SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 16:08

O mundo maravilhoso da Natureza explicado às crianças

Nem todas as terras podem orgulhar-se de apresentarem, na mesma época, no domínio da literatura infantil, um número plural de grandes escritoras. Torres Novas é o exemplo de um pequeno lugar, onde nasceram três autores femininos de enorme sensibilidade neste difícil ramo literário. Duas delas almejaram um importante historial que, hoje, dispensam quaisquer referências. Falamos de Maria Lamas (1893-1983) e de Maria Lúcia Namorado (1909-2000). Já a escritora Maria Elisa Nery de Oliveira (1910- 1997) é vagamente conhecida pela conquista do prémio literário «Maria Amália Vaz de Carvalho», com o seu livro “ A Quinta das Amendoeiras”. Mulher simples, sem títulos académicos, os conhecimentos e a vasta cultura adquirida por Maria Elisa Nery, resultaram das muitas leituras e viagens realizadas em Portugal e pelo estrangeiro.

A entrada da ilustre torrejana no mundo das letras fez-se um pouco tarde, não obstante, nos primeiros anos de escola, revelar uma tendência natural para a escrita. Um episódio infeliz, acontecido na infância, ia-lhe suprimindo o seu talento. Recordemos o acontecido através das palavras da escritora: “ Conto, a propósito da minha vocação, um facto passado na escola, que prova o meu gosto em escrever e a minha infelicidade, então, dentro do campo literário.

Um dia, o professor marcou-nos, como tarefa para casa uma redacção sobre o rio, que conhecia bem, pois tínhamos barco e dávamos grandes passeios.

Fiz um trabalho «tão inspirado» que ele não acreditou que tivesse sido feito por mim, apesar dos meus protestos e afirmações.

O resultado foi jurar a mim mesma, nesse dia, que não quereria saber mais de redacções. E creio que durante vários anos, a promessa foi cumprida.”

Mas o apelo da escrita foi mais forte. Aos dezassete anos, a alma romântica de Maria Nery de Oliveira aflora nos seus primeiros versos. A partir daí, a necessidade de escrever torna-se um gosto. Ao enveredar pelos caminhos da literatura infantil, o seu objectivo principal foi o de construir estórias que levassem “a criança a apreciar a beleza dos campos e a vida tão apaixonante dos seres e das coisas, que, dum modo geral, ela desconhece.” Uma trajectória também construída pela curiosidade dos seus filhos sobre assuntos ligados ao mundo da Natureza. Como não encontrava livros que abordassem os temas, Maria Nery Oliveira deu-se ao delicado trabalho de os elaborar.

Desta feliz aventura resultou o conhecido e premiado livro “ A Quinta das Amendoeiras”. No dizer de Virgínia Mota: “ a clareza, tacto, ternura e graça natural” embebem as explicações de Maria Elisa Nery de Oliveira, conseguindo fazer entrar a criança no mundo maravilhoso da Natureza. É na Quintas das Amendoeiras, lugar paradisíaco, que os segredos das árvores e dos pequenos seres são revelados, por meio das sábias palavras dos queridos avós de Fernando. Descrições que provocam o espanto e a admiração da criança, subjugada pelo mistério e pela grandeza existente na realidade natural.

Um livro que tem o condão de sensibilizar e instruir os mais novos sobre a misteriosa vida dos pequenos seres da Natureza. São estórias como a da velha amoreira – testemunho da vida passada e da cumplicidade entre o casal de idosos -, que Fernando ouve atentamente nas saudosas palavras da avó. Relatos sobre a acolhedora sombra, os seus frutos e as folhas que servem de alimento a uns pequeninos bichos capazes de fabricar a delicada seda, utilizada na indústria de confecção.

Cabe ao avô Silveira o papel de explicar ao neto e amigos o comportamento das aranhas e a extraordinária e complexa organização presente na vida das formigas e abelhas. As didácticas lições são efectuadas de modo a não enfastiar os pequenos leitores, tornando-se, pela voz do velho sábio, claras e apaixonantes.

Entusiasmada pela crítica favorável à sua primeira aventura no domínio da literatura infantil, a autora torrejana resolve criar um novo filho espiritual; agora com os olhos postos na vida das aves. Deu-lhe o título “Férias da Páscoa”, mas manteve o local e as personagens que acompanhámos no seu primeiro livro. Ao longo das suas páginas vamos descobrindo a forma como os pássaros fazem os ninhos, se alimentam e vivem. Uma lição de ornintologia feita directamente no meio natural – longe dos rígidos programas escolares -, mostrando às crianças as singularidades e comportamentos de cada espécie, a que não falta o contacto com as belezas da Natureza, caso do almoço confeccionado no pinhal.

Prossegue com a estória das rãs dando-nos a conhecer uma das criaturas mais úteis e incompreendidas da natureza. Muita gente ignora o seu benéfico papel para a agricultura, ao preservarem as plantas dos seres nocivos que servem para a sua alimentação.

O livro termina com a trágica lenda dos rouxinóis. Nesta parte, o didactismo científico dá lugar ao lirismo. Estamos na presença de uma poética explicação para a misteriosa morte desta bela ave canora quando aprisionada numa gaiola.

Apesar de Maria Elisa Nery de Oliveira ter publicado apenas estas duas obras (numa entrevista aponta para um terceiro livro que, infelizmente, não entrou no circuito editorial), podemos considerá-la como uma das grandes escritoras da literatura infantil, no género didáctico. As criações da ilustre torrejana têm uma dupla virtude: em primeiro lugar, dão a conhecer às crianças “o mundo maravilhoso da Natureza”; proporcionando também “alguns momentos de distracção, instruindo-as fora das horas de estudo, com conhecimentos curiosos e úteis.”

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