SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 10:06

A candura das palavras

Com o passar dos anos vamos esquecendo os rostos e acontecimentos pertencentes à nossa infância e adolescência. Sujeita à lei do tempo, a memória vai apagando a maior parte das recordações ligadas aos lugares e pessoas que povoaram o nosso passado. Mas, de vez em quando, aflora à nossa mente, desperto por um objecto familiar ou sentidos, as lembranças que julgávamos irremediavelmente perdidas. Basta a fugaz e aparente presença de um sinal do passado para que uma multidão de pensamentos e afecções inundem os nossos sentimentos de uma inefável e indescritível nostalgia.

Foi o que nos aconteceu quando, ao desfiarmos as memórias contidas na vasta correspondência do escritor torrejano Faustino Bretes, deparámos com uma singular carta, escrita por mão feminina, agradecendo a oferta feita pelo ilustre torrejano, do seu primeiro livro de poesia, “Luz do Meu Caminho”; editado pela Coimbra Editora, no ano de 1950. No final da bela epístola assomava a cândida assinatura de Maria Luísa Serrão de Faria.

O nosso pensamento foi imediatamente invadido por velhas recordações. Os tempos pretéritos trouxeram de novo à memória, a esquecida figura da frágil senhora, já idosa e um pouco corcovada que caminhava lentamente, ajudada pelo seu “jovem filho”. Amparo necessário, visto que as cataratas iam a pouco e pouco apagando o azul celeste dos seus belos olhos.

Chegámos algumas vezes a dialogar com a distinta senhora. Uma aura de delicada virtude jorrava nas melodiosas palavras por si proferidas. À nobreza da sua linhagem genealógica, aliava-se um carácter recto e benevolente. Falava com sensível clarividência sobre os mais diversos assuntos.

A fortuna que a acompanhou durante grande parte da vida teve o sortilégio de a dotar com uma enorme bondade e ternura. Não tinha aquele olhar sobranceiro e arrogante que muitos ricos fazem gala ao conversarem com alguém de origem humilde e pobre.

É essa atenção pelos outros, independentemente da sua origem social, que a leva a agradecer o envio do livro da autoria de Faustino Bretes. Versos escritos pelo poeta “nos momentos de aparente quietude, procurando cantar o que, ainda assim, a vida encerra de belo, arriscado a queixa contra o que sabe ser evitável infortúnio, e finalmente, vertido a lágrimas provocada pela desgraça ou dor.” Livro onde fala da Natureza, da família, dos seus anseios e, principalmente, das tristezas. Foi sob o manto deste último estado de alma, que compôs o derradeiro poema da obra, intitulado “Lágrimas”. Nele o autor confidencia a enorme infelicidade e escuridão que se abateu sobre os seus em consequência do trágico desaparecimento da filha Ermelinda.

Conhecido pela sua faceta de intrépido combatente político, as delicadas palavras da velha senhora, tiveram o condão de encorajar Faustino Bretes nos passos iniciais que estava a percorrer na senda da poesia. Palavras ternas e precisas que nos dão a conhecer as preocupações e os assuntos mais queridos do poeta. Acompanhemos então os afectuosos conselhos da voz amiga:

“ Lisboa, 16/VII/50

Meu bom amigo

Há já algum tempo que ando para escrever a agradecer a oferta do seu livro “ Luz do meu Caminho” com que muito me sensibilizou mas não o queria fazer sem poder dar-lhe a minha opinião sincera e reflectida sobre essa sua obra. O muito trabalho e uma certa falta de saúde não permitiram que o fizesse mais cedo o que espero não me levará a mal nem tomará como menos interesse.

Foi com maior interesse e simpatia que li duma ponta a outra a “ Luz do meu Caminho” cuja ternura e amor pelos seres e natureza muito me comovem. Para mim esse livro tem aí a sua maior virtude e por isso compreendo que tenha sentido ao escrevê-lo um lenitivo e uma consolação para as dores e amarguras da vida que o não têm poupado. Não fosse se não por esta razão penso que deve continuar, independentemente de quaisquer contingências. Que este livro seja o primeiro duma longa e válida série. São os votos sinceros de uma conterrânea dedicada.

Maria Luísa Serrão de Faria”

Como forma de reconhecimento pelas sensíveis palavras e recomendações da sua conterrânea, Faustino Bretes guardou religiosamente esta carta entre a sua extensa correspondência epistolar até ao final da vida. Coube a nós a humilde tarefa de divulgar esta pequena jóia de bondade e ternura pelo outro.

One thought on “A candura das palavras

  1. Olá Vitor,
    Mostraram-me este artigo, que como imaginas me emocionou. A frágil senhora, que conheceste bem, era Maria Cândida, mãe da Maria Luisa.

Comments are closed.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados