SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 18:32

Luzes em Torno de um Equívoco sobre Artur Gonçalves

Muitas vezes, na nossa despretensiosa divulgação de autores torrejanos, socorremo-nos das obras publicadas por uma das grandes figuras da nossa terra a quem, humildemente, reconhecemos seriedade e rigor nas suas pesquisas. Falamos de Joaquim Rodrigues Bicho, reconhecido como um dos mais reputados investigadores do nosso legado ancestral. Os seus livros são uma fonte fidedigna e singular, para aqueles que se debruçam sobre os acontecimentos, património, tradições e homens ilustres que marcaram a história do concelho.

Contudo, a nossa inquestionável admiração, não é impedimento para que façamos um pequeno reparo a propósito de um artigo da sua lavra, publicado na revista “Nova Augusta”, nº 20, de 2008, com o título “Em memória de Artur Gonçalves”. Uma dúvida que surge na leitura da página 227, onde fala do lançamento do primeiro número d’O Torrejano, e tece várias considerações sobre o ideário jornalístico que Artur Gonçalves se propunha a seguir.

Joaquim Rodrigues Bicho, para melhor esclarecer a doutrina do ilustre torrejano, identifica-o (?) como o autor da rubrica “ Conversando…”, que aparece logo no primeiro número (26 de Dezembro de 1915), escondido no criptónimo de Camerlengo. Se esse não foi o sentido que esteve subjacente à construção do texto, por parte do investigador torrejano, a forma como está construído, induz o leitor a partilhar a ideia de que as crónicas foram escritas por Artur Gonçalves. Esta é a conclusão a que chegamos ao ler a passagem da pequena biografia, onde diz: ” (…) irá expor o seu pensamento e tecer comentários na rubrica Conversando…, assinada com o pseudónimo Camerlengo ”.

De facto, o genuíno criador do pseudónimo em causa, foi o Dr. António Pinto de Magalhães e Almeida! Velho amigo de Artur Gonçalves (amizade reforçada pela enorme devoção que os dois nutriam por Camilo), junta-se a ele desde o início do jornal “O Torrejano”, contribuindo, com os seus excelentes artigos, para o sucesso do espaço “Conversando…”.

As crónicas de António Pinto aparecem com enorme regularidade no periódico, arrastando-se até ao ano de 1918. Algumas delas, escritas de Lisboa (outras, são elaboradas na Golegã, Cascais e Caldelas, não esquecendo também, Torres Novas), onde, pretensamente, desenvolveu parte da sua actividade profissional de doutor de leis. O ilustre autor possuía uma escrita primorosa e irónica, favorecida por uma notável erudição. Ao lermos as suas crónicas, somos confrontados com um homem atento aos problemas do seu tempo e dotado de uma alma de poeta. Nas palavras de António Pinto jorravam, frequentemente, um fino humor e verdadeira humildade. Uma dessas ocasiões acontece n’” O Torrejano” de 17 de Dezembro de 1916, em que refere o papel de Artur Gonçalves na correcção de supostas falhas na escrita:

“Chove. Mas a necessidade não tem lei. Já o romano o formulava: necessitas caret lege. Ora, eu tinha de conversar com os meus habituais leitores do Torrejano; o Gonçalves, que me corrige as asneiras, e o tipógrafo que me corrige as garatujas. E às vezes essa decifração não é coisa de somenos. Como ainda na semana passada, em que, à conta de ter recorrido à proverbial honradez da nossa classe comercial, houve que lançar as graves ponderações do grande Malacuecas em linguados de papel mata-borrão, que um respeitabilíssimo representante da supracitada classe me tinha impingido como do mais fino wathman. Deixemos tristezas.”

Na defesa do que inicialmente propusemos esclarecer, podemos citar um outro artigo, assinado com o pseudónimo Camerlengo, que se encontra acompanhado por um texto com algumas considerações enviadas por um fiel leitor, endereçadas a António Pinto. Acontece no jornal “O Torrejano” nº 53, de 11 de Fevereiro de 1917, da autoria de José Marreca. Quase a findar a publicação do periódico, no nº 97, de 23 de Dezembro de 1917, António Pinto (Camerlengo), tece, no seu “Conversando…”, rasgados elogios ao carácter e republicanismo patriótico de Artur Gonçalves.

Julgo que estes três apontamentos seriam suficientes para esclarecer quem está por detrás de Camerlengo, e que não podia ser o nosso ilustre torrejano. Mas, para que não restem dúvidas sobre a identidade do autor, damos conta de mais duas situações que corroboram a nossa afirmação. Uma delas, é feita através das próprias palavras de Artur Gonçalves, no seu livro póstumo “ Anais Torrejanos” (1939), quando se refere à morte do 1º Marquês da Foz, Tristão Guedes Castelo Branco, ocorrida no dia 29 de Outubro de 1917 (pág. 165). A dado passo do pequeno excurso sobre a vida do distinto nobre, Artur Gonçalves socorre-se das preclaras palavras do seu amigo para falar sobre tão ilustre personagem: “ No número imediato do mesmo hebdomadário [O Torrejano], o nosso velho amigo Dr. António Pinto de Magalhães e Almeida, no seu habitual Conversando…, dizia a respeito do nobre finado o seguinte, que não resistimos à tentação de transcrever, pela incontestável justiça que faz do carácter, em palavras impregnadas de saudade pelo amigo, fidalgo e artista (…)” (Anais Torrejanos, pág. 166).

A actividade literária de António Pinto não se limitou às páginas dos jornais. Mais tarde, no ano de 1924, publica um pequeno livro com o título “ Um Soneto de Sá de Miranda”, editado pela Casa Ventura de Abrantes, Lisboa; escondido no pseudónimo Camerlengo. O exemplar consultado contém, no ante-rosto, uma dedicatória para o seu colega e amigo, o Dr. Frederico Conde, escrita em Torres Novas, no mês de Maio de 1940.

Este ensaio provocará, posteriormente, uma enorme celeuma, registada no Arquivo Literário, tendo como interlocutor, o conhecido homem das letras e director da revista, Delfim Guimarães. Nas suas páginas, mais uma vez, é revelada a identidade do criptónimo Camerlengo: Dr. António Pinto.

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