SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 21:14

O Artista da Primeira República em Torres Novas (2)

Instaurado um mandado de captura, Leal de Câmara vê-se constrangido a abandonar rapidamente o país. A prisão condenava-o ao desterro para Timor ou a “viver” numa das colónias africanas. De comboio passa pelo Entroncamento a caminho da fronteira que o leva a Madrid. Com poucos tostões no bolso, dirige-se a João Chagas que nesta altura se encontrava exilado em Espanha. O político republicano ajudou-o dentro das suas parcas possibilidades, emprestando-lhe uma camisa e sendo seu fiador numa pensão madridista. Mais tarde, volta novamente a encontrar João Chagas, agora, em França. Anos de penúria e indigência, marcaram o exílio forçado do pintor luso.

Em solo vizinho, Leal da Câmara consegue publicar, na revista El Album, uma caricatura do escritor Jacinto Benavente (galardoado com o prémio Nobel em 1922), com quem manterá uma estreita amizade, colaborando no seu periódico La Vida Literária. A apresentação ao leitor espanhol deu-se na revista, no seu número de 11 de Fevereiro de 1899, com um desenho em que personificava a imagem do Diabo vestido na pele de bufarinheiro, com o seguinte comentário humorístico: ”Tenho o gosto de apresentar-vos o distinto desenhista português, Leal da Câmara, que se encontra em Madrid devido a diabruras políticas, e o qual propõe seguir nesta Corte a sua actividade de caricaturista, sempre na companhia do diabo…”

Na cidade ibérica, frequenta a Escola de Belas Artes para aprofundar as técnicas e os segredos da pintura, colaborando também, em diversas revistas da especialidade, através de uma considerável galeria de retratos e episódios de influências goyescas.

Mas é na capital francesa que o caricaturista alcança a maturidade e a mestria na arte da pintura e desenho. A experiência adquirida no atelier de decoração Grasset e nas academias Julien e Colarossi, possibilitaram-lhe a estilização e simplificação da sua técnica, adquirindo as suas figuras traços mais sóbrios e incisivos. Logo no primeiro ano, expõe na Galeria Weill, com Sancha e o jovem Pablo Picasso.

Nestas suas andanças por Paris, sucedeu a Leal da Câmara um episódio invulgar: estando próximo de um pequeno hotel em frente do Petit Luxembourg, o célebre revolucionário russo, Léon Trotski abordou o caricaturista português para que lhe fizesse uma pochade de guerra contra o Imperador Nicolau II.

Depois de passar pelas páginas do Rire e de estar por detrás do lançamento do Rire Belge, a consagração de Leal da Câmara, como artista de renome internacional, acontece nas páginas da célebre revista L’Assiete au Beurre, criada em 1901, pelo judeu húngaro, naturalizado francês, Samuel Schwartz. Trata-se de um hebdomadário a cores de humor e sátira, com uma enorme qualidade artística e de grande tiragem. Nas suas páginas colaboraram os maiores desenhadores do tempo de Leal da Câmara. A revista tinha por objectivo troçar dos políticos venais, militares, burgueses. Os seus vícios e incompetências eram expostos e ridicularizados através do gume deformador da caricatura. No período em que a arte desempenhava o importante papel de denúncia e combate contra as injustiças sociais.

A revolução portuguesa de 5 de Outubro apanhou-o, na cidade das luzes, colaborando em diversas revistas e jornais. Contagiado pelo entusiamo vivido pela instauração do novo regime, Leal da Câmara publica na revista L’Assiette au Beurre, nº 499, de 21 de Outubro de 1910, uma caricatura na capa alusiva ao acontecimento, contendo o referido periódico um prefácio do impoluto republicano Magalhães Lima. Um dos seus objectivos de vida tinha-se concretizado: a Implantação da República. Agora, era necessário que os seus ideais não fossem desvirtuados ou extintos. Este receio sobre o recto caminho da nova ordem são evidentes nas linhas de uma carta enviada, no mês de Outubro, de Paris, para a sua mãe:

“ Minha querida mamã: recebi as suas cartas e jornais-

É claro que me regozijo com a vinda da República- primeiro porque se pôs na rua a monarquia e que era uma vergonha para Portugal e segundo porque suponho que essa República poderá assanar esse pobre país. Não é a frase República somente (sic) o que é necessário.

É preciso que as gentes que tratam momentaneamente dos interesses da nação o façam não só com a honradez que eu quero supor que eles têm mas com inteligência e habilidade de maneira a fazer progressar esse povo. Quanto a esta segunda parte, veremos o que esses senhores fazem porque, se a República (sic) é uma fórmula de governo capaz de dar resultados numa sociedade é porque dentro dessa maneira de governar, se pode mudar de administração ou conservar os que melhor resultado dão sem que o país corra nenhum perigo.

Veremos pois- (…).”

Largos anos distanciam-nos das apreensivas palavras do insigne caricaturista. Infelizmente a mesma preocupação abate-se, hoje em dia, no nosso espírito. Os termos, Democracia e República, foram banalizados, perdendo toda a sua força e riqueza concreta. Parafraseando Leal da Câmara, eles só deixarão de ser meros conceitos, na altura em que os políticos forem honrados, providos de inteligência e habilidade para melhorarem a vida do seu povo. Factos que não acontecem nos nossos dias!

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