SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 15:42

Livros de autores torrejanos proibidos pelo Fascismo (2)

A irracionalidade das perseguições, desencadeada pelos guardiães do Estado Novo, abateu-se sobre uma singela obra, editada pela Associação Feminina Portuguesa para Paz. Correspondia à divulgação das conferências, ocorridas no Porto e, onze dias depois, em Lisboa, tendo como oradores, a ilustre torrejana, Maria Lamas e o escritor Teixeira de Pascoais.

O espectro da guerra pairava na memória de quem tinha presenciado o terrífico conflito mundial. Um grupo de mulheres chamou a si, a incumbência de constituir uma associação onde a luta pela Paz Mundial, era uma necessidade inadiável para a construção do progresso e solidariedade entre as Nações. Quinze anos separavam as comemorações desse dia glorioso em que o grito pela Paz alimentou a esperança dessas corajosas mulheres portuguesas.

A vinte e cinco de Maio de 1950, na sede da A.F.P.P, na cidade do Porto, por ocasião do décimo quinto aniversário do movimento associativo, Maria Lamas proferia a primeira palestra, intitulada “A Paz e a Vida”. O medo não a demoveu a escrever um texto desassombrado na defesa da Paz e emancipação feminina, apesar de no mês de Dezembro, do ano anterior, ter experienciado as agruras das prisões do regime fascista. A acrescentar ao clima de intimidação, dias antes da conferência, a vinte de Maio, a ilustre torrejana fora julgada no tribunal plenário, tendo sido exarada a ordem de libertação no mesmo dia.

A abrir o discurso, salientou o papel da Associação, realçando o artigo 1º dos seus estatutos, onde são expressas as causas e os fins a que se propõe:“ A Associação Feminina Portuguesa para a Paz, originada pelas constantes ameaças que pairam sobre o Mundo e põem em sobressalto o coração de todas as mulheres-esposas, mães, filhos, irmãs e noivas- que teriam a lastimar, mais uma vez, a sorte dos entes queridos, é um organismo destinado a auxiliar a defesa da Paz mundial (…) não tem cor política nem religiosa, e entende manter uma colaboração de boas vontades, destinadas ao mesmo tempo, à Pátria e ao conjunto da comunidade humana.”

Mais à frente, refere os obstáculos e incompreensões com que tem lutado a Associação “não só para se desenvolver, como para se manter”.

As suas ideias vão no sentido de considerar a guerra como uma aberração que urge banir das sociedades actuais. No entender da autora: “ Os Povos já compreenderam que a guerra entre as nações não resolve, pelo contrário, agrava irremediavelmente, o problema da sua prosperidade.” Segundo Maria Lamas: “ [A] palavra: Guerra! – Deixou de ter o sentido heróico, galvanizante de conquista e glória, ligado à formação e expansão das nacionalidades.

Outros tempos, outras condições, outra mentalidade e outros processos”, levaram a compreender que nas disputas bélicas, não há vencedores nem vencidos. Os sacrifícios, destruições e tragédias originadas pelo uso da força, são a clara negação do progresso civilizacional da humanidade.

Nesta conferência, a escritora apresentou os dados estatísticos elaborados pela UNESCO, sobre os prejuízos causados pela guerra. Dão-nos a conhecer números dantescos de vidas perdidas e sacrificadas no seu cruel altar. Frisa que não é:“ destruindo escolas, hospitais e povoações inteiras que se dá aos povos confiança no futuro e em si próprios.”

A campanha pela Paz é equiparada, pela ilustre torrejana, à conquista da emancipação feminina ao longo da História. Assim como a servidão da mulher não era uma fatalidade, a guerra poderia, um dia, ser extinta. Alerta para o árduo e penoso caminho que será necessário percorrer, até que os povos vivam num clima de paz perpétua.

A intransigente defesa da Paz e a acentuada tónica dada ao papel da mulher, fizeram cair sobre a ilustre escritora, as garras horrorosas dos verdugos do fascismo. O Estado Novo reservava para a mulher uma postura submissa e aquiescente, o contrário da visão proposta por Maria Lamas, ao afirmar, que ela, no pós-guerra, “conquistou o direito de ter uma opinião, e de a fazer ouvir, neste e em todos os assuntos ligados ao destino dos povos (…), [acalentando a esperança de] que em todos os corações das mulheres se mantenha bem viva, ardente, como labareda inextinguível, a decisão de salvar os seus filhos, de salvar o mundo, repelindo com todas as forças a ideia tenebrosa de uma nova guerra entre as nações.”

Como consequência, no dia 9 de Julho é presa pela PIDE. Mas devido a problemas de saúde fica em prisão domiciliária, durante dez dias. A clausura não lhe amordaça a veia contestatária. Escreve a Salazar, exigindo a libertação de todas as vítimas do regime. A resposta vem na ordem de guia de marcha para Caxias, onde ficará até que, devido à sua deficitária saúde, é internada, sob prisão, no Hospital de Santo António dos Capuchos. O relato desta amarga experiência, vivida nos calaboiços do Estado Novo, encontra-se no seu “Diário da Prisão”. Páginas marcadas pela tortura opressiva de estar só e imobilizada, levando-a a entrar na antecâmara das regiões da insanidade e depressão. Este tipo de suplício era frequentemente utilizado pela Polícia Política, na tentativa de diminuir a resistência do prisioneiro e abalar a sua confiança. Por intervenção de um recurso, que foi parar às “ mãos do juiz”, a dezoito de Janeiro de 1951, Maria Lamas é novamente julgada pelo tribunal plenário e recebe a ordem de libertação nesse dia.

Também a sua pequena obra não escapou incólume ao escrutínio da censura. Dias antes, a nove de Janeiro de 1951, o opúsculo é proibido pela PIDE. O facto de possuir o livro ou de fazer referências públicas incentivando a sua leitura, poderia conduzir o público-leitor à inevitabilidade de uma cela da prisão. Para o Estado Novo a emancipação feminina punha em causa a harmonia e o papel confinados à mulher – de fada do lar, relegada para as tarefas caseiras, sem instrução e tendo uma atitude de subserviência perante o seu esposo. Por outro lado, a defesa da Paz, que nas palavras de Maria Lamas era “ a mais bela conquista do século, porque a batalha da Paz é a batalha da vida”, não se coadunava com o nacionalismo expansionista propalado pelo regime vigente. Nessa medida, para os censores fascistas, o mal (o pernicioso livro) tinha de ser erradicado, para que não contagiasse a sociedade de ideias refractárias e progressistas.

Vitor Antunes

(continua)

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