SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 04:03

Revolução na Paparoca

O interesse pela alimentação é uma nova droga à escala planetária. Menos perigosa e permitida pela sociedade. Está na moda a inscrição em cursos de cozinha, de preferência no meio de vinhas californianas ou em quintas da Toscana. Aos habituais credos de uma fracção da “esquerda caviar” e bem-pensante, acrescentou-se outro: a gastronomia. Verde e sustentável, para quem se puder pagar esse luxo. A boa comida tornou-se uma obsessão.

A preocupação é notória nos grandes salões gastronómicos ou nas pequenas tascas rurais, na proliferação de programas televisivos e de livros de culinária. Com efeito, existem canais com programação exclusiva sobre este tema. Sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia! Foi assim que Jamie Oliver, Anthony Bourdain, Gordon Ramsay, Ferran Adrià ficaram famosos. Ainda há minutos estivemos a ver “Épicerie fine”, onde pontifica Guy Martin da TV5Monde.

Esta mania tem raízes sociais, mas também culturais, psicológicas e até biológicas. O cuidado com a comida saudável tem vindo a traduzir-se num aumento de vendas de produtos biológicos. Na América do Norte, estes “organic produce” estão na origem de elevados lucros no sector agrícola.

Tal como o Monsieur Jourdain de Molière, que fazia prosa sem o saber, há décadas que Portugal se encontra na primeira linha deste combate. Toda a produção de hortas, pomares e campos da nossa região eram fertilizados com estrume animal e ninguém se irritava ao achar lagartas na fruta.

A moda pegou e, para surpresa de quem ainda pensa que é na “douce France” que se come e bebe como em nenhum outro canto do universo, devemos recordar que, na actualidade, os pioneiros da inovação pouco ou nada têm a ver com o país das 365 variedades de queijo, como dizia o General Charles de Gaulle.

Não é apenas por causa da economia e das finanças que a França está em crise. É também pela falta de criatividade e pela má-gestão generalizada. Os franceses vivem dos louros do passado. O problema é que não conseguem impressionar as novas gerações, que não vêem com bons olhos, entre muitos outros exemplos, o sofrimento dos gansos na preparação do “foie gras” ou a fabricação de lacticínios com leite não pasteurizado.

Quais serão as causas desta transformação? Uma delas é a existência de milhões de consumidores que aprenderam a distinguir um chardonnay da Califórnia de um sauvignon blanc neozelandês, um malbec argentino de um tempranillo espanhol. E é permanente o aumento do número de conhecedores de cervejas, cafés, chás, chocolates, queijos, etc. Fala-se de produtos de referência, como outrora se discutia poesia ou pintura. Por vezes, é a marca que domina o gosto.

Estes casos caricatos são mais comuns do que parece. Um exemplo no campo dos vinhos: a profética Prova de Paris. Em 1976, um júri composto por peritos franceses atribuiu mais pontos a todos os cabernets e chardonnays da Califórnia do que a célebres “grands-crus” de Bordéus e Borgonha. De realçar que alinhavam na equipa gaulesa autênticas vedetas tantos nos brancos (Meursault, Pouilly-Montrachet), como nos tinhos (Mouton-Rothschild, Haut-Brion).  Estes caríssimos “millésimes” foram preteridos a favor dos, nessa altura, humildes vinhos do oeste americano. Claro, que as garrafas não ostentavam os rótulos que tanto influenciam os apreciadores e os preços.

Este fenómeno não se limita aos vinhos. Conhecemos jovens norte-americanos que passam os fins-de-semana na cozinha, a gravitar em torno do fogão e há listas de espera em determinados cursos, como os da Escola Cordon Bleu.  Quase de um momento para o outro, surgiu um tipo de exibicionismo neste campo. Tornou-se chique cozinhar.

Além disso, discutir o que se come é uma actividade considerada politicamente neutra. Como sabemos, em Inglaterra é de bom-tom falar do tempo. O mesmo acontece em todo o lado, quando se fala de comida. Afirmar que se prefere queijo de ovelha ao de vaca, em princípio, não desencadeia antagonismo bélico entre amigos.

Somos da opinião que é um óptimo tópico de conversação. Permite aos interlocutores defender uma apreciação, sem serem peritos na matéria. É uma questão que unifica e valoriza as experiências de cada um.

A antropologia moderna afirma que a cozinha de um povo concretiza e fortalece a sua identidade, quer a nível local quer nacional. Qualquer português se reconhece como tal, quando lhe é servido um prato de caldo verde ou um bacalhau com batatas. Mais do que uma questão de identidade cultural, trata-se da própria essência. A culinária é, como a língua, um dos fortes alicerces do espírito nacional.

A propósito, não esqueçamos que o “Food Revolution Day” é no próximo 19 de Maio. O chefe Jamie Oliver, devoto da comida sã e verdadeira, está a organizá-lo. Entre outros objectivos, é seu desejo qualificar a obesidade como crime contra a humanidade.

Seja como for, os portugueses não deixarão de comer o que lhes dá prazer.

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