SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 00:35

O painel de Gil Pais numa carta de Carlos Reis (1)

Um dos episódios da história torrejana mais conhecidos pelas gentes da nossa terra tem como protagonista o seu alcaide-mor Gil Pais. Para isso muito contribui o enorme painel de azulejos que se encontra na subida que vai para o castelo, perto da Praça 5 de Outubro. Esta obra monumental, na linha do revivalismo patriótico, é da autoria de Jorge Colaço (1868-1942).

Figura próxima de Carlos Reis, o exímio pintor e ceramista, com ele manteve ao longo da vida uma estreita amizade, iniciada em Paris, no tempo de estudantes. Esta ligação estendeu-se ao campo das artes. Os dois amigos desenvolveram conjuntamente alguns projectos artísticos: em Março de 1901, o pintor torrejano cria a Sociedade Nacional de Belas Artes, estando o seu grande amigo Jorge Colaço entre o grupo de fundadores. Também os nomes dos dois artistas encontram-se inscritos em diversas obras que embelezam o magnífico palácio hotel do Bussaco (1907).

Na história do painel a Gil Pais, julgamos que Carlos Reis teve um papel determinante nos primeiros contactos com o ceramista e na sua aceitação do arrojado projecto, que visava perpetuar a memória do nobre acto protagonizado pelo nosso herói de antanho.

Estes pressupostos fundamentam-se na leitura da correspondência epistolar mantida entre o ilustre pintor torrejano e o presidente da edilidade na altura, Carlos de Azevedo Mendes. Nela, são feitas referências ao assunto e à vinda de Jorge Colaço a Torres Novas. Muito antes da primeira informação camarária sobre o projecto de construção da obra (Livro de Actas, de 14 de Dezembro de 1937).

A presença de Jorge Colaço em Torres Novas, para efectivar a obra em azulejo, acontece pela mão de Carlos Reis. Já numa carta, escrita a 14 de Maio de 1937, encontramos algumas informações sobre uma eventual visita dos dois artistas. Propósito não concretizado pela dificuldade de Carlos Mendes em os receber, sem que primeiramente o informassem: “ Ficámos aterrados o J. Colaço e eu, com a ameaça do meu querido amigo, caso nós aí passarmos de surpresa (…) O Jorge Colaço tem que cá estar assim como eu, no dia 24, e não nos é possível ir nos dias que restam até essa data. Somos pois obrigados a transferir para qualquer dos que se seguem até 28.

Entretanto, eu avisarei, tudo com o receio da vossa terrível ameaça…com os nossos respeitos para sua Exª esposa (…).”

Foi preciso esperar mais alguns dias para que Carlos Reis e Jorge Colaço viessem a Torres Novas. Estavam diversos assuntos na mesa, entre eles, o que se prendia com os azulejos e a edificação do monumento na Avenida. Na carta escrita ao presidente Carlos Azevedo Mendes, no dia 9 de Junho de 1937, o ilustre pintor combina a data da sua chegada à vila torrejana:

“ Exmo. e Querido Amigo

Não acertei bem com a hora a que queria falar-me pelo telefone, mas não deixei de acertar com uma linda vozinha que denunciava uma grande bondade de quem a possui.

Quem era, não sei, porque o telefone mal me deixou constatar (…) mas consegui dizer que na 2ª feira o Colaço e eu iremos até Torres Novas, conforme combinamos entre a telefonada do meu amigo e a minha.”

Mais à frente da missiva, refere o nome de Gustavo Pinto Lopes, um dos destacados elementos do Grupo Gil Pais, interessado na edificação de um monumento que homenageasse o alcaide torrejano. Pelos vistos o interesse no projecto remontava a alguns tempos atrás:

“ Numa carta que escrevi ao Gustavo, dizia-lhe que iríamos de surpresa, porque o desgosto que sua Ex.ª Esposa acaba de sofrer, não lhe permite receber ninguém.

Por essa razão, meu Querido amigo peço-lhe que nos deixe a liberdade de só o procurarmos depois do almoço, porque desde essa hora até à hora do comboio temos muito tempo de vermos o que lá nos leva.

Pedi também ao Gustavo que combinasse com o meu Amigo [Jorge Colaço] o que lhe surgisse sobre os azulejos e sobre o monumentozinho na Avenida. Ele nos transmitirá tudo e tudo correrá pelo melhor.

Até 2ª feira, mas não se prenda. Com os meus respeitos (…) um abraço do seu velho e dedicado Amigo

Carlos Reis.”

Efectivamente a vinda dos dois amigos a Torres Novas aconteceu. Veio também a acompanhá-los o filho do ilustre pintor torrejano, João Reis. Disso nos dá conta a grata retribuição do artista, pelo inesquecível dia vivido na casa do presidente Carlos Azevedo Mendes, enviada de Lisboa, com a data de 16 de Junho de 1937:

“ Exmo. Senhor Dr. Carlos Mendes

Meu Muito querido Amigo

Eu só posso dizer-lhe que me sinto incapaz de lhe dizer o que trouxe ante-ontem de Torres Novas, no eu coração que regressou a Lisboa repleto de gratidão e encanto pelas horas que o meu bom amigo e sua boa e Exª Família nos prepararam e que nem eu nem Jorge Colaço nem o João jamais podemos esquecer.

Foi um dia dos muitos raros da minha vida (…). “

Segue-se depois na carta, algumas considerações sobre a finalidade da visita dos artistas à vila. Uma delas, relacionada com o retrato de Gustavo Pinto Lopes, feito por Carlos Reis, para a inauguração da Biblioteca e Museu Municipal.

“ Vou fazer a diligência para que o caixote com “ O Alecrim do Norte” chegue antes de sábado para que no museu fique mais cheia a parede do fundo. No mesmo caixote vai um projecto de uma procissão que se faz na Lousã com Nossa Senhora da Favariça [trata-se do “estudo desconhecido” que é descrito nas páginas 24 e 25, da Revista Nova Augusta, nº 15 de 2003, talvez da década de 30, já que o pintor tem um outro trabalho, sobre o batismo, exposto no ano de 1932], que eu peço licença para lhe oferecer e à Exª Senhora Dona Prazeres.

Terá em sua casa um lugarzinho para esse quadro?

Quanto à colocação do retrato do Gustavo, creio que ficará bem por cima da aguarela do Alfredo Cândido, como ele próprio escolheu sem saber que é destinado ao seu retrato.

E no domingo [nesse dia, a 20 de Junho, Carlos Reis fez-se representar pelo filho. Também Jorge Colaço enviou uma carta, a Bivar Lopes, datada de 19 de Junho de 1937, felicitando-o pela inauguração, não se esquecendo de referir a bondosíssima gente de Torres Novas] lhe darei um abraço de todo o meu reconhecimento, e beijarei respeitosamente a mão a sua Exma. Esposa.

Muito grato e ( …)

Carlos Reis.”

(continua)

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