SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 16:51

Poder, Piscos e Cardiais

Haverá quem tenha lido em Homero ou Shakespeare como algumas personagens conquistam e exercem o poder. Platão, Maquiavel e Nietzsche também debateram esta questão. Assim é no campo abstracto das ideias. Na prática, todos conhecemos exemplos da sua boa ou má utilização. Num extremo, Estaline e Hitler. No outro, Lincoln e Gandhi. E, na liliputiana cena local, deparámos com um post de Jorge Carreira Maia (no blogue “A Ver o Mundo” – 9.Jan.2009) sobre “A cegueira do poder”. Abordava um assunto melindroso e levou-nos a efectuar uma série de analogias mentais. Por outras palavras, fez-nos pensar.

 

Afinal, o que é o poder? Ttrata-se, por certo, de um conceito ambíguo e dificil de definir. Em geral, é a capacidade de controlar o comportamento dos outros, mesmo contra a sua vontade.

 

Esteja ele institucionalizado ou não, é óbvio que assume diversas formas e se apoia em motivações variadas. Em psicologia, há quem defenda que o poder resulta de um desejo de compensação, que talvez seja a recompensa de uma coerção, menos vezes o reconhecimento de um saber.

 

Legítima ou ilegitimamente, todas as sociedades possuem mecanismos para determinar o nível aceitável de autoridade. O domínio legítimo é aquele que se enquadra em normas culturais e promove os objectivos de uma determinada comunidade. E é melhor ficar por aqui. Evitaremos, dessa forma, a tentação do “ad hominem” e não teremos de patentear o défice cívico de alguns cidadãos.

 

Se poder e força caracterizam quase todas as sociedades humanas, acontece algo de semelhante no mundo animal. E, por o entrudo já ter passado, compreende-se que será mais conveniente examinar com atenção o poder entre a passarada.

 

Estivemos fora uns dias e acumulou-se bastante trabalho na universidade. Como tínhamos de ler com urgência uma tese e redigir a respectiva avaliação, ficámos em casa na quarta-feira. Estávamos distraídos junto à janela, quando demos com os olhos num falcão (“sharp-shinned hawk” – buteo) a devorar um cardial (cardinalis cardinalis) no quintal da vizinha. O rubro cardinalício e os tons fulvos do falcão num quadro de neve ao pôr do Sol gravaram-se na retina.

 

Noutro apontamento, já nos referimos aos gaviões (“sparrow-hawk” — falco sparveris) que caçavam pombos. Também o número de piscos (“chickadee” — parus atricapillus)  é controlado por estes predadores. O que surpreende é a soberania dos falconídeos. Nada lhes escapa.

 

Reconheça-se, porém, que as avezinhas das cercanias não têm alternativa. Muitas das espécies que não emigram para o Sul, dependem da boa-vontade dos humanos que colocam, dedicadamente, comedouros nos jardins. Mesmo os predadores menos inteligentes sabem que, em toda a calma, conseguem, sem grande dispêndio de energia, apanhar uns passaritos em busca de sementes.

 

A analogia vale o que vale. Como a destes pássaros, a dependência crónica de milhões de portugueses dá azo à perpetuação dos controladores do poder. Comportam-se como o Minotauro de Creta que, para manter a paz, devorava jovens atenienses. Pois, no Portugal contemporâneo faz-se o mesmo. Por exemplo, destruiu-se a qualidade do ensino público, resultando daí que o futuro dos filhos e filhas do povo seja ainda mais problemático. Mas uma crescente percentagem das elites educa os rebentos em escolas privadas.

 

O país jamais atingiu um nível tão elevado de opacidade governamental. Seria esclarecedor se alguém do governo respondesse a algumas perguntas. Que estabelecimentos de ensino são frequentados pelos filhos de quem monopoliza o poder? Em que hospitais são tratados? Quais são as universidades que lhes deram os diplomas? Em que ano? Como é que enriqueceram tão depressa?

 

Somos todos umas avezinhas a ser tragadas pelos falcões e nem os cardiais escapam às razias do poder. No entanto, sabemos que quem sobe com o ar quente do ego termina estatelado no chão. Foi o que aconteceu à Passarola do Padre Bartolomeu de Gusmão.

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