SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 09:31

O Artista da Primeira República em Torres Novas (1)

Há cem anos atrás, a 15 de Novembro de 1913, o jornal “O FÓCO”, propriedade da Empresa Sales Velez, Rodrigues & C.ª, colocava em destaque na primeira página, a visita do notável artista português, Leal da Câmara, à vila torrejana. Segundo o periódico, o insigne pintor proferiria, no Domingo, no Cineteatro Virgínia, duas conferências: a primeira palestra dedicada à “Arte do Humorismo e da Caricatura”; abordando na segunda parte do encontro, o tema “ A Arte da Publicidade”.

No dia agendado, o autor na conferência inicial, fez a apologia do riso, a mais bela e sadia expressão da alma; destacando o seu papel no caminho do humorismo e da sátira – armas de combate e denúncia cultivadas pela caricatura. Leal da Câmara pretendeu, fundamentalmente, que a sua arte tivesse o sortilégio de levar a “pensarmos na nossa triste vida!…” De seguida, assistiram-se a projecções luminosas dos melhores artistas do mundo, através da apresentação de alguns dos seus trabalhos. Nessa plêiade constavam o nome do orador, Rafael Bordalo Pinheiro (o genial criador da figura do Zé Povinho) e Celso Hermínio.

Na outra parte do programa, ao pronunciar-se sobre a publicidade, Leal da Câmara salientou a importância do papel da arte no Comércio e na Indústria. Olhava a aplicação do saber artístico no campo publicitário como a sua vertente utilitária e prática. O objectivo do pintor passava por valorizar a publicidade na promoção e desenvolvimento dos referenciados sectores da actividade humana.

A par deste evento, no Salão da Sociedade Primeiro de Abril, na rua Nova de Dentro, o público torrejano, admirador da arte do caricaturista, pôde, desde sábado até às dezassete horas de Domingo, apreciar e, eventualmente, adquirir os seus belos quadros integrados na Exposição.

Com a presença do homem da Rinchôa, Torres Novas colocava-se na honrosa lista de lugares, em que o destacado artista da primeira República, falou sobre a relação entre Arte e o Humor e onde deu a conhecer as suas intemporais produções artísticas.

Uma parte importante da obra artística de Leal da Câmara reflecte o período conturbado e adverso vivido nos finais da monarquia. Da sua incisiva e enérgica pena saíram os mais ferozes ataques contra o rei D. Carlos. Além da primeira figura da nação, os políticos que, rotativamente, afundavam as finanças e o orgulho do país, não escaparam à verve do traço original do caricaturista. Os desenhos panfletários de Leal da Câmara censuram e ridicularizam os defeitos existentes nos governantes do período monárquico. Uma classe política constituída por representantes nefastos, desprovidos de carácter e agindo ao sabor dos seus interesses individuais ou partidários.

Nos primeiros anos da carreira do artista vêmo-lo associado a outro grande nome da primeira República, o político João Chagas (há uma acidental associação entre ele e Torres Novas!), fundador do jornal de tendências republicanas, “A Marselheza”. No seu periódico, Leal da Câmara, publicou um suplemento semanal de caricaturas de crítica político-social, onde desmascara a prepotência da classe dirigente e as injustiças infligidas ao povo, que lhe valeram diversos processos, admoestações e apreensões da publicação. Bastaram poucas semanas para que o jornal fosse encerrado pela acção do governo. Logo de seguida, Leal da Câmara inicia uma nova aventura, adoptando o “novo” periódico o título de “Marselheza”, sem o artigo definido. Em seu lugar, aparecem um ou dois polícias sugerindo a letra A. Durante cinquenta e duas semanas os mesmos temas são retomados nas suas páginas, seguindo o primitivo trajecto do autor, na luta contra os políticos corruptos e a decadente monarquia. Numa das suas pranchas a figura do Zé Povinho aparece de barrete frígio (símbolo do regime republicano) e chicote na mão, correndo com os maus governantes. A classe dirigente sentindo-se ameaçada suspende o jornal e manda prender os elementos ligados ao periódico.

Aquando a sua detenção, Leal da Câmara escreve uma curiosa carta a fim de tranquilizar a inquieta mãe. Diz o seguinte: “Estou detido na Parreirinha por ter increpado o brutamontes dum polícia que levava uma mulher de rastos pelos cabelos. Não se aflija, Mamã, nem se zangue. Estou certo que outrem no meu lugar, a começar pela minha Mamã, faria o mesmo.”

Facilmente se depreende que a mulher em causa era a República. Leal da Câmara propunha salvá-la, na esperança de que um dia, pela sua voz, a revolução ditasse a queda da monarquia. Uma batalha feita na defesa dos ideais republicanos que, segundo o artista, possibilitariam a liberdade, o bem-estar e a justiça ao humilde povo português.

A irreverente alma republicana de Leal da Câmara guiou-o na luta por essa mulher que simbolizava uma sociedade emergente mais justa. Nas páginas do jornal “A Corja” vai novamente retomar o espaço de crítica a um regime desprezível e opressivo. Os seus desenhos caricaturais ganham agora uma violência exacerbada. Ataca impiedosamente os políticos comparando-os a comilões que devoram as riquezas nacionais. Ao escolher o camiliano título que encabeça o novo periódico, o artista definia os políticos do governo como: “ a quantidade de gente de baixa condição moral e grosseira de espírito, a súcia, a gentalha, a canalha.” Nem o rei escapa incólume ao lápis corrosivo do caricaturista, levando a que as entidades judiciais chegassem ao cúmulo de o proibirem de representar a figura do monarca. Mas o entrave apenas agudizou a criativa inteligência do artista. Numa das suas imaginativas sátiras, a cara do rei forma-se a partir de um grupo de conhecidos políticos que seguram o típico chapéu real. Outras vezes a imagem do monarca assume os contornos de uma abóbora-menina, pêra ou barril. Perseguido pela censura, o jornal é proibido. O autor ainda publica um suplemento onde descreve a apreensão: “À hora a que escrevemos este suplemento, a polícia está apreendendo o nº 17 da Corja, saído hoje pela manhã. A polícia comandada pelo agente «Fagulha», entra nas lojas onde o nosso jornal se vende e apreende todos os exemplares…»

(continua)

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