SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 16:06

Portugueses de Sucesso

Beleza e liberdade caracterizam o maior e mais rico estado americano. E San Francisco, com a Golden Gate, simboliza o mito californiano. Por aqui passaram vagas de sonhadores em busca da terra prometida. É uma cidade excêntrica, criativa e tolerante. Não há canto de que não gostemos. Desde o Fisherman’s Wharf à Mission Dolores, passando pelo Castro dos gays e pela Haigth Ashbury dos velhos hippies. A leste da baía: Oakland e Berkeley. A norte: Sonoma, Napa, Russian River  e outros nomes sonantes da indústria vinhateira.

Com tanta estimulação, não sabemos por onde principiar. Tal como é impossível ouvir diversas peças de música em simultâneo, a análise de algum aspecto importante de uma sociedade deve focar algo que nos surpreenda.

Assim, concentrar-nos-emos em dois exemplos da presença lusitana. Referimo-nos a gente empreendedora que não receia competir com os melhores. Compatriotas que compreenderam que o país onde nasceram se transformou na coutada de uma casta que existe apenas para explorar os concidadãos e complicar a vida de quem pretende inovar e produzir. Há cada vez mais portugueses que deixaram de acreditar nas “narrativas” do ressurgido engenheiro da Independente, na impunidade do Isaltino, nas aldrabices do Relvas e nas repetidas patranhas que todos os dias são proferidas por governantes, autarcas e outros dirigentes de uma república que podia mudar de nome. Talvez Portumanha ou Tretalândia.

Pois bem, fiquemo-nos por dois testemunhos. Abrimos com uma descoberta na Casa dos Açores, em Hilmar. Como se não chegasse terem-nos nomeado “sócio honorário” da instituição, também tiveram a gentileza de convidar este continental para comer um estupendo cozido à maneira dos ilhéus.

Apesar da grande maioria dos portugueses da Califórnia serem naturais ou descendentes do grupo central (Terceira, Graciosa, São Jorge, Pico e Faial), encontraram a forma de confeccionar este célebre prato com o mesmo paladar do primo das Furnas (São Miguel). O segredo deve estar na utilização de produtos locais e frescos. Há bastantes anos que não saboreávamos algo tão simples e delicioso. A carne de vaca, o chouriço, a negra, as cenouras, os nabos, as batatas e os inhames foram oferecidos por lavradores do fértil Vale de San Joaquín.

Foi nesta reunião que conhecemos o Sr. Manuel Vieira, natural da Ilha do Pico. É proprietário da A.V. Thomas Produce, uma das maiores produtoras de batata-doce e inhame. A companhia foi fundada pelo tio Tomás, em 1920. Amanham cerca de 1500 hectares, metade dos quais com práticas biológicas, e vendem mais de 800 toneladas destes tubérculos. Como nos foi dito, camiões e contentores carregados com produtos da A.V. Thomas estão constantemente a sair das instalações da empresa. Vinte e quatro horas por dia, doze meses por ano. São responsáveis por mais de oitocentos postos de trabalho.

Na manhã seguinte, atravessámos a ponte da Golden Gate na direcção norte. Visitámos o Centro do Divino Espírito Santo em Novato e fomos homenageados num jantar em Sausalito, na Irmandade do Divino Espírito Santo e da Santíssima Trindade. Esta associação benemérita foi fundada em princípios do Século XIX e possui uma abundante documentação fotográfica das suas festas desde 1887.

Ora acontece que o presidente é o Sr. Manuel Azevedo, chefe de origem jorgense, pioneiro da “cozinha nova” no emblemático Vale de Sonoma. A sua filosofia de base enquadra-se perfeitamente na actual revolução no campo dos “comes e bebes”: só utilizar ingredientes frescos, locais e na estação própria.

Tivemos o prazer de trocar impressões com este companheiro de mesa. É chefe e dono de restaurantes de referência num dos condados mais badalados no que diz respeito a prazeres da boca. Não lhe faltam nem ideias nem projectos. Temos em frente dos olhos um lindíssimo livro de que é autor: “LaSalette Cookbook; Cozinha Nova Portuguesa”. As fotografias são magníficas, o texto e as receitas também.

Por curiosidade, trouxemos da biblioteca o impressionante “A Day at El Bulli” de Ferran Adrià, o catalão que durante muitos anos foi considerado o maior inovador da gastronomia contemporânea, sendo o El Bulli reconhecido como o melhor do mundo. De igual modo, temos em cima da escrivaninha, “Noma; Time and Place in Nordic Cuisine”, de René Redzepi. Este dinamarquês parece ter destronado Adrià e o restaurante “Noma”, em Copenhaga, é agora o campeão nesta matéria. Sublinhe-se que o livro do chefe luso-americano não lhes fica atrás. Antes pelo contrário.

Calhou bem que os Senhores Vieira e Azevedo tivessem optado pela emigração. Ganharam eles e ganhou a Califórnia. Se houvessem permanecido onde nasceram, quiçá andassem como milhões num constante beija-mão a medíocres e incompetentes.

É gente deste calibre que dignifica Portugal. Não os governantes de meia-tigela que nos andam a parasitar.

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