SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 13:25

Breves apontamentos sobre um “livro inédito” de Artur Gonçalves

Há setenta e cinco anos, após longos meses de sofrimento devido a uma grave doença cardiorenal, morre no dia 11 de Agosto de 1938, o ilustre torrejano, Artur Gonçalves. Antes do período de convalescença, o autor estaria a preparar a publicação de mais uma obra de grande importância para a história local – “Foros e Forais”. Mas a iniciativa não chegou a ultrapassar a recolha minuciosa de dados sobre o tema. Outros projectos foram ceifados pela irredutível voz da morte que levou um dos principais narradores da ancestral e presente vida dos habitantes de Torres Novas.

Durante largos anos, os seus escritos vogaram ao sabor da incúria e desleixo, das ignaras mãos dos responsáveis culturais, que os lançaram para a montanha de papéis existente numa sombria sala do edifício da família Mogo. O caso teve lugar na altura em que se procedeu à passagem da Biblioteca, das suas originárias instalações, situadas na Praça 5 de Outubro, para o prédio próximo da igreja do Salvador. Adormecidos durante várias décadas, no meio de uma pilha de jornais, revistas e outros documentos de pequeno valor bibliotecário, são, por fim, resgatados do inevitável destino a que todo o material desprovido de interesse é encaminhado.

Na indiferenciada amálgama de papéis, encontraram-se os manuscritos dos livros editados por Artur Gonçalves sobre Torres Novas e outros conjuntos de folhas inéditas. Esta descoberta entusiasmou a comunidade científica local, que assim poderia avaliar o trabalho desenvolvido pelo ilustre torrejano e o seu hercúleo empreendimento, num tempo em que não havia uma biblioteca pública no concelho e onde era impossível o recurso da fotocopiadora para a recolha de informação.

Como simples autodidacta e leitor impúbere da obra do ilustre torrejano, tive, há pouco tempo, acesso aos documentos, guardados nos arquivos do novo edifício da Biblioteca Municipal Gustavo Bívar Pinto Lopes. Dentro da profusa obra de Artur Gonçalves despertou-me a atenção um maço de folhas dactilografadas e, em algumas partes, manuscritas, com o título “ Erudição Fácil”. Trata-se de uma colectânea de 176 textos (com o cunho pessoal do mestre), de leitura fácil e agradável, onde podemos constatar a solidez e domínio cultural do autor que ultrapassava o restrito campo da história. Os conhecimentos do ilustre torrejano da cultura e línguas clássicas são dignos de referência.

Ao ler algumas das locuções e ditos da “obra”, o meu pensamento foi invadido por uma enorme admiração face ao nível superlativo dos seus textos e conteúdos. O facto de concluir tardiamente os estudos e de passar ao lado da frequência numa instituição educativa superior, não foram entraves para a aquisição de um vasto manancial de saberes e técnicas ligadas ao mundo das letras. Artur Gonçalves formou-se através de imensas leituras e da sede do conhecimento. Um exemplo da persistente vontade de se desenvolver por meio da educação e cultura. Único caminho para a constituição integral do homem como ser responsável, autónomo e livre.

É pena que a obra intitulada “ Erudição Fácil” esteja circunscrita ao espaço exíguo de uma pasta, fechado numa sala dos arquivos da Biblioteca. Muito teriam a aprender os leitores ao acompanharem as suas linhas. Elas discorrem sobre expressões que, frequentemente, utilizamos no dia-a-dia, e das quais ignoramos a sua raiz ou formação, perdidas no emaranhado dos fios do tempo.

Enfermam pedaços da sabedoria do criador de fábulas, La Fontaine, ou do sábio autor grego, Epitecto, pois são sentenças e locuções dotadas de um ensinamento moral ou regra prática de acção. Expressões corriqueiras como: “ Entrar com o pé direito”(nº 5), “O beijo de judas” (nº8), “Pregar no deserto”(nº25), “O calcanhar de Aquiles” (nº36), “ O canto da sereia” (nº38), “O ovo de Colombo”(nº43), “Virar a casaca” (nº47), “Uma cabana e o teu amor” (nº66), “Despedir-se à francesa” (nº72), “Rés-vés Campo de Ourique (nº105), etc.,etc., são abordadas pelo autor  socorrendo-se de uma linguagem familiar, coloquial e plena de sageza.

Como estamos próximos de um período ligado à campanha eleitoral, deixemos aqui – para reflexão, o célebre dito analisado por Artur Gonçalves, “ Os Carneiros de Panurgo”:

“Em balde se busca no dicionário o vocábulo “carneiro” na acepção de pessoa carente de independência de pensar ou de agir, que, sem vontade própria, se deixa confiadamente levar por outrem, que vai para onde o mandam, sem discutir, a exemplo dos carneiros arrebanhados que, seguindo de cabeça baixa o seu guia, sob a vigilância algo contundente do cajado ou pedra do pastor, não tentam desviar-se do caminho, nada havendo que os faça retroceder ou parar.

Assim, numa eleição se classifica de carneirada a massa eleitoral que, às ordens de um cacique, deita na urna a lista que lhe entregaram, cujos nomes não conhece e, quantas vezes, nem ler sabe.

Mais eruditamente se emprega a frase Carneiros de Panurgo, para qualificar os homens que cegamente seguem exemplos ou opiniões alheias.

É ao fecundo escritor francês, Francisco Rabelais, (1483-1553), que se atribui a origem de tal alusão.

Na sua burlesca epopeia PANTAGRUEL, uma das mais notáveis criações do inimitável filósofo e humorista francês, apresenta-nos Panurgo como a personificação de todos os maus instintos da humana natureza, mas espirituoso e sedutor, apesar do seu cinismo; sempre atacado dum terrível mal, – a falta de dinheiro,- consegue arranjar 63 receitas para adquirir o vil metal, 214 para o gastar!

Querendo vingar-se do negociante de carneiros, Dindenaut, que o insultara, Panurgo compra-lhe o melhor carneiro e arremessa-o ao mar, gritando e balindo. Todo o rebanho segue imediatamente o primeiro carneiro, lançando-se também ao mar o próprio Dindenaut e seus criados são arrebatados e perecem juntamente.

Fácil é, pois, de ver a relação que existe entre os carneiros de Panurgo e a carneirada eleitoral, visto que tanto uns como outros procedem sem consciência ou conhecimento do acto praticado; aqueles caminhando de olhos fechados para a morte e os últimos estupidamente para o suicídio moral, abdicando da sua qualidade de homens livres (…).”

A Propósito do “Auto do Físico”

Expresso, neste pequeno espaço, os meus sinceros agradecimentos aos novos dados e correcções feitos pelo dramaturgo, António Lúcio Vieira, a respeito do artigo “Auto do Físico”. Ao elaborá-lo, apenas quis dar a conhecer uma autêntica e genuína manifestação de cultura, que, pela sua natureza, se situa muito além de alguns eventos, travestidos de valor cultural.

Um empreendimento que merece o carinho e o forte apoio por parte das instituições e cidadãos torrejanos.

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