SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:08

A actualidade do pensamento político de Andrade Corvo

No ano de 1870, aparece nos escaparates da imprensa escrita uma das obras mais inquietantes e premonitórias do século XIX. Tem como título “Perigos”, e é da autoria do nosso conterrâneo João de Andrade Corvo (1824-1890). Nela, o ilustre autor tece incisivas considerações sobre o lugar de Portugal numa Europa dominada pela ambição das grandes potências que tentavam subjugar os países mais frágeis.

O instável período histórico apontava para o aparecimento de teorias raciais e nacionalistas, que punham em causa o progresso e a felicidade dos povos. À cabeça das pretensões hegemónicas colocava-se a Alemanha, almejando a constituição de um Império, sustentado pela pretensa superioridade da raça germânica.

Neste quadro conturbado, onde o estado de guerra era uma realidade (ontem pelas armas, nos nossos dias, por meio da economia e finanças), Andrade Corvo expôs no seu livro os perigos que corriam as pequenas nações. A sólida experiência que granjeou no exercício da diplomacia, faziam dele uma voz equilibrada, capaz de entender o clima de enorme desolação vivido numa Europa esmagada pela força e egoísmo dos poderosos países. Onde o direito e a justiça tinham sido esquecidos.

Os anteriores alertas escritos por Andrade Corvo ganham, no contexto actual, uma cruel actualidade. Integrado na União Europeia, Portugal volta novamente a passar pelo amargo cenário do perigo da perda de autonomia e capacidade de progresso. Hoje, também vivemos num tempo em que assistimos à quebra de solidariedade dos países mais ricos da Europa do Mercado Comum. Agora em condições mais graves – ao desvirtuarem os ideais fundadores da CEE, que prometeram defender.

As poderosas nações poderiam ter agido de forma diferente face à crise financeira que se abateu sobre Portugal e a Grécia. A criação de mecanismos de ajuda aos países intervencionados, atenuaria a enorme perda financeira e bancarrota que os assola.

Indiferentes aos apelos dos povos, empurraram as fragilizadas populações para o impiedoso resgate; aproveitando-se da situação para conseguirem enormes dividendos nos mercados financeiros (veja-se a finalidade do lamentável resgate, que serviu para salvar os bancos alemães e franceses, atulhados de produtos tóxicos de Wall Street). Uma estratégia que tornou reféns as nações vitimadas, cada vez mais dependentes do poder decisório e hegemónico das grandes potências que integram a União Europeia.

Com esta atitude política, criou-se uma perigosa clivagem entre os povos da União. Existindo, actualmente no seu seio, países de primeira: os que detêm o poder económico e financeiro; e países de segunda: a quem lhes foi retirada a independência económica e liberdade política.

Mas a antecedente análise apenas justifica uma pequena parte da ruína que se abateu sobre o nosso país. A responsabilidade da confrangedora situação também deve ser atribuída a factores de natureza interna. Consequência da crise moral, demagogia e do oportunismo político vividos na pátria que – seguindo mais uma vez as palavras de Andrade Corvo – geraram: “ confusão e incoerência nos princípios; grande desordem nas finanças; enfraquecimento deplorável da autoridade, falta de confiança na vitalidade do país, e nas suas faculdades políticas e económicas; um desalento injustificável, atrás do qual se esconde um perigoso indiferentismo; a violência a mais exagerada nas lutas dos partidos, sem que lhe corresponda nem o vigor das convicções nem a ousadia dos cometimentos; tendência funesta a rebaixar tudo e todos; paixões em vez de crenças; preconceitos em vez de ideias; negações em vez de afirmações, tanto no domínio dos princípios como no dos factos; desconfianças em vez de esperanças e falta de fé na liberdade ” (Perigos, Capítulo XXXVII, pág. 112).

A acrescentar a este clima irrespirável, vivido nas instituições políticas, os cidadãos do país debatem-se, hoje em dia, com um alarmante desemprego, destruição dos serviços públicos, perda de direitos, e um pesado esforço fiscal que, na realidade, mais não é do que um autêntico saque.

Confrontados com as amargas espoliações e ruína do país, a palavra de ordem não é o desalento ou a inacção. Andrade Corvo acreditava que cabia ao “ povo, enérgico e laborioso, firme no seu amor à pátria e às suas gloriosas tradições”, o papel de ultrapassar a angústia vivida. Uma das medidas passava por sancionar aqueles que têm na mão o governo do Estado, que “ não se inspiram dos grandes princípios da moral política e social, e não respeitam as leis”; por estarem enredados “nas suas paixões desordenadas ou (…) ambições criminosas” (Perigos, Capítulo XXVII, pág. 72).

Privados até ao momento do poder e vontade da aplicação desta medida dissuasora, resta ao povo as eleições para demonstrar o desagravo das incorrectas e nocivas políticas implementadas pelos vários governos. Façamos do momento eleitoral que se avizinha um sério aviso para a urgente necessidade de implementar, na esfera política, elevação do espírito, lucidez e grandeza moral. Peças-chave para o sucesso de uma boa governação.

No plano internacional, é preciso repensar o nosso lugar na Europa e de alterar a postura servil e espúria dos nossos representantes políticos, que os torne imunes a pressões e a grupos. O que até aqui não se tem verificado, com imensos prejuízos para o país e cidadãos. A nossa independência e interesses exigem que Portugal seja capaz, de “ falar alto e desassombradamente”, nos centros decisórios da União Europeia. Para que possa reerguer-se da humilhação que está sofrer por parte dos credores. E que tenha também uma palavra a dizer sobre a construção de uma nova Europa, despida da gélida burocracia reinante. Mais solidária, onde a esperança e a felicidade sejam o fio condutor das nações.

Uma imagem próxima das cogitações e anseios de Andrade Corvo, que apelava para a constituição de um verdadeiro movimento de unidade democrática entre os povos europeus. Na esperança de ver um dia a política internacional regida por sentimentos nobres e generosos, sustentados pela voz da justiça e da razão (Perigos, Capítulo XLVI, pág. 152).

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