SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 13:06

Amores Loucos na Alta Nobreza Torrejana (2)

Em apêndice ao drama de juventude de Camilo Castelo Branco, encontramos a transladação da passagem do capítulo VIII, dos “Anais de D. João III” de frei Luís de Sousa; onde é descrita a hecatombe que se abateu sobre a família do duque de Abrantes. Trecho doloroso do insigne cronista régio:

“ (…) é de saber que o infante casou e el-rei lhe deu o senhorio e título de duque da Guarda e a vila de Abrantes, com muitos outros lugares grandes e teve filhos e tanto gosto deles e da condessa infante (…).

Alevantava-se um dia o infante, estando na vila da Azinhaga, e disse desassombradamente para quem o vestia: – Sonhava-me esta noite em Abrantes, e via sair da minha casa três tumbas cobertas de negro atrás uma da outra. Ao segundo dia lhe chegou recado de ser falecida a senhora D. Luísa, último penhor, que só tinham, porque lhe eram mortos dois filhos varões. Era por Outubro do ano de 1534. Acudiu depressa a consolar a infante. Adoeceu logo e faleceu aos sete de Novembro seguinte. E a condessa sua mulher foi após ele, sem se meter entre a morte de ambos mais tempo quanto houve de 7 de Novembro até 9 de Dezembro. De sorte que em dois meses e seis dias teve seu cumprimento o sonho das três tumbas. Porque a primeira, que foi da filha, saiu aos três de Outubro, e a última, da mãe, em nove de Dezembro.

(…) Deram estas mortes assim repentinas ocasião a discursos, querendo cada cabeça julgar por elas a razão do casamento, por verem dentro de cinco anos não só malograda, mas perdida e apagada a ilustríssima casa de Marialva.”

Entretanto o nosso Marquês ia alimentando os seus conhecimentos e erudição no mundo das letras. A tradução e a poesia ocuparam-lhe muitas horas de estudo. Traduziu do italiano para latim um livro sobre “A Paixão de Cristo”. Como salientámos num artigo anterior sobre a musa torrejana, Maria Pimentel, D. João de Lencastre foi grande amigo do reconhecido poeta classicista António Ferreira. Também na área da diplomacia deu provas firmadas da sua ponderada sensatez, como podemos constatar nalguns dos capítulos das referidas obras de João de Andrada e frei Luís de Sousa.

Devotado a Nossa Senhora, fundou diversos conventos em sua honra. No dia 29 de Março de 1562, cria num lugar entre Liteiros e Marruas, situado a cinco quilómetros de Torres Novas, o Convento de Nossa Senhora do Egito. Mais tarde, em 1591, por razões de acessibilidade e devido à situação insalubre e doentia do local, foi transferido, pelo seu descendente D. Álvaro de Lencastre, para o Berlé, sítio onde hoje podemos ver a igreja de Santo António, que conserva partes do antigo Convento.

Mas as intempestivas paixões na família Lencastre, não terminaram com a irreflectida aventura do 1º Marquês de Torres Novas. Por volta do ano de 1542, seu pai, D. Jorge de Lencastre, 1º Duque de Coimbra, nas vésperas dos 70 anos, apaixona-se por uma das donzelas que frequentavam a casa real de D. Catarina. A jovem, alvo dos amores do idoso viúvo, chamava-se Maria Manuel, e era filha de um antigo namoro do duque. Contava apenas dezasseis anos.

Alguns viam neste afecto do primogénito dos Lencastre uma paixão senil, com laivos de platonismo ingénuo. Pouco a pouco os amores pela jovem adquirem sérios contornos. A Rainha ao dar pelo caso repreende o duque, proibindo a continuação da estranha intimidade. Separado do contacto com a jovem, D. Jorge deu em escrever-lhe bilhetes, onde confessava o seu amor ardente, prometendo casar-se com ela. A imprudência levou-o a mandar recados por terceiros e a não acatar os conselhos de parentes e amigos, que lhe recordavam a sua posição social e idade.

Perante a inusitada situação e a teimosia do duque em casar com a jovem, os seus filhos – D. João de Lencastre e o benfeitor da nossa vila, o Bispo de Ceuta, D. Jaime de Lencastre -, insurgem-se veementemente contra o desvario do pai. Chamaram-lhe a atenção para a grande diferença de idades, e os riscos que representava para os seus bens e honra, se levasse avante a insistência no leviano casamento.

Estas advertências apenas vieram aumentar a paixão avassaladora do Mestre de Aviz, na firme persistência de se unir por matrimónio com a jovem dama. Novamente a Rainha toma o partido dos filhos de D. Jorge repreendendo “muitas vezes dona Maria do excesso destes amores, admoestando-a a que não tratasse mais deles”.

Como descreve o cronista João de Andrada (Quarta parte, capítulo XXXXIII, págs. 1002-1003): “ Nestas diferenças de uns tratarem de efectuar o casamento, e outros trabalharem para o estorvar, passaram-se alguns meses, sem ao mestre nem aos parentes de dona Maria vir à memória o parentesco de afinidade, que entre ambos havia dentro no quarto grau.” Era necessária a dispensa ante o Núncio e o Papa para que houvesse casamento. Este obstáculo não demoveu o intento de D. Jorge, que tratou de pedir a licença para que pudesse concluir o casamento. Nesta altura entra em cena o rei D. João III, e vendo “ que o mestre insistia nestes seus amores, sem lembrança nem consideração do que convinha à sua idade (…) o chamou e lhe pôs diante dos inconvenientes e danos que se lhe seguiam na vida, na honra e na fazenda do casamento (…), pelo que lhe rogava (…) desistir do pensamento em que andava.”

Depois de beijar de D. João III, o velho mestre agradeceu os conselhos e afectos que o rei demonstrava pela sua casa. Mas, como refere João de Andrada: “ passados alguns dias pôde tanto mais o ímpeto de sua afeição, que a obrigação da sua promessa, que sem se lembrar dela não somente se não apartou daqueles pensamentos, mas se embaraçou tanto mais neles, que começou a confessar mais claro que era casado com dona Maria (…) e que mandara pedir ao Núncio dispensa de afinidade. O que chegando às orelhas d’el Rey, o tornou a chamar (…) lhe perguntou se era casado, e se o não era, não havia por serviço de Deus nem seu casar com dona Maria; a que o mestre (…) respondeu confusamente dizendo, que se o já não tinha feito o não faria [perante a insistente casmurrice do duque, o rei manda-o para o desterro, em Setúbal].

Depois disto, mandou-lhe el Rey dizer por Pero de Alcáçova Carneiro seu secretário que cessasse daqueles amores, porque lhe não convinha tal casamento, e assim lho mandava; a que ele respondeu que faria o que lhe mandava S. Alteza, de que o secretário fez um assento.” O rei divulgou-lhe também a sentença do Papa que proibia o casamento do mestre de Aviz com a parente.

O velho duque teve que ceder, consumindo, os quase dois anos que lhe restaram, na solidão e desgosto. Ao fazer o testamento, não se esqueceu de atribuir uma avultada verba à jovem dama que infantilmente amou no outono da sua vida. Mas, D. Maria Manuel, entretanto, veio também a falecer, não tendo tempo de usufruir o legado que lhe foi oferecido por D. Jorge de Lencastre.

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