SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 00:39

Queijo com chá

Fevereiro despediu-se com um tremendo temporal que quase paralisou o leste do continente. Quando conseguimos regressar a casa, foi pegar na pá e limpar quase vinte centímetros de neve. Só ontem é que a temperatura ficou mais amena e, neste momento, ronda os cinco graus. Já se sente um cheirinho a primavera.

Há alguns anos, bastante antes do óbito do casco histórico em parte causado pela construção da Torreshopping, havia uma série de excelentes mercearias no centro da urbe. Uma ou outra consegue sobreviver, mas, com a desertificação generalizada, o seu futuro é mais que problemático. Leitores haverá que ainda se recordarão de algumas dessas lojas. Na rua Alexandre Herculano, entre as travessas do Correio e da Hortelosa, sobressaía o estabelecimento do Sr. Pina. Talvez fosse então o comércio de géneros alimentícios mais fino da vila.

Recordamos que era lá e na Machado & Lopes, perto dos Claras, que se vendiam os dois queijos mais comuns: o flamengo e o da serra.

Não será exagero afirmar que os habitantes da Lusalândia gostam deste alimento. E, quando falamos em queijo associamo-lo por certo ao pão e também ao vinho.

Toda a gente sabe que a harmonia é perfeita. Daí, denominar-se “vin et fromage” ou “wine and cheese” a um determinado tipo de evento social popular em muitos países.

Assim, nunca passou pela cabeça de um português de gema receber um convite para uma prova de “cheese and tea”. Pensámos tratar-se de brincadeira de um colega excêntrico. Pois claro, apreciar queijos com golos de chá foi uma novidade para este curioso de sortes gastronómicas. Digamos de imediato que a experiência não foi má.

É óbvio que chegámos com preconceitos. Não saíam da memória o queijo fresco da nossa juventude que se casava perfeitamente com os tintóis torrejanos, nem os maredsous e remoudoux da fase belga, sempre escoltados com cervejas conventuais.

E de chás, apenas os bebericávamos quando éramos acometidos por alguma maleita e, se a memória não atraiçoa, era o Licungo da Zambézia. Com o avançar da idade, tomamos todos os dias uma taça de chá-verde. É recomendado pela medicina oriental, devido ao elevado teor de elementos antioxidantes. Mal não deve fazer e é possível que prolongue por uns anitos a nossa peregrinação terrestre.

No canto da mesa onde assentámos arraial, dominavam quatro tipos de queijos. Embora fosse impossível identificar os fabricantes, tínhamos brie, gouda, edam e “bleu”. Todos de fabrico artesanal canadiano, sendo a qualidade deveras superior à dos lacticínios industriais europeus.

Os bules estavam identificados com nomes nossos desconhecidos: Quangzou oolong, gyokuro, Russian Caravan e keemum.  Todas estas infusões têm por ingrediente principal as folhas de um arbusto com a designação cientifica de “camellia sinensis”, porém, tal como o vinho ou o azeite, distinguem-se consoante os climas e as metodologias utilizadas na cultura e fabricação.

O oolong  (castanho) vem da região de Fujian e as habituais oscilações de temperatura durante a colheita originam aromas e sabores um pouco leitosos. Combina com o brie e quanto mais gordo for, melhor. O gyokuro é o verde nipónico mais célebre. É cultivado com protecção dos raios solares, possui uma alta percentagem de clorofila e mantem o gosto a erva. Os japoneses bebem-no em companhia de pratos de ovos e marisco. Vai também bem com um gouda, seja ele do Ontário ou da velha Holanda.

A “Caravana russa” é uma mistura de chás pretos importados da Ilha de Ceilão e de Assam, estado do nordeste da Índia. Por regra, a sua secagem é feita lentamente com fumo de caruma de pinheiro. A degustação foi efectuada com edam canadiano. Quiçá se obtivesse idêntico resultado com cheddar. Por fim, foi a vez do frutado e complexo keemun que é considerado o mais versátil. Revela-se com todas as variedades de queijo. Mostrou o que valia no confronto com um “bleu” do Quebeque e partimos da hipótese que o mesmo aconteceria com os primos de França (Roquefort) e de Itália (Gorgonzola).

Se por um lado nos desconsola pensar que os merceeiros que conhecíamos em Torres Novas faleceram há muito tempo, por outro reconforta-nos saber que ainda não desapareceram nem as boas comidas nem as boas pingas da nossa terra.

O mundo mudou. Agora temos acesso a um vasto leque de produtos lácteos e, quem tiver os meios necessários, é fácil adquirir qualquer queijo estrangeiro nas cadeias de hipermercados. No que toca a chás, tampouco falta por onde escolher.

À primeira vista, o enlace parece estranho. Mas logo após uma prova o apreciador dar-nos-á razão. Nem sequer fará a triste figura da deputada Glória Araújo que, como diriam os nossos avós, perdeu o chá. Vem a propósito recomendar aos leitores o consumo moderado de queijo. Para que não se esqueçam em que lista votaram.

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