SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 09:03

O painel Gil Pais numa carta de Carlos Reis (2)

O grande e notável painel em memória de Gil Pais é constituído por 2.300 azulejos que circundam a parte lateral do muro, do adro da saudosa igreja de Santa Maria, voltado para a praça. A composição central assemelha-se a muitos dos vários motivos históricos, elaborados por Jorge Colaço, que se encontram espalhados por todo o país.

Espírito criativo e inovador, a técnica que utilizou consistiu em transpor para o azulejo uma pintura aplicada no vidrado incolor previamente cozido. Que depois era sujeito a uma nova cozedura, permitindo obter as belas nuances que hoje podemos observar, dando-nos a ilusão de estarmos perante um grande fresco a óleo. Uma outra característica do seu processo artístico, situa-se na frequente aplicação do contraste entre os tons azulados e brancos, conseguindo criar no espectador uma áurea reminiscente, propícia à evocação do momento histórico pretendido pelo autor. Para quem ignore os factos e a história do acto encenado, a força imagética que está implicada na representação, transporta, naturalmente, o observador para as lutas e acções heróicas perpetradas pelos nossos ilustres lusitanos de outrora.

Neste belo painel, encontramos a recriação do nobre gesto de Gil Pais acontecido, em Torre Novas, no remoto ano de 1373; altura em que Henrique II de Castela invadiu Portugal, na tentativa de pôr cobro às pretensões do rei D. Fernando I ao trono castelhano. Na sua incursão pelo território nacional, poucos foram os lugares que lhe ofereceram resistência. Dois deles ficaram eternizados nos anais da história: o episódio referente ao castelo de Faria, que consta na Crónica de Fernão Lopes, sobre o fraco e inconstante rei português (sendo, mais tarde, imortalizado nas Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano), e aquele que ocorreu em Torres Novas, na figura épica de Gil Pais.

O acontecimento relata-se em poucas palavras: Henrique II sabendo que o rei português se prestava a deixar Santarém para o combater, pára em Torres Novas, esperando não encontrar qualquer resistência por parte do seu alcaide, como tinha sucedido na maior parte das terras do país. Só que, deparou-se com o brio e lealdade de Gil Pais a D. Fernando I, insurgindo-se contra a veleidade do rei castelhano em apossar-se de mais uma praça do território português. Ferido pela audácia e coragem do ilustre torrejano, Henrique II dispôs-se a combatê-lo pensando que venceria facilmente a intrepidez do arrojado alcaide. Mas a batalha não pendeu para o lado das hostes castelhanas, pois a oposição das gentes torrejanas e do seu alcaide foram de enorme valentia. Seria necessário um longo e extenuante período para que Henrique II conseguisse levar de vencida o nobre alcaide. Tempo que o rei castelhano não dispunha.

Nas pequenas escaramuças que iam-se sucedendo, entre os castelhanos e os sitiados, o jovem filho do alcaide foi capturado. Eufóricos pela sortida, levaram o mancebo algemado junto dos muros da porta principal, propondo ao alcaide a troca do castelo pela vida do seu filho. Este momento de profundo dramatismo serviu de leitmotiv para que o pintor Jorge Colaço colocasse nos azulejos, a grandeza moral e patriótica de um dos nossos heróis da nação.

Em resposta à chantagem castelhana, Gil Pais respondeu: “ que fizessem de seu filho o que entendessem, uma vez que dele eram senhores, que ele alcaide, embora seu pai, não podia nem queria entregar o castelo, por cuja homenagem a seu rei havia empenhado a honra” (Monarquia Lusitana, parte VIII, liv. 22, pág. 168; citado por Artur Gonçalves, no seu livro, “ Torres Novas – Subsídios para a sua História”, pág. 110).

No artigo sobre Gil Pais, incluído na Revista Nova Augusta, nº 16, de 2004, página 144; na nota de rodapé, acerca do referido texto, aparece incorrectamente mencionada uma outra obra de Artur Gonçalves, “Mosaico Torrejano”.

Voltando à narração do episódio: irritados pela desfaçatez do alcaide, enforcaram à sua frente o jovem filho de Gil Pais, que contava apenas dezoito anos.

Ao final de dois dias, Henrique II desistiu de tomar o castelo e dirigiu-se, em seguida, até próximo de Santarém, no intuito de bater-se com D. Fernando I. Mas o medroso rei português esquivava-se a um confronto directo com o rei castelhano (Fernão Lopes, “Crónica de D. Fernando”, Livraria Civilização, 1966, pág. 190).Farto de esperar pela reacção de D. Fernando I, Henrique II seguiu em marcha para Lisboa, sem se importar de deixar o monarca português para trás. Os seus actos não se coadunavam com a coragem e lealdade demonstradas pelo nobre exemplo de Gil Pais.

Após vários combates, a guerra terminou com as pazes assinadas no castelo de Santarém, a 19 de Março de 1373, em que Henrique II impôs condições desvantajosas ao fraco e cobarde rei português (Fernão Lopes, “Crónica de D. Fernando”, pág. 216).

Reconhecendo o alto exemplo moral de Gil Pais (anteriormente destacado por Artur Gonçalves, que reclamava, no seu livro “Torrejanos Ilustres”, pág. 25, o facto de não haver em Torres Novas um cunhal de rua, sequer, que perpetuasse o seu glorioso nome), vários torrejanos reivindicaram a construção de um monumento que dignificasse o seu nobre feito. Para que servisse de lição às gerações vindouras.

Nesta iniciativa, foram figuras de destaque, Bivar Pinto Lopes, Carlos de Azevedo Mendes e o esquecido pintor Carlos Reis. A quem, julgamos, coube o papel de contactar com o ceramista Jorge Colaço. A longa amizade existente entre os dois grandes artistas, foi o poderoso trunfo que esteve na base da aceitação do projecto por parte de Jorge Colaço.

A inauguração da obra acontece no dia 7 de Maio de 1939 envolta num clima de enorme euforia e entusiasmo, a que não faltou a presença do artista Jorge Colaço e da sua esposa, a poetisa, Branca Gonta Colaço. Nesse inolvidável domingo, estiveram na vila torrejana os principais órgãos de informação de Lisboa, a fim de presenciarem o apoteótico acontecimento. Também o jornal “ O Almonda” acompanhou durante várias semanas a cobertura do evento, vincando a importância da obra como símbolo eterno do “culto da honra e da lealdade” e perpetuação dos grandes feitos inscritos na nossa memória colectiva.

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