SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 19:08

O exílio de um torrejano no reinado de D. Miguel

No dia 5 de Novembro de 1828, o oficial do exército português, António Bernardino Pereira do Lago (1777-1874), desembarca em Falmouth, no condado inglês de Cornwell, vindo no paquete Sandwich. Um longo exílio espera-o, fruto da instabilidade política vivida em Portugal. A tomada de poder por parte dos absolutistas, tendo à cabeça o rei D. Miguel, originaria uma época de repressão sangrenta, em que foram eliminados ou presos, indiscriminadamente, os defensores da Carta Constitucional.

Adepto dos valores trilhados pelo liberalismo, o ilustre torrejano, sabia que se permanecesse em solo luso, enfrentaria a prisão ou, em última instância, a morte. Anos antes, tinha vivido a humilhante experiência de cativeiro, aquando o atentado da Bemposta, conhecido nos anais da história por Abrilada. Uma urdidura que tinha como objectivos depor o rei D. João VI e instaurar um programa de afastamento dos opositores ao regime absolutista. Neste incidente, ocorrido a 30 de Abril de 1824, o infante D. Miguel mandou prender em massa os liberais moderados, altos funcionários e membros do governo. O golpe fracassou devido à intervenção do corpo diplomático estrangeiro que conseguiu libertar o rei D. João VI, colocando-o no barco inglês, o Windsor Castle, onde assinou a carta régia que intimidava o seu filho a comparecer perante ele, a fim de o exonerar das funções de generalíssimo dos exércitos, convidando também o infante D. Miguel a viajar durante algum tempo pela Europa, num exílio forçado.

Da amarga situação passada no cárcere, fala Bernardino Lago no seu livro “Cinco anos de Emigração na Inglaterra, na Bélgica e na França”, Imprensa Nacional, Lisboa, 1834, na carta número nove, datada de Londres, a 8 de Maio de 1829. Uma obra que resultou da compilação das missivas escritas no estrangeiro para a sua esposa. Oiçamo-lo:

“Fazem hoje cinco anos, quão longe eu estava daqui! Sepultado em um escuro calabouço da fortaleza de Peniche, com tantas ilustres vítimas do horroroso atentado de 30 de Abril de 1824, nem escrever-te, me permitia aquele que em vez de General para algoz servia, o que faço aqui livremente. Então eu teria sido, com os meus companheiros, imolado à mais infame ambição, que alguém tinha de reinar, e à mais negra vingança, sem ter um governo que me protegesse, senão fosse (que vergonha!…) a intervenção dos ministros estrangeiros” (pág. 65).

Com o regresso de D. João VI ao paço e expulso o príncipe, o reino vive um largo período de acalmia. Até que, com a morte do monarca, e após a temporária governação da infanta D. Isabel, D. Miguel assume a regência do reino. A partir desta altura, o país é palco de várias convulsões políticas, na tentativa, por parte da figura régia, de instaurar um executivo de pendor absolutista. O que acontece no fatídico 11 de julho de 1828 que, segundo o ilustre torrejano, representa o “dia de que datam desgraças e crueldades para Portugal” (pág. 4). Dia em que, com o assento dos três Estados, exortou-se as outras nações a aceitarem a legitimidade do direito de D. Miguel de sucessão à coroa.

Para não atraiçoar a sua consciência, António Bernardino Lago vê-se forçado a “abandonar a pátria, família, emprego e bens” (pág. 4). O que o faz com grande mágoa, mas conservando algo que para ele era valiosíssimo: a sua ”honra”.

Apesar de tudo, o exílio revelar-se-ia um mal menor, pois pôde “ conhecer o carácter, costumes, governo, obras, e estabelecimentos de diferentes povos” (pág. 4). Numa viagem que o levou a viver e a estudar, durante alguns anos, a história e cultura de três países europeus.

Dotado de um espírito meticuloso e observador (consequência da sua profissão de engenheiro), as descrições feitas pelo ilustre torrejano, ainda hoje causam um envolvimento espontâneo, fruto da seriedade colocada nas pesquisas sobre os lugares visitados. Também o estilo coloquial e irónico da prosa de Bernardino Lago torna agradável a leitura do livro.

Nele vamos acompanhando as suas incisivas análises acerca dos aspectos positivos e menos bons da Inglaterra, França e Bélgica. Estas descrições, por vezes, são feitas contrastando com o estado miserabilista vividos na economia, indústria e rede de transportes em Portugal.

Segundo Bernardino Lago, uma das razões do imobilismo e atraso da pátria, prendia-se com o seu sistema político, assente no despotismo e na tirania. Para ele, só os ventos do liberalismo poderiam varrer a letargia e o marasmo em que vegetavam o sector económico e financeiro do país. Salienta que a boa organização e o progresso em Inglaterra resultaram, em grande parte, da implementação do sistema liberal.

Após a estada em solo britânico, a viagem leva-o a Paris, onde escreve à esposa, no dia 30 de Maio de 1929. No trajecto para a capital francesa depara-se com uma outra realidade: transportes menos cómodos, ruas sujas, sem lajeamento e maior desorganização social. Uma primeira impressão sobre o país que lhe causa nojo e estranheza (pág. 101-102).

Ultrapassada esta negativa experiência, Bernardino Lago descreve Paris como a terra de prazeres, dada a inúmera quantidade de divertimentos que proliferam na capital (pág. 127). Os palácios e museus causam-lhe uma enorme admiração.

Nesta sua estada não se esquece de visitar, em Montmorency, a casa onde viveu o autor do “Contrato Social”, onde ainda se encontram os objectos de Jean Jacques Rousseau (pág. 172-173). Outros locais de interesse turístico e cultural na França são referenciados no livro. A mesma sensação de fascínio assola a alma do ilustre torrejano.

Do território gaulês viaja para Bruxelas. No dia 8 de Setembro de 1929, escreve à sua esposa exultando o Povo civilizado, hospitaleiro e livre que encontra na capital da Bélgica (pág. 261). No país visitado, faz novamente a abordagem da sua história, cultura, comércio e indústria. Aproxima o temperamento do seu povo ao de França.

No final da terceira missiva, escrita em Bruxelas, desabafa acerca do estado de tristeza em que se encontra, ao estar longe da pátria e dos seus. Não encontrando nos divertimentos do país consolo capaz de sarar a profunda saudade que sentia (pág. 282).

António Bernardino Lago teve que esperar mais alguns anos, antes do seu desejado regresso à pátria amada. Desta inesquecível aventura no exílio, escreveu uma das obras do século XIX europeu (literatura de viagens), onde podemos reflectir sobre o que nos aproxima e o que nos diferencia dos outros povos do velho continente.

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