SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 18:52

As Eleições Presidenciais de 1958 na Imprensa Torrejana (1)

Poderíamos julgar que as eleições, acontecidas há pouco tempo, em nada se assemelham às que se registaram no anterior regime. A realidade tem o condão de nos alertar para o engano! Tanto no fascismo como em pleno contexto dito democrático, assistimos ao recurso da manipulação, do medo, da demagogia, do caciquismo e nepotismo. Por outro lado, a desavergonhada forma como muitos dos dinossauros políticos, contornaram a lei da limitação dos mandatos, é digna de figurar num glossário de desfaçatez e de má-fé política. Chagas que obscurecem o aparente sopro de democracia que estes momentos eleitorais parecem insuflar na sociedade portuguesa.

Vivemos numa época em que os partidos políticos sequestraram o poder democrático e o exercício de cidadania. Exigem a nossa participação apenas no tempo circunscrito ao período das eleições, com o objectivo de lhe concedermos o beneplácito, para depois usufruírem do nosso poder ao sabor das redes clientelares. A administração do erário público caiu nas mãos de uma classe profissional (salvo raras excepções), oligárquica e de apetite voraz, deslumbrada pelo dinheiro fácil, que condenou o país a uma situação de ruína permanente, deixando a pesada factura, da orgia financeira, nas mãos do honesto cidadão, flagelando-o por meio de uma demencial carga de impostos, desemprego e salários de miséria.

Esperemos que um dia, neste pobre e sacrificado país, surjam sinais de mudança. Vaticinamos que esse momento acontecerá quando formos mais exigentes na escolha dos nossos representantes e os responsabilizarmos pelos actos danosos. E, também, quando, ao primeiro sinal de incumprimento das suas promessas eleitorais, forem legalmente depostos. Uma revolução que exige um novo modo de pensar a política e o direito de exercer a cidadania – mais interveniente e reflectida.

Fractura não inédita na nossa História Pátria. Há exemplos de períodos em que a sociedade civil emergiu da letargia para combater regimes déspotas e corruptos. Um desses casos aconteceu sob a égide de um filho da nossa terra. O conhecido general Humberto Delgado.

Foi em 1958, no ano das eleições para a Presidência da República Portuguesa. À data, o ditador, António Oliveira Salazar, tentou impingir na opinião pública, a imagem de que o país vivia sob os auspícios da legalidade e liberdade política. Para cimentar esta ideia, abriu a proposta eleitoral de candidatos e a sua escolha aos cidadãos do país. Precavendo-se de uma possível perda do controlo do escrutínio, serviu-se de um forte aparelho de manipulação e dissuasor para que a figura escolhida pelo regime saísse vitoriosa. Uma campanha onde se utilizaram todos os meios para denegrir a idoneidade do candidato da oposição. Em outras situações omitiam-se na imprensa as fotografias e a adesão massiva de vastas camadas populacionais nos seus comícios. Este cenário de ostensiva censura e manipulação aconteceu nalguns jornais de grandes tiragens e em diversos periódicos regionalistas. Uma prática frequentemente desenvolvida pelo regime fascista.

Na vila de Torres Novas, a primeira vez que encontramos a notícia sobre as eleições, aparece no periódico “O Almonda”, a dez de Maio de 1958; uma semana antes, daquela que Iva Delgado considera como a inicial no distrito de Santarém, ocorrida, segundo a autora, na primeira página d’ O Riomaiorense, de 17 de Maio (Humberto Delgado – as Eleições de 1958, pág.99).

Na segunda folha do jornal torrejano, são-nos dados alguns elementos do perfil de cada um dos três candidatos que se colocaram à partida para o acto eleitoral. Ao lermos o texto somos confrontados, na parte final, com uma declarada apologia ao homem do regime. Prestemos atenção ao terceiro parágrafo do citado artigo: “ Em volta de cada um dos propostos reunir-se-ão: os oposicionistas à doutrina social e económica do Estado actual, que propõem um artista e advogado; os independentes, cansados duma tão longa ordem governativa e desejosos duma mudança ainda desconhecida, que propõem um oficial superior do exército, natural do concelho de Torres Novas; os defensores dos princípios estabelecidos no regime actual, baseado na valorização do homem na sua profissão, criador de riqueza, que propõem um oficial superior da marinha.”

(continua)

Aditamento: Na quinta parte do artigo sobre Maria Lamas, publicado em 11 de Outubro, a partir do décimo parágrafo (que finaliza com a frase “por tão ignominioso acto”), deve continuar a ler-se o seguinte período: “Entre os dias oito e quinze de Maio de 1976, decorreu, em Torres Novas, uma homenagem nacional à escritora. A festa teve o seu ponto alto no Teatro Virgínia e contou com a presença de Maria Lamas e de alguns dos seus familiares mais próximos. O Almonda e o efémero jornal A Forja, noticiaram este inesquecível momento para as gentes torrejanas.”

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