SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 09:16

A Montanha Mágica

Ao recordarmos a figura ímpar de Maria Lamas, o que primeiramente ressalta à memória é o seu papel de defensora da condição feminina e de lutadora pela Paz no Mundo. As obras maiores da escritora dão-nos a conhecer o exemplo de uma intelectual interventiva que procurou a libertação da mulher e combateu todas as formas de injustiça e opressões. Uma luta que tinha por objectivo acabar com o ciclo interminável de estupidez e de crueldade que grassa(va) no mundo.

Quem lê os livros da ilustre torrejana é contagiado pelas interrogações de uma mulher que desejou para os seus semelhantes uma realidade mais igualitária e justa, onde a paz e a fraternidade não fossem palavras vãs. Um ideal que perpassa também na sua vasta produção literária destinada às crianças. Infelizmente, hoje esquecida pelas entidades educativas do país e dispersa em revistas e suplementos de jornais, sob o pseudónimo Rosa Silvestre. Seria uma justa homenagem a Maria Lamas, no momento em que decorrem os cento e sessenta anos do nascimento (a 6 de Outubro de 1893), que se fizesse uma recolha em livro da sua assinalável actividade de contista, existente em publicações infantis de referência da altura.

E por que não um empreendimento a desenvolver pelas instituições culturais da terra que a viu nascer? Um contributo literário que iria valorizar a formação das crianças e jovens, fonte de aprendizagem e conhecimento dos verdadeiros valores.

Servidos por uma prosa simples e poética, os contos e as novelas para crianças de Maria Lamas palpitam de beleza e generosidade. Têm a virtude de despertar nos seus leitores um vincado sentimento humanitário. Lenitivo purificador para os tempos sombrios que vivemos, de feroz egoísmo e onde foram varridos do ideário social e político as preocupações humanistas.

Por outro lado, há uma marca singular nas narrativas de Maria Lamas para a infância. A autora sobrepõe o real à fantasia e ao sonho. Na sua perspectiva, o maravilhoso encontra-se na Natureza e na vida, sendo desnecessário criar uma literatura infantil puramente desenraizada da realidade vivida pelas crianças. Foi esta a chave do seu projecto literário ligado às crianças, como afirmou, anos mais tarde, na entrevista concedida para a “Vida Mundial”, publicada em 10/08/73, onde afirma: “ Quanto à minha actividade no campo da literatura infantil, procurei explorar o imaginário em ligação com o mundo quotidiano e histórico, que a imaginação e o desejo penetram e transformam (…). O meu programa era o de apresentar à criança o mundo como criação e efectivação do imaginário.”

Com base neste pensamento, a escritora torrejana construiu diversas novelas: O Vale dos Encantos, A Maria Cotovia, Aventura de Cinco irmãozinhos, A estrela do Norte, Os Brincos de Cereja e A Montanha Maravilhosa. Nesta última obra, debruça-se sobre a amizade e os verdadeiros princípios. A acção decorre no espaço rural da Quinta das Andorinhas e na montanha, em tempo de férias dos protagonistas da novela; um rapaz, de nome Cadocha e a sua irmã, Bissu. Ao longo da narrativa, os dois heróis atravessam por várias aventuras onde aprendem a fazer queijo, manteiga, como se lavra a terra e se coze o pão. Também no espaço idílico do campo as crianças interiorizam o sentido ético das acções. Etapas que simbolizam a descoberta da Natureza e o progressivo aperfeiçoamento moral das personagens, que vão sendo confrontadas com diversas situações que as obriga a decidirem, muitas vezes de acordo com um quadro de valores de raiz cristã. Reminiscências dos ensinamentos aprendidos pela autora no Colégio de Jesus, Maria e José, das Freiras Teresianas, em Torres Novas.

É no capítulo V, na “Lição da avozinha”, que as crianças descobrem o significado do conhecido mandamento “ amar o próximo como a nós mesmos”, depois de serem testemunhas da maldade infligida pelos primos ao anão da história, o Rico-Pico. Figura pícara, de voz fanhosa e cara muito feia. Tinha um carapuço vermelho, da cor do seu grande nariz, enterrado até aos olhos e fazia-se acompanhar pelo seu fiel amigo, o corvo Ai-Ló. Um ser igual a nós. Apesar da fealdade exterior, era dotado de um coração pleno de bondade. Rico-Pico passa a ser o companheiro predilecto das crianças, que com ele sobem o “Gigante” – a montanha maravilhosa. A imensidão da paisagem avistada no seu ponto mais elevado comove as crianças para a beleza do mundo natural. Um choque da mesma grandeza ao que foi experienciado quando assistiram pela primeira vez o nascer do sol.

No regresso à Quinta das Andorinhas, Cadocha, Bissu e Rico-Pico descem a encosta com o intuito de encontrar o aeroplano perdido pelo protagonista da história. Perto de um caminho que corta para o outro lado, as crianças são alertados pelo anãozinho para uma situação de doença e pobreza extrema: numa barraca muito pobre vivia uma mãe e sua filha acamada, com uma doença grave na espinha. São amigas do Rico-Pico e quando a mãe da rapariga trabalhava, havia sempre um bocado de pão para ele. Desde que Rosinha adoeceu, a comida faltava. Mesmo assim o anão ia lá tocar flauta para entreter a amiga doente.

Momento importante para Cadocha e Bissu porem à prova os ensinamentos da avozinha. Uma onda de solidariedade contagiou as crianças e os mais velhos na ajuda àqueles seres deserdados pela fortuna. Tomam a iniciativa de realizar um Espectáculo de Variedades na quinta da avó, com o fim de angariar dinheiro suficiente para curar a enferma e alimentá-las. Todos os intervenientes da narrativa encontram-se envolvidos nesta nobre missão. O êxito foi total, enchendo de alegria aqueles corações simples e bondosos.

Estamos perante uma novela que reflecte em grande parte o projecto de vida seguido pela escritora torrejana, na sua incondicional defesa dos humildes e mais fracos. Ao denunciar e reparar as injustiças, Maria Lamas procurou “diminuir o sofrimento dos seres e tornar o mundo melhor”. Um exemplo moral e político que transfere para a voz da personagem Cadocha, quando este, no último capítulo da obra “ O Regresso”, diz: “ Havia de ser corajoso, trabalhador e bom! Nunca deixaria de fazer injustiças, nem causar mal a ninguém!

Havia de defender os fracos e aleijados, como o pobre Rico-Pico. Era preciso que todos fossem ajudados.”

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