SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 16:21

O “Auto do Físico”- 40 anos depois

O teatro é a arte que está mais próxima da vida. Ao construir a obra dramática, o autor tenta recriar as inquietações e vivências que acompanham o homem na sua fugaz permanência pela terra. Não é por acaso que o inevitável dramaturgo inglês descreve o mundo como um palco, onde cada um de nós representa o seu papel por breves momentos. Deste modo, entre o teatro e o mundo há um paralelismo natural. As duas dimensões por vezes identificam-se, sendo difícil separar a realidade da vida da “realidade” do sonho criada no palco.

O teatro é também esse espaço diminuto povoado por emoções, pensamentos e sonhos que movem os seres e os acontecimentos. Tribunal onde são julgados imparcialmente os actos dos homens e das nações, mesmo quando a justiça de um país é iníqua ou quando a maldade e perfídia reinam nas mãos dos mais fortes.

Através do riso que tudo desmascara e do trágico que tudo enobrece, o teatro tem a força de nos aproximar mais intimamente da nossa verdadeira condição humana.

Imbuídos neste propósito, um grupo teatral do concelho, trará novamente para o palco do Teatro Virgínia a peça o “ Auto do Físico”, escrita no século XVI, pelo torrejano Jerónimo Ribeiro.

Da vida do autor pouco se sabe. A tradição não documentada liga-o por laços fraternos ao conhecido poeta António Ribeiro Chiado (perspectiva refutada por Artur Gonçalves). Outra narrativa acrescenta-lhe o nome de Soares, dando como natural de Torres Novas, como podemos constatar no IIº tomo da “História da Literatura Portuguesa” de Teófilo Braga, referente à Escola de Gil Vicente e o Desenvolvimento do Teatro Nacional. Numa passagem do “Auto do Físico”, única obra conhecida do dramaturgo torrejano, pela voz do pescador, vemos que o ofício das letras não lhe trouxe riqueza:

” Não se pode já pescar

dinheiro por nenhum modo.

Anda tão turvo este mar

que é impossível tirar

sem lisonjas por engodo.

Pesco uma pobre vez para comer (…)

vem o anzol da Ribeira

pesca cifra, leva dez

então casa d’aluguer

vestir e calçar me dana.”

A obra veio a lume em 1587, inserida numa colectânea de autos e comédias, onde surgem os nomes de Luís de Camões e do nosso conterrâneo António Prestes. Não chegaram até nós notícias de uma eventual representação da peça durante a vida do autor, ao contrário do “Auto dos Cantarinhos” do seu patrício que, logo no intróito, alerta para o facto de a obra ter sido representada na cidade de Lisboa.

Isso não invalida a riqueza e importância do “ Auto do Físico”. A comicidade criada nalgumas situações, ainda fazem rir o desprevenido espectador. Por outro lado, a obra é relevante para o estudo da linguagem e costumes da sociedade lisboeta do século XVI. Denotam-se em algumas passagens da peça influências renascentistas, como no episódio da troca de identidades, onde o escudeiro finge ser o estudante, para conseguir os amores da mulher desejada. Uma temática ao gosto dos autores clássicos, na linha do imortal “Anfitrião” escrito por Plauto. Não deixa de ser também uma pequena troça ao auto dos Anfitriões do poeta autor dos Lusíadas.

O “Auto do Físico” é uma comédia de enganos e sátira aos comportamentos e profissões das personagens intervenientes. Logo, na primeira cena encontramos a figura típica da alcoviteira, na pele da serviçal de nome Inês. A troco de dinheiro vai iludindo o escudeiro, Lopo de Andrade, que morre de amores pela sua senhora. Conta neste embuste com a colaboração do criado Mamede. Tipo de serviçal que acompanha o seu senhor, o Médico astrólogo (Físico). Além de ser preguiçoso, tem a mania de namoriscar as raparigas da sua classe. A profissão do médico, não sai incólume nesta peça: tem as mesmas vicissitudes descritas na homónima obra teatral de Gil Vicente, a “Farsa dos Físicos”, onde o exercício da actividade é destituído de rigor científico, sendo mais um puro charlatanismo. A personagem do escudeiro, segue uma vertente dramática comum na época, dando-o como envolvido em jogos de amor. Na peça de Jerónimo Ribeiro faz-se passar pelo estudante (o destinado marido), para alcançar os esponsais da filha do Físico.

O contínuo amontoar de situações caricatas despertam nos espectadores o interesse pela obra, sem tempos mortos ou entrecortada por episódios supérfluos. Entre as várias peripécias destacamos a cena de ciúmes entre Inês e Grimanesa, na disputa pelo criado Mamede, o jogo das mentiras e a cena onde o serviçal veste a loba e o barrete do seu Senhor, O Físico, a fim de consultar o pescador, que lhe solicitava um remédio para curar a doença da mulher. O homem do mar leva, ao suposto doutor, um balde cheio de urina da esposa, para que possa ler nas suas águas o padecimento de que ela sofre. Também o clímax da peça desencadeia a nossa sã gargalhada, pois quando esperávamos que houvesse uma tragédia (resultado dos enganos e traições), tudo acaba em perfeita harmonia e ao som da música. Apenas ao escudeiro, o autor reserva um futuro menos feliz: terá de se recolher num convento para lamentar e reflectir sobre os enganos do amor.

Há quarenta anos, pela mão do Grupo de Teatro Experimental do Centro de Juventude de Torres Novas, a obra alcançou um êxito retumbante no palco do Teatro Virgínia. Os jovens e inexperientes actores (um excelente artigo sobre o acontecimento, refere que o actor mais novo tinha catorze anos, rondando a maioria pelos dezassete) arrancaram do público presente uma enorme ovação, rendido à autenticidade colocada pelos intervenientes na comédia de Jerónimo Ribeiro. Deixemos aqui alguns nomes dos participantes: Teresa Carvalho (Inês), Luís Pisco (Mamede), Luís Mendes (o escudeiro), José Rosa (o Físico), Eugénia Damásio (a filha do Físico), Emília Saldanha (Grimanesa), César Ruivo e João Maia (os dois matantes), João Reis (o amigo do escudeiro), Costa Marques (o pescador) e João Batista (o estudante). O coro foi chefiado por Pedro Pedroso, havendo também a participação de um conjunto, o “Grupo 4”. Coube ao escritor António Lúcio Viera a responsabilidade de trazer ao convívio dos torrejanos o “Auto do Físico”, de tão agradável memória.

O contágio desencadeado pela comédia levou a que fossem realizadas novas apresentações ao público. Uma delas decorreu a onze de Novembro de 1973, no belo palco do Teatro Garcia Resende, na cidade de Évora.

Quarenta anos depois, acalentamos a esperança de que esta nova leitura da peça venha a ter o mesmo envolvimento e entusiasmo. Tanto por parte dos actores como do público, que não vão prescindir de comungar este momento cultural imperdível.

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