SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 06:25

Os filhos do pintor Carlos Reis

“ Ao meu querido João

Se um dia chegares a igualar o maior artista de que este livro fala, realizo as minhas esperanças e o meu maior sonho de artista; mas se fores em toda a tua vida, como agora és, um grande coração, uma alma elevada, generosa e digna de um amigo leal, embora estas virtudes te dêem na vida horas de amargura, só recompensadas pela felicidade, que nos dá a prática do bem, darás a teu pai a maior de todas as venturas, sabendo-te querido daqueles que, como tu, forem nobres nas acções e no carácter.”

Estas belas e afectuosas palavras, foram escritas por Carlos Reis num livro de pintura oferecido ao seu filho. Estava-se a 15 de Fevereiro de 1909, dia em que João Reis comemorava o seu décimo aniversário. Na dedicatória, Carlos Reis pede ao filho que não apague o calor e a generosidade do seu nobre coração. Para o ilustre mestre da pintura, o que verdadeiramente engrandece um homem (mais do que o sucesso ou a riqueza) são as acções e o carácter. Em toda a sua vida incutiu nos filhos esta ordem natural dos valores: em primeiro lugar, a honradez e a nobreza de carácter; seguindo-se, depois, os êxitos e a fama nas suas actividades.

Nos curtos dezanoves anos em que esteve casado com Elisa Silva Lobo (de 1897 a 1916), a família Reis viveu momentos de enorme felicidade. As antigas fotografias do casal com os filhos, indiciam essa perfeita comunhão; como na presente foto do artigo.

No primeiro plano, a partir da esquerda, vemos Maria Leonor Reis, Elisa Reis, Maria Luísa Reis e João Reis. Na segunda fila, estão os pais das adoráveis crianças: Elisa Lobo e o pintor Carlos Reis. Se detivermos o nosso olhar nos seus rostos, somos invadidos por uma espontânea empatia, fruto da inquestionável beleza interior que perpassa nas faces luminosas de todos os elementos familiares.

A menina loira da fotografia, Maria Leonor Reis, foi o terceiro rebento de casal. Criada, tal como seus irmãos, num ambiente artístico, a sua alma sensível viu na poesia a melhor forma de exprimir a incondicional devoção às coisas belas. Desde muito nova, o seu espírito contemplativo encaminha-a para a arte da musa Euterpe. Constrói versos melodiosos, alguns repletos de uma suave tristeza, outros cinzelados numa terna alegria. Em diversas ocasiões, anima os frequentes saraus artísticos na casa paterna, declamando versos da sua autoria. Próxima do pai, com ele viveu por largos anos.

Publicou muitos dos seus versos na imprensa escrita. Há vários tendo como destinatários o irmão e também Carlos Reis. Encontra-se um poema a ele dedicado por Maria Leonor no folheto em homenagem ao mestre; publicado a 21 de Fevereiro de 1933, com o título “A meu Pai”. Versos que espelham a inquebrantável união filial que existia na família, mesmo depois do prematuro desaparecimento da esposa de Carlos Reis.

Nascida em 1898, Elisa Reis é o rebento mais velho do casal. No seio familiar desenvolve o gosto pela música, tornando-se numa excelente pianista. Foi a primeira filha a abandonar o lar paterno. Mesmo casada, nunca deixou de tocar piano. Prova de que o amor dedicado à arte por Carlos Reis enraizou-se naturalmente na vida dos seus filhos. No final das lides domésticas, Elisa Reis passava longos períodos tocando peças dos grandes clássicos, por quem tinha uma inexcedível admiração, para agrado dos seus entes queridos e ocasionais amigos do casal.

A menina da foto que tem pousada no seu ombro a mão materna, chama-se Maria Luísa, vulgarmente conhecida na infância por Perri (nome que gostava de ser chamada). Como o irmão, torna-se discípula do pai, Carlos Reis, acompanhando-os em diversas exposições. Nos seus quadros encontramos a presença de elementos onde irmana uma terna melancolia. Alguns deles inspirados na natureza: as velhas e decrépitas videiras, árvores mutiladas pelos anos e as delicadas paisagens carregadas de tristeza. Uma dolorida compaixão atravessa o olhar da artista. Ao contrário de seu pai e irmão (atentos às manifestações do belo), o interesse estético de Maria Luísa recai sobre a fealdade e tristeza presente nas coisas e nos seres. Efeitos da constatação da marcha inexorável do tempo que tudo corrói e aniquila.

O único filho do casal, João Reis (1899-1982), é o grande continuador do ilustre mestre torrejano, fazendo parte do seu grupo de artistas paisagistas, designado por Ar Livre. Acompanha o pai (outras vezes com a irmã) em diversas exposições em Portugal e no estrangeiro. Numa vida recheada de êxitos artísticos e de prémios na maioria dos certames em que participou.

Pintor eclético, dominava inteligentemente as várias modalidades da arte da pintura, como os ambientes, a decoração e a figura. Qualidades que desenvolveu desde o início da sua precoce carreira: aos sete anos pintou o seu primeiro quadro a óleo, tendo feito a sua primeira exposição na Sociedade Nacional de Belas-Artes, com a tenra idade de 14 anos, onde alcançou uma menção honrosa. O facto de ser considerado como o último representante da geração de naturalistas, reforça a ideia de estarmos perante um pintor de elevada craveira artística.

Admirador dos grandes mestres, vê a arte como uma das formas de aperfeiçoamento humano. A pintura de João Reis encontra-se alicerçada numa forte componente educativa, moral. Para ele a arte sem moral é destruidora, falhando na sua altíssima missão: a de educar.

Na vida de João Reis, o plano moral e estético estiveram sempre unidos. À imagem das sábias recomendações que, no décimo aniversário, recebeu do querido pai: “Se um dia chegares a igualar o maior artista de que este livro fala, realizo as minhas esperanças e o meu maior sonho de artista; mas se fores em toda a tua vida, como agora és, um grande coração, uma alma elevada, generosa e digna de um amigo leal (…) darás a teu pai a maior de todas as venturas.”

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados