SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 16:01

Cartas para Dª Isabel, 3ª Condessa de Rio Maior

Poucas são as referências que temos sobre o padre Joaquim Gomes Duque que viveu no Carvalhal da Aroeira. Julgamos que um outro sacerdote, nascido nesta aldeia do concelho, João Gomes Duque (1871-1946), pela proximidade do nome, era da sua família.

Há um registo escrito que liga o prelado, Joaquim Gomes Duque, a uma das ilustres figuras torrejanas – o Arcebispo D. Manuel Mendes da Conceição Santos. O documento alude, que o antigo companheiro do Papa Pio XII estudou português e latim, no Carvalhal da Aroeira, com o sacerdote Joaquim G. Duque, seu tio-avô. Por essa razão, as diversas intervenções feitas pelo conhecido arcebispo a favor da capela de São Silvestre, da citada aldeia, têm a marca da atribuição de uma pequena lembrança, pelos felizes anos passados na companhia do seu idoso familiar, residente no Carvalhal da Aroeira.

Figura esquecida das monografias do concelho, Joaquim Gomes Duque esteve envolvido num momento importante ligado à nossa história pátria: a polémica nacional, registada na segunda metade do século XIX, entre o Congreganismo e o Anticongreganismo.

Esta acirrada disputa explica-se em poucas palavras: no ano de 1857, entram em Portugal, as Irmãs de Caridade francesas, para fins de assistência, estendendo-se depois a sua acção também ao ensino. As limitações e deficiências do «Estado higienista» possibilitaram a presença das irmãs, que era defendida por largas camadas da sociedade e por representantes da nobreza, entres as quais destacamos a figura de Dª Isabel Maria, Condessa de Rio Maior. Algumas das freiras da Ordem de São Vicente de Paula estavam destinadas para o seu Asilo na Ajuda, a fim de cuidar das órfãs. Numa carta dirigida ao filho, José (15-12-1957), a Condessa dava conta desse momento de felicidade: ” Ontem se abriu o nosso Colégio da Ajuda com 15 meninas, mas hão-de ir entrando mais sucessivamente. Eu e a Teresa e a mana Mariana estivemos lá todo o dia. Foi muito tocante. As crianças, à medida que entravam, eram metidas num banho geral, muito bem lavadas dos bicos dos pés à cabeça, depois de cortados os cabelos, eram todas vestidas de lavado, e punham-se-lhe os seus bibes de riscado. Pareciam logo outras, pois os tais chapelinhos que levavam eram tristíssimos. Depois de todas prontas, foram levadas à Capela; depois jantaram e, depois brincaram toda a tarde, as Irmãs de Caridade saltando e brincando com elas, de maneira que as crianças estavam contentíssimas e alegríssimas. Só uma chorou, quando se separou da avó, mas daí a 10 minutos já estava a brincar. Eu pensei na diferença entre as Irmãs e as nossas mestras, muito tesas, muito sérias, muito sensabores. Enfim a primeira parte do meu trabalho está acabado, e eu muito contente, e esperançada que vá bem.”

Mas vários sectores da ala liberal, não viam com bons olhos a crescente influência católica no ensino, pugnando por uma escola secularizada. À cabeça do ataque às irmãs e aos frades lazaristas – que entretanto iam entrando no país-, colocou-se o jornal, O Português (do Partido Histórico). Temiam o ataque ao regime constitucional estabelecido no país, e um regresso ao “obscurantismo do passado”.

É neste ambiente hostil às congregações religiosas que o papel da 3ª Condessa de Rio Maior adquire enorme relevo, ao lutar pela permanência das Irmãs de Caridade em Portugal. Pertencente à alta aristocracia, D. Isabel Maria Vasconcelos, foi uma das mulheres mais inteligentes e cultas do século XIX português. A sua condição feminina não a impediu de se interessar pelos problemas políticos e destino da nação. A correspondência epistolar, mantida com os filhos, dão-nos a conhecer uma mulher dotada de uma clarividência invulgar, sensível, e para quem a educação era um bem maior que a fortuna. Abraçou grande parte da sua vida e energias em obras de beneficência; na dedicação aos seres mais desprotegidos da sociedade, como foi o seu papel à frente dos destinos do Colégio da Ajuda ou do Asilo para Cegas.

No ano de 1858, o prelado, residente no Carvalhal da Aroeira, e a Condessa de Rio Maior, estabeleceram um diálogo epistolar onde reflectem e tomam partido sobre este período de intolerância. Mas a familiaridade entre ambos já vinha de longe. Pelas palavras de Joaquim Gomes Duque, depreendemos que se conheciam antes da polémica religiosa a que se reportam as cartas: “ (…) Hoje quero dizer muito alguma coisa, ainda que melhor fora em conversar do que por escrito. Mas estamos longe e não sei quando nos avistaremos. Deixamos por isso de comunicar os nossos pensamentos? Não me parece acertado, se bem que este não seja o melhor modo.”

Ao escrever a D. Isabel Vasconcelos, o padre do Carvalhal da Aroeira, refere que os inimigos do catolicismo se encontram até mesmo nos altos cargos do reino: “ (…) quando a Justiça tem sido administrada por um inimigo declarado dela [igreja], que mesmo se justificava quando publicamente acusado.”

Exorta-a a ter esperança face aos ataques dos inimigos da igreja, mostrando algum receio nas baixas movimentações dos detractores: “ Mas não desesperemos do intento, e temo as maquinações ocultas que estão sempre nessa acção, porque a grande disposição é um pouco equívoca, e a moral está muito estragada.”

Instado pela Condessa a arranjar abaixo-assinados a favor das Irmã de Caridade, Joaquim Gomes Duque diz-lhe que conseguiu obter um número de signatários que “não andam longe de 400”. Toma também como seu empenho esta luta contra os inimigos do catolicismo, pois acredita no bem que irmanam dos princípios do evangelho: “ Se a religião se difundisse em todos os corações, que prodígio não operaria e que transformação tão feliz não faria em todo o mundo?!”

A contenda deu alguns sinais de arrefecimento durante a governação do duque da Terceira. Quando o duque de Loulé regressa ao poder, as vozes que eram contra a influência da igreja radicalizaram-se. Uma crescente onda de hostilidade, desencadeada pelos membros do Partido Histórico (ao qual pertencia o chefe do executivo), levou à expulsão das religiosas francesas, nos finais de Maio de 1862.

Infelizmente os desabafos do padre Joaquim Gomes Duque sobre este desenlace crucial na história moderna do país, não chegou às nossas mãos. Pensamos que viu a partida das irmãs com imensa tristeza, tal como aconteceu à sua ilustre correspondente, a Condessa Isabel. Sentimento evidente numa carta endereçada ao filho, José: “ Meu querido filho do meu coração. Há muitos dias que te não escrevo, porque de todo não tenho podido mas teus irmãos têm-te escrito, e por eles deves ter sabido o que se tem passado e o triste desenlace da questão das Irmãs de Caridade. Eu ainda não estou em mim, parece tudo um sonho e faz-me a maior aflição ver as crianças por aqui e por ali, com a sua educação cortada. Outra, que ficaram no Asilo, ouvindo talvez o contrário do que se lhes dizia até aqui, entregues a uma comissão de homens, que podem ser muito bons, mas que são decerto muito impróprios para dirigir um colégio de meninas. As Irmãs fazem-me a maior saudade, por mais que procurem decerto não acham mestras que se pareçam com elas.”

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