SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Junho 2021, 23:47

O Testamento Artístico do Marquês da Foz (2)

Refere na carta, ao velho amigo José de Figueiredo, o valor inestimável das peças de um dos “primeiros ourives de França”. E apela para que providencie à sua célere entrada no acervo do Museu de Arte Antiga. Segundo o Marquês da Foz, a demora nesta operação acarretaria perdas irremediáveis:

“ É a V. Ex.ª, meu muito estimado amigo (…), poderá influir para que a célebre baixela (…), entre sem demora, para vitrines de exposição do Museu [de Arte Antiga] que o meu estimado amigo tem tão inteligentemente transformado, não continuando a perigar entre mãos menos experientes e completamente ignorantes dos valores artísticos com que tratam.”

Mais à frente, salienta o desajusto cronológico implícito na continuada utilização da Baixela Germain, nos banquetes oficiais da Presidência da República: “ o uso da baixela não está de acordo com os princípios vigentes e representa quási o mesmo anacronismo que representaria apresentar-se o Sr. Presidente da República, nas solenidades públicas, usando os vetustos coches de D. João V”. Nas suas palavras, os tempos modernos exigem um outro tipo de serviço para os banquetes, que, facilmente, os reputados ourives portugueses poderiam realizar.

Além do propósito de chamar a atenção para a magnífica Baixela Real, o Marquês da Foz pretendia, com a divulgação do estudo, refutar as inverdades que circulavam sobre a sua proveniência e pagamento:

“ Quando me ocupei, em 1877, muito especialmente da baixela francesa da Casa Real, tinha essencialmente por fim destruir duas lendas: a primeira, que esta baixela fora sequestrada ao Duque de Aveiro [alguns elementos desta nobre casa, ostentavam os títulos de Marqueses e duques de Torres Novas] e esta era lenda nacional; a segunda, a lenda estrangeira, que a baixela nunca tinha sido paga; como se verá adiante, parece-me ter conseguido, com os documentos que reuni, provar a falsidade de ambas” (Marquês da Foz, A Baixela…, pág.16).

Ao inventariar e descrever no seu estudo, as peças de F. Th. Germain existentes em Portugal, o Marquês da Foz salvaguardou possíveis extravios desta bela e valiosa baixela real. Única no mundo da ourivesaria, sendo superior à sua congénere russa.

O reconhecido amor às coisas belas de Tristão Guedes, não passou despercebido aos torrejanos que usufruíram da sua requintada presença e esclarecimentos sobre o mundo das artes e da Natureza. Portador de uma elevada nobreza de carácter, abriu as portas da Quinta da Torre de Santo António para todos os que procuravam maravilhar-se com os seus tesouros artísticos, dignos de um grande museu.

Um ano depois da preocupante missiva, endereçada ao director do Museu de Arte Antiga, o Marquês da Foz morre a 29 de Outubro de 1917. O seu desaparecimento teve uma enorme repercussão no nosso concelho. O semanário local “O Torrejano”, nº 91, de 11 de Novembro, fez-lhe um profundo e sensível elogio, pela voz do seu amigo, Dr. António Pinto de Magalhães e Almeida (Camerlengo).

Partilhando conjuntamente a mesma admiração expressa por Artur Gonçalves, no livro “Anais Torrejanos”, também não resistimos em transcrever partes da belíssima homenagem feita por António Pinto, na sua rubrica, Conversando…:

“ Este Marquês da Foz, cuja insinuante figura de gentil-homem a tampa de um caixão, agora e de vez, esconde aos olhos de todos, já há muito que estava esquecido no espírito dos seus concidadãos. Injustamente esquecido: porque ele foi, pelo espírito culto de artista requintado e pela loucura pródiga do carácter generoso, o mais gentil e atraente dos fidalgos do seu tempo. Gozou a auréola da popularidade que acompanha os que vivem entre os esplendores rutilantes da opulência. Foi querido, foi adulado, foi admirado – e foi, sobretudo, invejado. Se tivesse morrido à coisa de vinte e seis para trinta anos, o seu cortejo funerário revestiria as pompas magnificentes de uma apoteose (…). Hoje … Que tristeza!…

Que tristeza! E, contudo, o Marquês da Foz foi alguém, foi uma personagem destacante neste meio miserável de impostores e pelintras. Possuía uma inteligência cultíssima. Tinha uma fantasia estética exuberante. Volúvel e desigual, como todos os temperamentos que têm amor e o culto da arte – e foi esta a sua faculdade mais poderosa: o amor da arte, desde o quadro à planta, desde a estátua à flor – nem por isso deixou de exibir iniciativa de espírito, acção na vontade. O túnel na Avenida, a linha de Cascais, são obras do tempo da sua administração na Companhia Real. Foi um bom administrador Talvez não. Mas na liquidação final, cumpre levar-lhe em conta o espírito empreendedor.

Outras obras, estas mais pessoais, mas legitimamente contáveis, se lhe devem. Dotou Lisboa com o quase único palácio que pode apresentar à mirada dos entendidos; e encheu esse palácio de maravilhas, desde o vestíbulo, que hoje dá acesso a armazéns de adelo e a baiúcas de batoteiros, até a capela onde palcos de cinema e…

Dotou a província, os subúrbios desta vila, com uma das duas ou três vivendas de opulência e encanto, onde possam enlevar-se os olhos por essas terras de Portugal em fora. E evocando o seu feitio artístico, eu muitas vezes pensei em que era pena que o Marquês da Foz não recebesse de dez em dez anos uma herança de milionário. Então sim. As maravilhosas colecções que, à custa de talento, de trabalho e de dinheiro, reuniu no Palácio Foz, não teriam desaparecido na voragem dos dias sombrios. Porque ele soube, como nenhum fidalgo do seu tempo, pôr a arte na opulência. Como soube também, como ninguém mais, pôr os melindres do maior recato nas bizarrias da maior generosidade. E soube ainda, por igual como ninguém, pôr os atractivos do convívio mais despretensioso no realce da linha mais aristocrática.

Uma hora houve em que uma auréola de glória nimbou o seu nome – no mundo da política, no mundo das finanças, no mundo dos salões. Uma hora houve em que a sua gentil cabeça, ainda cheia de mocidade e vigor, pairou ao de cima da massa compacta desta sociedade de imbecis e de frustes. E isto devia bastar para que, no minuto sombrio em que ele torna ao pó de onde veio, ali não volvesse feito já pó.

Mas quem se importa neste País com as exéquias de quem já não vale? De quem, durante largos anos, fugiu da corte e procurou com afinco a Natureza a Terra, boa mãe, para junto dela e com ela viver e conviver? Ninguém.

E, no entanto, uma grande injustiça social. Pois o ilustre morto tinha o direito a que, parafraseando o epitáfio posto no túmulo de um irmão da linda Inês: – «Aqui jaz D. Fernando Ruiz de castro, isto é, toda a lealdade de Espanha» – se inscrevesse sobre a memória lousa de sua sepultura: – «Aqui jaz o 1º Marquês da Foz, isto é, toda a prestigiosa graça, todo o perdulário encanto, toda a pródiga liberalidade da fidalguia portuguesa».

A terra lhe seja leve, a terra de que ele tanto amou as árvores e as flores!

«Camerlengo» ”

(Artur Gonçalves, Anais Torrejanos, pág. 166 – 168).

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