou mandarem para França; o que não tem conta. A propriedade dos Povos invadidos é, pela mesma constituição actual militar dos Franceses, nula para eles; se não levam toda nos primeiros dias, é porque a deixam em depósito para desfrutarem, à proporção que lhes for precisa. É assim que sucedeu, particularmente em Torres Novas, onde ficou mais alguma gente, e mesmo nas outras partes; trataram-nas como a crianças, a quem se unta com lambedores a borda dos copos, por onde se intenta dar – lhes remédios amargos: muitos porém não caíram no engano; mas já era tarde. Enfim pedirão primeiro, contribuição de mantimentos, de camas, de calçado; depois uma de quarenta mil cruzados, com grandes ameaças se não a aprontassem: vendo a gente que não podia satisfazer a tanta requisição, e que elas iam em uma progressão contínua e não interrompida, resolveram-se a fugir, e a seguir o exemplo que no princípio lhes deram muitos dos seus patrícios, e a grande maioria de todas as Povoações. Os homens não vieram para Lisboa; armaram-se, reúnem-se em partidas, e têm degolado muitos Franceses” (págs. 2-3).

À medida que os soldados desenvolviam esforços na busca de provisões, aumentavam o saque e a brutalidade. Esta última decisão, era muitas vezes desnecessária. O principal ajudante-de-campo de Massena, numa passagem das suas memórias, refere a contínua visita às residências na procura de alimentos: “ Descobriam-se de vez em quando alguns depósitos escondidos em Santarém e Torres Novas; acabámos mesmo por ordenar visitas em regra, às casas maiores, para procurar o grão que se pensava escondido” (General Pelet-Closeau,” Memoires sur ma Campagne du Portugal (1810-1811)”, pág. 368).

Os excessos provocados pelos maus instintos de alguns elementos dos regimentos franceses, não tiveram o assentimento por parte do marechal Massena. Ao saber das situações, o príncipe de Essling, insurgiu-se contra a bestialidade que ia apossando-se dos soldados. Prontamente, emitiu uma circular para os seus lugares-tenentes, ordenando-lhes que punissem os homens que cometessem tais malfeitorias: “ Verifico que certos soldados destacados para procurar alimentos se entregam aos mais inauditos excessos (…). A honra das armas do Imperador e a generosidade do carácter francês revoltam-se de igual modo contra semelhantes atrocidades (…). Mandai punir exemplarmente os desacatos que a vossa vigilância não haja podido evitar; aplicai aos culpados todo o rigor das leis; dai aos castigos que tiveres de infligir uma tal publicidade que faça despertar o temor daqueles que precisarem de lições para recordar que são homens e franceses” (General Koch, “Memórias de Massena”, págs. 146-147).

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