SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 19:39

Califórnia: árvores gigantes e grandes vinhos

Sempre que o longo inverno se aproxima do fim, gostamos de dar um salto até à costa do Pacífico. Por motivos profissionais, mas também para visitar amigos. Talvez tenhamos no subconsciente os ecos de uma canção dos “The Mamas and the Papas” da década de sessenta. Os  leitores recordar-se-ão da letra. Começava assim: “All the leaves are brown and the sky is grey /  I’ve been for a walk on a winter’s day” (As folhas estão castanhas e o céu cinzento / Fui dar um passeio num dia de inverno).  E o refrão era:  “California dreamin’ on such a winter’s day” (A sonhar com a Califórnia no meio desta invernia).

Este enorme e influente estado americano tem muito que o recomende. Espantam-nos cidades como Los Angeles, San Diego, San José e San Francisco, a cadeia de missões multisseculares construídas pelos espanhóis, o ubérrimo Vale de San Joaquín, a cadeia das Montanhas Rochosas e as minas de ouro da Serra Nevada, os fascinantes desertos, as universidades no topo dos “rankings” e, para não ir mais longe, uma população superior à do Canadá e uma economia maior do que a da França.

Também aqui se encontram as árvores mais antigas do planeta. Sentimo-nos como anões, ao caminhar nalgumas florestas. Com efeito, ainda sobrevivem milhares de sequóias majestosas. Numa faixa costeira com mais de 700 km de extensão, ou seja desde o Big Sur até à fronteira com o Oregon, podemos admirar árvores cuja existência ultrapassa 2000 anos. Há exemplares com mais de 100 metros de altura e 7 de diâmetro na base.

Se as sequóias são impressionantes, a vinicultura não lhes fica atrás. Com efeito, já noutras ocasiões fizemos referência aos notáveis vinhos da Califórnia. São ousados e sem-par. Como referimos na edição de 1 de Março, ficaram célebres por terem destronado os Merseaults, Haut-Brions, Mouton-Rothschilds e Puilly-Montrachets na famosa Prova de 1976. Sublinhe-se que os jurados eram franceses. Desde então, os apreciadores abriram os olhos.

Os produtores apostaram na qualidade e os seus enólogos conceberam néctares imbatíveis em qualquer parte do mundo. Estes visionários, trabalhando em parceria com investigadores da UCDavis, testaram terrenos, analisaram microclimas e seleccionaram as castas mais adequadas para cada região. Descobriram novas metodologias viníferas. Os esforços não foram em vão visto que, na actualidade, muitos dos vinhos de gama alta já não são importados apenas da Europa.

É na senda destes pioneiros que as inovações continuam a marcar, tanto a viticultura como a vinificação. Ler num rótulo de garrafa Stag’s Leap, Caymus, Ravenswood , Inglenook ou Robert Mondavi é garantia suficiente para justificar competência e saber. Alguns são dispendiosos, mas merecem sê-lo.

De há cerca de quatro décadas a esta parte, a casta branca mais emblemática destas paragens é sem dúvida a Chardonnay. Centenas de pequenos e grandes produtores fazem destas uvas a matéria-prima de autênticas obras de arte. Quando as técnicas avançadas e as filosofias pessoais se combinam, o resultado é deveras surpreendente no que toca a distinção e complexidade.

Basta visitar algumas das áreas vinhateiras para entender que o oeste do continente possui as condições ideais para levar a primazia nesta matéria. Napa Valley, Sonoma,  Paso Robles, Monterey, Modesto, Santa Barbara, Mendocino e Carneros são regiões que se distinguem entre as melhores. E que ninguém se iluda. Nos 320 milhões de americanos, está incluída uma elevada percentagem que aprendeu a reconhecer o valor de uma garrafa de marca. É raro enfiarem um barrete, seja com no consumo quotidiano, seja na escolha para uma ocasião especial.

Se tivermos em conta que este estado também possui um sector hortofrutícola de nomeada, facilmente se compreenderá o extraordinário desenvolvimento de novas gastronomias. Há anos, descrevemos nestes apontamentos a nossa visita à vedeta da “nouvelle-cuisine” , o celebrado restaurante “Chez Panisse”, a poucos passos do campus de Berkeley.

Não longe da ponte “Golden Gate”, em Petaluma, existe um fabricante de queijo de cabra referenciado nas listas dos melhores. Chama-se “Achadinha Cheese Company” e é propriedade da família Pacheco, originária dos Açores.

Denominado “Capricious”, este queijo artesanal tem sido premiado em diversos concursos e, em 2005, foi eleito pela American Cheese Society para a lista dos “50 favorite cheeses in the United States”. Como é popular na zona das vinhas dos Condados de Sonoma e Marin, talvez possamos degustar em breve esta obra-prima…com um copinho de chardonnay.

Depois contamos.

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