SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 03:10

Carlos Reis, ilustrador de contos para crianças

A literatura para crianças nem sempre acolheu a importância que hoje lhe é manifestamente atribuída. Nos seus primeiros tempos, vêmo-la associada à imagem de uma arte menor ou confundida como um deletério para a instrução. Pais e pedagogos consideravam os contos infantis prejudiciais, porque distraíam as crianças no seu trabalho escolar e não lhes proporcionava um desenvolvimento sadio. Uma perspectiva imediatista e redutora que foi contestada na voz dos principais criadores da literatura infantil portuguesa. Nomes onde se destacam uma plêiade de contistas femininas, como o de Ana Castro Osório, da professora Chiapa Cadet e de Virgínia de Castro e Almeida. Foram elas que tiveram a sensibilidade de chamar a atenção para o papel do maravilhoso no mundo da criança.

Ao eliminarmos a presença do maravilhoso na infância arriscamo-nos a perder a força criadora da imaginação. E o homem sem esta admirável faculdade, é apenas um ser boçal e primitivo, que não consegue elevar-se acima das necessidades materiais, sem ontem, nem amanhã. Uma criatura de alma limitada, desprovida de visão ou sonho.

Compreendendo a importância e o papel dos contos infantis na primeira abordagem ao maravilhoso e no despertar da imaginação, a escritora Ana Castro Osório, iniciou no ano de 1897, uma colectânea de livros que entraram na vida das crianças. Empreendimento arriscado, porque pais, professores e editores davam pouca importância a este género de literatura. Os entraves obrigaram a contista setubalense a fundar a sua própria editora, desempenhando a partir desta data, a colecção “Para as Crianças”, um papel de relevo na incrementação do livro destinado aos mais novos. Estava dado o passo para que a literatura infantil, baseada no maravilhoso dos contos de raiz popular, adquirisse o seu próprio estatuto e autonomia. Nesta tarefa a autora contou com a ajuda do grande artista Leal da Câmara que através dos seus desenhos, cheios de movimento e graça, tiveram o condão de possibilitarem uma leitura mais agradável das estórias.

No ano em que o livro infantil regista esta nova orientação, disciplinada e pedagógica, sucedem-se na vida do pintor torrejano, Carlos Reis, acontecimentos de extrema importância. Em 1897 contrai matrimónio com D.ª Elisa Albertina Lobo, tendo como padrinho o rei D. Carlos I. Uma união que influenciará a sua obra, pela intensa luminosidade que trouxe à paleta do pintor, resultado da felicidade do casal, que nos três anos seguintes, vê aumentada a alegria, com o nascimento dos filhos, Elisa, João e Leonor. Também na data assinalada, Carlos Reis foi agraciado com uma medalha de ouro na Exposição Internacional de Dresden, pelo seu quadro “Retrato de Minha Mãe”.

Neste ano, um trabalho de Carlos Reis, ignorado por biógrafos e investigadores, surge no panorama nacional. Em 1897 assiste-se à divulgação pública da curta e feliz aventura do pintor torrejano no mundo da ilustração infantil. Esta experiência artística, encontra-se retratada no livro de Ayora (pseudónimo), “Contos Azuis”, constituído por treze estórias de pendor moral e fantasista. A introdução dos contos faz-se através de uma sugestiva aguarela realizada pelo pintor torrejano. Pinturas relacionadas com os conteúdos e temas das estórias. Num sentido contrário ao que era comum na época, em que os desenhos tinham uma função meramente decorativa, muitas vezes desligados do enredo do conto.

As aguarelas feitas por Carlos Reis estão repletas de graciosidade e beleza, transportando a criança para o mundo dos sonhos e da fantasia. Os traços e as cores, que envolvem as figuras presentes nas aguarelas, têm o condão de serem capazes de despertar a alma infantil que habita em nós. Os felinos que integram a aguarela do primeiro conto “A Gata Branca” são de uma terna inocência. Como curiosidade, se reparamos bem, o rosto da figura humana (o príncipe da estória) lembra-nos o nosso pintor torrejano. Também a pintura que serve a adaptação do conto dos irmãos Grimm “Os músicos da cidade de Bremen” – onde o galo, o gato e o cão se encontram às cavalitas uns dos outros, suportados por um burro-, respira essa candura própria do universo infantil.

Bastavam estas pequenas ilustrações do livro para concluirmos que estamos na presença de um grande pintor. A perfeição implícita no contraste entre as cores existentes nas pinturas, revelam o grande domínio de Carlos Reis na difícil técnica da aguarela.

Com esta pequena incursão pela literatura infantil, Carlos Reis perfila-se no grupo de artistas e escritores que prepararam o novo século que se avizinhava. O denominado “Século das Crianças”. Século onde a literatura infantil é elevada ao estatuto de escola de saberes e aprendizagens.

O conto maravilhoso, a verdadeira história de tradição popular, fazem parte integrante do aluvião cultural onde a criança vivifica a sua alma. Fonte inesgotável de virtudes morais, capazes de torná-la num ser autónomo, consciente e responsável e, para quem, a realização dos sonhos é uma tarefa inadiável.

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