SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 02:50

Maria Lamas na Imprensa Torrejana (2)

No dia nove do mês de Dezembro, a edição do jornal O Fóco publica o poema “ Amor Pátrio”. Casada com um oficial de cavalaria do exército português, a ilustre torrejana exulta nos seus versos a coragem dos soldados que partem para Angola e Moçambique, na defesa do solo pátrio, ameaçado pelas pretensões belicistas alemãs – eram frequentes pequenas escaramuças entre os invasores e os portugueses nos campos de batalha africanos, apesar de Portugal ter entrado (oficialmente), mais tarde, na Grande Guerra.

Um misto de fervor patriótico e orgulho perpassam pelas palavras de Maria Lamas (Madresilva):

“ Passava um regimento. Ia para a guerra.

Imenso povo à beira do caminho,

Saudava com carinho,

Esses bravos soldados, que, garbosos,

De fronte altiva, firmes, donairosos,

Iam a defender a nossa terra (…).

«Mas é preciso a pátria defender,»

«E a pátria é a nossa mãe!»

A terra qu´rida que nos viu nascer,»

(…) E lá, longe, nos campos da batalha,»

P´ra onde vão partir,»

«Expondo ao fogo intenso da metralha»

«O peito tão leal,»

«Fitarão, a sorrir,»

«A bandeira de Portugal!» (…)”

Neste período conturbado, Maria Lamas participa a 13 de Março de 1915, no Teatro Virgínia, num sarau artístico a favor dos soldados portugueses em campanha. Desse episódio deu conta O Fóco, que imprimiu um suplemento, no dia 25 de Março, destinado exclusivamente à narração da cerimónia.

Pela primeira vez a ilustre torrejana assina os seus poemas, lidos na festa, com os apelidos do esposo, Ribeiro da Fonseca (o nome porque é conhecida a autora torrejana, resultou do seu segundo casamento com Alfredo Lamas).

As duas poesias arrancaram frenéticos aplausos por parte do público, principalmente a primeira peça lírica, com o título “ A Enfermeira da Cruz Vermelha”. O cronista do periódico descreve esse momento retumbante por meio das seguintes palavras: “ É com notável e impressionante sentimento que tais versos saem dos lábios da autora que há pouco dias ainda, julgou que seu marido, o tenente Ribeiro da Fonseca- oferecido para tomar parte nas campanhas d’África- iria cumprir o seu dever de soldado português, temerário e audaz e, como tal, traduziam o pulsar do seu coração de mulher e esposa, valorosa e verdadeiramente portuguesa, em cujas veias o sangue de Filipa Vilhena não degeneraria.” Versos irmanados pelo irresistível impulso da paixão patriótica, tendo como cenário os confins de África. Onde não faltam o humanismo e a fraternidade universal protagonizadas na figura da enfermeira da Cruz Vermelha.

O poema fala de uma esposa que se fizera enfermeira para acompanhar o marido no campo de batalha, numa das colónias portuguesas. Este morre, vitimado por um soldado alemão que ela encontra, depois, entre os diversos feridos que tem de cuidar. O conflito entre o ódio e a intransigente defesa da vida humana debate-se na infeliz alma destroçada. O apelo ao amor e fraternidade vencem nesta terrível dualidade.

Neste poema já encontramos indícios dos princípios que vão nortear a vida futura de Maria Lamas: a Paz Universal e a fraternidade entre os homens. Atentemos ao carácter magnânimo dos últimos versos do poema:

“ (…) E, oh cruel ironia! era ela agora

Que tinha de servir-lhe de enfermeira,

Que tinha de velá-lo hora a hora!

Ah! Não podia ser,

Era de mais! Então, dessa maneira,

Preferia morrer!

Mas, logo serenou.

Oh! Não! disse, não devo assim pensar.

Foi ele quem m’o roubou?

Pois bem, vou tratar dele, para provar

Que há na alma latina tal grandeza,

Civismo tal e tão grande nobreza,

Que até uma mulher,

A quem um alemão

Feriu o coração,

Matando-lhe o marido,

O tratou com carinho

Porque estava f’rido.”

Na terceira parte do espectáculo, Maria da Conceição Ribeiro da Fonseca voltou a recitar um poema ligado ao espírito do sarau. O conhecido “Amor Pátrio”, saído anteriormente no jornal.

Escusado será dizer que este encontro – com a finalidade de angariar fundos para os soldados portugueses-, foi um dos acontecimentos mais emotivos e nobres alguma vez realizados no pequeno Teatro Virgínia.

Dois meses depois (01-05-1915), o Jornal O Fóco, homenageava o tenente de cavalaria, Francisco da Cunha Aragão, dado como morto no campo da batalha de Naulila. Maria Lamas adere à iniciativa de louvar o retorno do herói lusitano dedicando-lhe o inflamado poema “Aragão”:

“ Voam as balas, ouve-se o canhão

Numa luta medonha desigual.

Os nossos vão perder. Que hora fatal.

Horrorosa, de imensa confusão!

Porém, morrer assim, vencido, não!

Sem provar ao mundo que, afinal.

Há soldados em Portugal

Como outrora, não pode ser! E então,

Num rasgo heróico, que o não há maior,

Tão grande e belo, que nos faz sentir

Pelo teu nome um tão santo fervor,

Salvas os teus e obrigas a fugir,

Pávido, o inimigo ante o teu valor!…

Faltaste tu em Alcácer Quibir.”

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