SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 22:05

Iniquidades na Primeira República (2)

A “Lei da Separação do Estado das Igrejas” acarretou o eclodir do ovo da serpente que se encontrava escondido em muitos dos seus artigos. Foi a chave que abriu as portas para o mais elevado clima de intolerância religiosa registado na primeira república.

Este caminho, que culminou na impiedosa vexação aos prelados, já tinha, anteriormente, entrado nas inquietações de alguns republicanos esclarecidos. Se, por um lado, encontramos adeptos do regime que “apontaram as suas armas” contra a religião, outros tiveram uma atitude digna. Foi o caso do Governador Civil de Lisboa. Temendo o rebentamento de perseguições e linchamentos em massa, Eusébio Leão mandou afixar um edital, um dia antes da revolução de Outubro de 1910, onde exorta o “povo republicano” a respeitar “as pessoas e propriedades (…) sejam quais forem (…) as suas opiniões políticas ou religiosas”. Mas a prece surtiu pouco efeito. Com o 5 de Outubro registaram-se episódios de anticlericalismo e discriminação, tendo como alvo, prelados e ordens religiosas que, ao contrário do que se veiculava, eram uma força social bastante fragilizada. Situação para a qual concorreram muitas das medidas persecutórias levadas a cabo pelo regime monárquico.

Afonso Costa, desempenhou um papel crucial nesta fase. Tomou a seu cargo, a condução das inquirições feitas aos sacerdotes e freiras. Como registo, no dia 13 de Outubro, conduziu pessoalmente o interrogatório dos 128 padres congreganistas que se encontravam presos em Caxias.

Torres Novas também não escapou a esta onda tentacular de cegueira ideológica que ia submergindo as populações ignaras, autoridades políticas e militares. Um ódio primário incendiou os actos irreflectidos dos “vencedores”, levando-os a encerrar igrejas e congregações religiosas, e à destruição de lugares cultuais. Até a imprensa local legitimava algumas destas maldades: no Outeiro Grande, a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, não escapou à fúria dos iconoclastas, tendo sido a cabeça da Virgem separada do tronco. Do iníquo acto deu conta o Jornal Torrejano (10 de Novembro de 1910), mas em vez de recriminar a acção apresentou-a em tons de troça.

Há relatos de sacerdotes torrejanos que conhecerem o suplício das prisões republicanas. A 11 de Outubro de 1910, o padre Benevenuto de Sousa (1860-1948), natural do Outeiro Grande, não conseguiu escapar ao encarceramento, apesar de afirmar a militância na nova ordem e de pedir uma bandeira republicana para nela se envolver. De nada valeu também o facto de alegar que privava com o ministro do interior do governo provisório, António José de Almeida, que o teria apelidado “seu correligionário”. O percurso pessoal de Benevenuto de Sousa encontrava-se ligado ao partido nacionalista e aos jesuítas, ordem religiosa vítima de uma perseguição canina.

Foi preso na terra natal e enviado para a cadeia de Torres Novas, sob a acusação de “explorar a crendice popular”. Dali seguiu para Lisboa, onde, após algum tempo, é libertado pelo Governo Provisório. Mas não escapa à vergonhosa afronta de uma moção da autoria do maçon torrejano Drº Baracho, que solicitou ao regime instituído, o impedimento para que o padre Benevenuto de Sousa “não voltasse a residir no concelho”. O director dos jornais, “Folhas Soltas” e o “O Petardo”, fixa então residência em Leiria. Muitos anos depois regressa à terra natal, onde viria a falecer.

A actividade desenvolvida por Benevenuto de Sousa ao longo da vida é extremamente meritória. Além de ser um jornalista temível e independente, desempenhou um papel importante na formação dos Círculos Católicos de Operários; associações responsáveis pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores.

Um ano depois de Afonso Costa promulgar o decreto, as perseguições ainda continuavam. O padre José António D’Abreu, pároco em Torres Novas, foi preso no dia 14 de Julho de 1912. Um verdadeiro calvário vai acompanhar a vida do ilustrado sacerdote torrejano. Acusado de conspirar contra a República é levado para Évora, onde percorre todas as prisões da cidade. No percurso para o quartel da infantaria 11 agridem-no barbaramente face à recusa em beijar a bandeira do novo regime. Mais tarde a sessão de espancamento repete-se. Agora na estação de Casa Branca, onde vão ao ponto de rasgarem-lhe completamente o fato que trazia vestido. É colocado numa cela que o mantém incomunicável. Sem terem fortes argumentos que justificassem a prisão, os seus verdugos põem-no em liberdade. Mas a medida foi “sol de pouca dura”. Novamente voltam a prendê-lo, agora sob a acusação de cometer actos atentatórios contra a Lei da Separação. Absolvido, mais uma vez volta à prisão correcional onde permanece durante um largo período, por pretensamente ter sido encontrado um revólver em sua casa. Levado a julgamento por duas vezes, coube aos advogados, Drº Domingos Pinto Coelho e Drº José Manuel Alvarez, a incumbência de defenderem a inocência do prelado torrejano.

Tanto ontem como hoje, os regimes estão sujeitos a percorrerem caminhos que podem desembocar em excessos e desvios. O cinco de Outubro não fugiu à regra. Apesar das conquistas civilizacionais que se operaram com a implementação da República, o seu percurso não está isento de intolerância e perversidades. Pela mão anticlerical do seu mais importante político, Afonso Costa, a religião foi objecto de uma campanha injusta e iníqua, indo, desta forma, ao arrepio de dois pilares que estiveram na base da nova ordem nacional: pátria e liberdade.

Cabe a nós, no tempo presente, retirar a lição dada pela História passada. Na primeira República os bodes expiatórios foram os religiosos; nos nossos dias elegeram-se os desempregados, funcionários públicos e reformados. Isto porque, os representantes políticos esqueceram-se deste simples princípio: a tão desejada paz e o progresso social, implicam a solidariedade e o esforço colectivo, sem discriminações. Toda a acção governativa vocacionada para a divisão e luta entre os seus cidadãos apenas trará a infelicidade e o enfraquecimento do tecido social, reduzindo a vida à implacável e iníqua selva humana. Realidade que hoje vamos assistindo.

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