SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 14:55

Breve Tratado sobre as Unhas que arruínam Portugal (1)

Ouvimos por diversas vezes representantes do governo estabelecer um paralelismo entre a actual situação do país e a que se viveu nos momentos finais do domínio dos Filipes de Espanha (1640), que trouxeram ventos de mudança. Propalam hossanas à eventual saída da troika, auto-elegendo-se como os novos heróis, portadores da solução salvífica que vai libertar Portugal do jugo estrangeiro e da presente derrocada financeira e económica. Esquecem-se que foram e são parte do problema do criminoso estado em que o país se encontra, ao pactuarem com a poderosa rede clientelar que gravita à volta dos decisores políticos. Autênticos vampiros que não se importam em destruir economias, sociedades e pessoas, a coberto da desmedida cobiça do poder e do dinheiro.

Hoje, a nação assemelha-se a uma manta de retalhos, vendida ao desbarato pelos novos Miguel de Vasconcelos. Só que, em vez de serem atirados pela janela do Palácio Real, recebem prebendas dos grandes interesses financeiros e económicos. Basta acompanhar os órgãos de comunicação para depararmos com notícias sobre o pulular dos membros dos partidos do arco da governação, para as empresas ou instituições em que representaram os interesses do Estado português nos negócios. Actualmente, ocupam cargos dourados nas referidas entidades. Uma indecorosa promiscuidade que faria enrubescer de vergonha o maltratado secretário da Duquesa de Mântua. Incapaz de ir tão longe no desprezo pelos valores institucionais do país.

Mas a estafada imagem da Restauração não é despropositada, se tivermos em conta um outro cenário: anos depois da libertação do país do domínio filipino, é editado um livro que irá abalar uma sociedade empobrecida, onde a corrupção atingia níveis assustadores, idênticos aos vividos na actual conjuntura. A obra ostenta o inusitado título “ A Arte de Furtar, Espelho de enganos, theatro de verdades, mostrador de horas minguadas, gazua geral dos Reynos de Portugal.”. Foi dedicada ao rei D. João IV e ao príncipe D. Teodósio, para que pudessem emendar o seu depauperado reino que, nas sábias palavras do escritor, assemelhava-se a um “covil de ladrões”. Pretendia ensinar o monarca e o príncipe “ a conhecê-los, para os evitar”. Na doutrina do autor, o aumento da fazenda do reino, dependia da diminuição do número de ladrões que vão exaurindo os cofres públicos (pág. II – V).

A obra aparece pela primeira vez como sendo da autoria do grande paladino da língua materna, Padre António Vieira, com as indicações de ter sido impressa em Amsterdão, com a data de 1652.

Ora, tanto a data e a cidade onde foi impressa não parecem ser verdadeiras. Já o problema do autor da obra, é caso resolvido. Disso falaremos mais à frente.

Ao longo dos tempos, reconhecidos nomes da literatura e da investigação tentaram identificar o criador de um dos títulos mais importantes do século XVII. Livro que ainda hoje mantém uma trágica actualidade, resistindo ao desgaste do tempo, pela crítica incisiva que faz a uma sociedade degenerada, mergulhada em vícios e perversões, onde o roubo e o saque são efectuados de forma descarada nos corredores do poder e na alta finança.

Pelo facto de criticar duramente os abusos do poder e apontar as irregularidades na administração do erário público, era difícil ao autor assinar a obra com o seu verdadeiro nome. Tal imprudência colocaria a sua vida em risco, pois muitos poderosos da época sentiram-se visados nas suas corrosivas palavras.

O mistério da autoria do livro teve o seu desenlace, no momento em que o ilustre torrejano, Pe. Francisco Rodrigues (1873-1956), revelou no pequeno opúsculo, “ O Autor da Arte de Furtar – Resolução de um problema “ (Porto, 1941, pág.25), ter encontrado, no Arquivo Romano da Companhia de Jesus, um documento em que era dito o nome do responsável pela famosa obra. Num trecho que se conserva nas folhas 240-243 do códice História e Acta, onde são referidos os Padres da Província do Alentejo.

Nele consta a informação sobre o criador do polémico livro: “ Compôs o P. Manuel da Costa uma Arte de Furtar, que deu a El-Rei: e foi coisa célebre neste reino discorrendo por todos os ofícios e tribunais: sem a nada disto se dar satisfação ”.

Esta importante figura eclesiástica pertencia à Companhia de Jesus, e “era natural da Granja, aldeia do Concelho de Mourão no Alentejo, onde nasceu a 13 de Outubro de 1601. (…) autor de uma obra eminentemente histórica, literária e patriótica” (pág. 26).

Trata-se de um livro elaborado por um verdadeiro defensor da Nação, que procurava denunciar os inimigos internos e externos do país (Até mesmo nesta temática, a actualidade do livro é assustadora, só que o lugar da Espanha, é agora preenchido pela inenarrável troika). Contudo, os visados não são os simples ladrões de galinhas ou pequenos salteadores. A “Arte de Furtar” castiga os “grandes piratas da vida, os que roubam à sombra das leis, os devoradores da riqueza pública, os que furtam de alto e com entono – como se ainda fizessem favor aos roubados.” Estes “vis salteadores” da Nação encontram-se presentemente vestidos com os nomes PPP, BPN, BPP,BCP,FMI, políticos venais, empresários gananciosos, especuladores amorais, etc.; etc.

Nas palavras do eminente padre jesuíta entre os maiores ladrões do reino, estão “os que têm por ofício livrar-nos de outros ladrões”. Com subtileza e ironia, Manuel da Costa, discorre sobre esse mal, que muitos dos governos existentes enfermam: “ E tal é o que acontece em muitas Repúblicas do mundo, e até nos reinos mais bem governados, os quais, para se livrarem dos ladrões – que é a pior peste que os atrasa -, fizeram varas que chamam de justiça, isto é, meirinhos, almotacés, alcaides; puseram guardas, rendeiros e jurados; e fortaleceram a todos com provisões, privilégios e armas. Mas eles, virando tudo de carnaz para fora, tomam o rasto às avessas e, em vez de nos guardarem as fazendas, são os que maior estrago nos fazem nelas, de sorte que não se distinguem dos ladrões que lhes mandam vigiar em mais senão que os ladrões furtam nas charnecas e eles no povoado; aqueles com carapuças de rebuço e eles com as caras descobertas; aqueles com o seu risco e estes com provisão e cartas de seguro” (Capítulo IV, pág. 15-16).

(continua)

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