SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Junho 2021, 23:28

As Eleições Presidenciais de 1958 na Imprensa Torrejana (2)

Na semana seguinte, a 17 de Maio, encontramos novamente (agora na primeira página), o assunto das eleições. O título desperta logo a atenção do leitor “ Portugal vai escolher o Presidente da República”. É agora dito o nome dos candidatos: Drº Arlindo Vicente, Humberto Delgado e Américo Tomás. O autor do texto ao descrever a biografia e ideias de Humberto Delgado, comete a veleidade de denegrir a imagem do mais jovem general português, com um currículo ímpar na história militar. Uma atitude não muito consentânea com a independência deontológica que deve nortear o exercício da profissão de jornalista. Foram estas as suas palavras:   “O general Humberto Delgado, por sinal nascido no Boquilobo, freguesia da Brogueira, em 15 de Maio de 1906 e batizado na paroquial da Brogueira, pertencente a uma época de foguetões e satélites, coisas que só estão bem no ar, é o outro candidato que aparece agora a discordar daquilo para que lutou, a dizer o contrário do que várias vezes disse anteriormente e sobretudo, embora com os descontos dos exageros que sempre aparecem em períodos como o presente, vem produzir a afirmação pública de que a maioria dos portugueses e todo o mundo esclarecido não passam de idiotas ao reconhecerem que há um português que tem uma grande obra, a quem o País muito deve e que é um dos mais ilustres portugueses do nosso século e um dos homens do estado mais em evidência em todo o mundo civilizado.

É um candidato que nega e que não promete nada de agradável, a não ser a possibilidade de discórdia e do desentendimento.

É até um mau político quando, em pouco mais de 48 horas, em afirmações histéricas [a famosa frase: “Obviamente demito-o”, pronunciada no café Chave d’Ouro no Rossio, a 10 de Maio], como alguém já as classificou, mostrou menos respeito e apreço pela obra de Salazar que na sua opinião nada fez senão prejudicar a Nação, conseguindo assim terminar a sua campanha eleitoral logo que a começou.”

Já quando fala no candidato do regime, utiliza rasgados elogios na tentativa de manipular as preferências dos potenciais eleitores. Refere que o Almirante Américo Tomás é “ a única candidatura que poderá servir o país”; pois, segundo as palavras do jornalista, “ Ela garante a continuidade duma obra que cada dia mais se acredita pelas realizações em todos os domínios”. Afirmando mais à frente que, só votando nele, se “garante a continuidade do trabalho na paz, (…) do progresso da nossa Pátria. (…) a continuidade da política de Salazar.”

Uma semana depois, a 24 de Maio, na primeira página do jornal “O Almonda”, os ataques ao candidato da oposição sobem de tom, acusando-o de desordeiro e de fazer uso da violência. Também compara o general Humberto Delgado, a um filho ingrato, que se esqueceu dos êxitos e triunfos alcançados sob a protecção do regime que agora combate ferozmente: “ Um candidato – o General Humberto Delgado – foi Delegado da Mocidade Portuguesa, dirigente da Legião, fez uma carreira vertiginosa, usufruiu situações de privilégio e usufrui ainda, divinizou quase Salazar em muitos e variados discursos e… hoje tudo esqueceu para…ser candidato à República …”

Nesta campanha foram empregues diversos meios dissuasores com a finalidade de afastar a simpatia do povo do concelho pelo general sem medo. Um deles passou pelo aproveitamento da imagem de uma figura importante da nossa terra. Na citada primeira página do jornal encontramos a transcrição de partes da entrevista concedida pelo antigo ministro torrejano, Dr. Rafael Duque ao “Diário Popular”. Um discurso onde toma partido pela manutenção do regime vigente, tecendo duras críticas aos interesses e pretensas ideologias que estavam por detrás do candidato oposicionista.

Em outros artigos, há mensagens de gratidão e elogios em torno de Salazar, na tentativa de criar dois campos opostos onde se digladiam, por um lado, as forças do bem (o representante oficial) e, por outro, as forças do mal (o escolhido pela oposição).

Surgem espalhadas nas páginas do periódico confissões de desagravo contra a propaganda feita nas aldeias do concelho pelos opositores. Uma delas assinada por um grupo de nacionalistas torrejanos. Textos pouco consentâneos com a ideia de liberdade e de pluralismo democrático. São o verdadeiro exemplo da discriminação política e da chantagem através do medo. Divulguemos algumas partes da diatribe:” Pessoas que nunca se preocuparam com o bem-estar das populações andam por aí agora de terra em terra a prometer, se o seu candidato ganhar, aquilo que sabem não poder cumprir. Levam consigo também a onda de boatos para amolecer o ânimo das populações.

Cuidado com os falsos profetas, cuidado com as suas promessas.

Portugal só poderá progredir e ser o que todos os bons portugueses querem que seja, em paz, sem distúrbios, sem alterações da ordem pública.  (…) Cuidado, pois, gentes da nossa vila e das nossas aldeias!”

A 31 de Maio, saem, novamente, dois artigos na primeira página, a propósito do acto eleitoral que se avizinhava. Acompanhamos nas suas linhas o clima atrás denunciado – inculcação do medo nas populações e menorização das figuras contrárias ao regime, comparando-os a desordeiros e inimigos da paz e do progresso. Em algumas passagens, as acusações atingem um tom persecutório: “ Nesta actual balbúrdia da campanha Eleitoral em curso, os ecos da mesma, chegam a toda a parte, e é assim que todas as noites aos estabelecimentos da Aldeia, se juntam bastantes pessoas, para ouvirem os discursos dos oradores dos diversos matizes políticos (…).

Aparecem nestes momentos certos apóstolos da liberdade, só para eles, que nunca se preocuparam com o mal-estar alheio e que iguais a si próprios, vêm com ares compungidos e dentro do egoísmo que sempre os caracterizou, afirmar que tudo vai mal e nada se fez, tudo são mentiras e opressões à querida e estimada LIBERDADE, que desejam só para si e que constantemente negam aos outros (…), e temos homens que sempre foram bons, ordeiros e trabalhadores e respeitadores, a praticarem actos que deslustram e envergonham, como consequência de toda uma propaganda malévola e sem um objectivo construtivo, como se impunha a homens que se deviam prezar e respeitar.”

Prosa que evidencia uma acintosa descredibilização de todo um projecto que procurava levar a democracia a um país amordaçado. Neste caso, pela acção de alguns eméritos cidadãos torrejanos, rendidos à figura do general que ousou arriscar a sua vida em prol da liberdade de um povo.

(continua)

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