SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 05:23

Livros de autores torrejanos proibidos pelo Fascismo (1)

Nas épocas em que a repressão e o obscurantismo tomam conta da vivência dos povos, paira sobre a cultura e os livros o anátema das apreensões e purgas pelo fogo. Em vários momentos da nossa História, ocorreram situações desta natureza, em que a fúria da censura (a câmara da tortura das palavras- como alguém lhe chamou), destruiu e barrou o acesso a obras de interesse maior para o desenvolvimento normal do espírito dos portugueses. Privados do seu concurso, o aperfeiçoamento moral e científico do País esteve por vezes comprometido. Realidade que hoje vamos assistindo, agora de forma velada e cínica, pois, os perversos cortes financeiros na educação e cultura, têm por objectivo fomentar o embrutecimento e a resignação.

Já o anterior regime, foi pródigo em casos de ataque ao livro, na tentativa de “matar” os ventos da liberdade e da crítica, soprada pela irreverência dos autores proscritos. Habituados a moldar os corpos e a alma dos cidadãos – servindo-se da ignorância e fanatismo ideológico-, viam, nas personagens dos romances e ensaios escritos, uma janela aberta destinada a varrer a manipulação das mentalidades e, assim, a continuidade do regime que acerrimamente defendiam.

Muitos livros de autores consagrados foram objecto da censura. Nem mesmo o facto de ostentaram o Nobel da Literatura, lhes concedeu um lugar nas publicações permitidas. A lista de figuras preponderantes na cultura e saber da Humanidade, banidas do contacto com o público-leitor, é extensa. Poderíamos citar, entre os escritores estrangeiros: André Gide, Knut Hamsun, Vitor Hugo, Gustave Flaubert, Nicolau Gogol, Jean Paul Sartre, Karl Marx, Rabelais, Françoise Sagan, Simone Beauvoir, Herbert Marcuse, John Steinbeck, Max Stirner, John dos Passos, Alberto Moravia, Jorge Amado, etc. Dos autores portugueses, destacam-se: José Cardoso Pires, Miguel Torga, Manuel da Fonseca, Luís Sttau Monteiro, Herberto Hélder, Urbano Tavares Rodrigues, Vergílio Ferreira, Aquilino Ribeiro, José Régio, Soeiro Pereira Gomes, Luiz Pacheco, Lília da Fonseca, Maria Archer, Amílcar Cabral, Luandino Vieira, etc.

Nos livros proibidos em Portugal, existem algumas obras escritas por ilustres torrejanos. Representam a sua marca de irreverência e contestação a um status quo dogmático e inimigo da liberdade do pensamento. Textos onde foram expostas as suas reflexões, sobre assuntos e temas, de enorme interesse para o cidadão-leitor. Procuraram denunciar o clima repressivo e obscurantista, contrário às novas ideias e valores.

Um desses heróis do pensamento, foi o escritor Faustino Bretes (1902-1986). Dele, constam duas obras banidas pela censura. A primeira, uma pequena brochura intitulada “A Igreja e a Escravatura” (Tipografia Casa do Povo – Covilhã,1932), constituída por uma recolha de vários artigos publicados no bi-semanário da Covilhã, “O Raio”, entre os meses de Maio e Outubro de 1931.

A obra é precedida por um prefácio da autoria de um dos intelectuais portugueses com maior número de livros proibidos no tempo do fascismo – o escritor do concelho de Mortágua, Tomaz da Fonseca. Faustino Bretes conheceu-o, meses antes da publicação do livro, na cadeia do Aljube (o escritor torrejano esteve, mais de uma vez, preso nos calaboiços da ditadura. Em Junho de 1927, inicia o seu calvário, constando nos arquivos do Tribunal Militar Especial, a existência de um seu processo, relativo ao ano de 1937), onde eram enclausurados os opositores do regime. Este episódio é referido no prefácio por Tomaz da Fonseca: “ Conheci-o há meses, numa cela do Aljube, onde fui abraçá-lo. E se até aí acompanhava com interesse as manifestações do seu espírito, desse dia em diante, mais viva se tornou a minha solidariedade e simpatia.”

Uma extremada posição republicana (de vertente anti-clerical), preenche as linhas do texto do livro, tendo como destinatários principais os proletariados. O livro é a eles dedicado com as seguintes palavras: “Aos meus hodiernos irmãos de labuta e sofrimento, com o sincero desejo de que breve se libertem do jugo deprimente de toda a servidão religiosa;

À veneranda memória dos que, em épocas próximas e remotas, sofreram as vilanias e as torpezas da igreja, como protesto contra a tirania de que foram vítimas.”

A prosa do autor torrejano enquadra-se na fileira dos adeptos sectários que, após a instauração da República, apontam as suas armas para o meio eclesiástico, vendo-o como a fonte de todos os males do mundo, neste caso a escravatura. Facto que evidencia algum exagero, sendo plausível a sua refutação, se contrabalançarmos com o papel protagonizado, ao longo da História, por algumas das grandes figuras da igreja. Bastava salientar os escritos e acções dos sacerdotes, António Vieira, São Francisco de Xavier ou  Bartolomé de Las Casas. E, mesmo, os revolucionários ensinamentos morais contidos nos Evangelhos do “Novo Testamento” vão ao arrepio da tese defendida pelo nosso conterrâneo.

No mesmo ano, do livro atrás citado, Faustino Bretes faz chegar às bancas outra pequena obra, designada, “Ideias do Integralismo” (Coop. Casa dos Gráficos, Lisboa,1932). Trata-se de uma tentativa de contra-argumentação a respeito de um folheto editado por Rolão Preto, com o título “Balisas”, a propósito do ” Sindicalismo Orgânico”. Aqui, o ilustre conterrâneo, coloca-se na posição de um trabalhador “que se preza a ser consciente, trabalhador que sabe ter direitos sem ignorar, ao mesmo tempo, que lhe cumprem também deveres.”

A crítica no livro de Faustino Bretes recai sobre a interpretação anacrónica e falaciosa, feita pelo integralista Rolão Preto, a respeito do sindicalismo. Denúncia a antinomia existente no livro do autor, nascido no Gavião, ao tentar fazer coexistir “interesses absolutamente opostos (…) de indivíduos díspares pela sua posição e categoria social.”

Considera a sua atitude de “lamentável”, e “estéreis e nefastos” os propósitos de defesa dos princípios contidos no folheto, “Balisas”. Reputa a Rolão Preto o erro de não entender e deturpar as noções de “luta de classes” e “sobrevalor” (mais-valia), termos “científicos” ligados ao pensamento do sociólogo e economista Karl Marx.

Vê no sindicalismo revolucionário (de carácter económico, implicando um movimento apartidário das massas), a melhor resposta aos problemas e necessidades colocadas pela vida na sociedade moderna e da “boa regularização futura”. Enquadrando, por conseguinte, o sindicalismo orgânico de Rolão Preto, na esfera de “um sindicalismo teórico, sem verdadeira possibilidade de prática, um sindicalismo que pretende ser morte da vida, mas que, por isso mesmo e até pela confusão que estabelece nos espíritos menos lúcidos [segundo palavras do autor torrejano], é forçoso combater.”

Os autores utilizados por Faustino Bretes, na defesa dos seus argumentos, tiveram o sortilégio de fazer recair sobre o seu livro a punição da censura, sendo considerado perigoso, pois difundia “doutrinas internacionalistas de carácter político e social” contrárias à “segurança e boa administração do Estado”( Couto Martins, Lei da Imprensa e outros diplomas,1936).

(continua)

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