SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 16:26

Malabarismos linguísticos

Umberto Eco é um escritor admirado por muitos portugueses. Aqueles que ainda lêem livros ou seguem o que se passa no mundo das letras e do pensamento. É professor emérito em Bolonha e leccionou no “nec plus ultra” do mundo universitário: Yale, Cambridge, Oxford, Toronto, Califórnia, etc. Da sua vasta bibliografia, destacamos os romances com os quais se celebrizou em Portugal: Nome da Rosa, Pêndulo de Foucault, Baudolino, Misteriosa Chama da Rainha Loana e Cemitério de Praga. No entanto, é pelos trabalhos teóricos que ocupa uma posição cimeira na intelectualidade europeia. Entre outros, “Semiótica e Filosofia da Linguagem” e “Tratado Geral de Semiótica”.

Recordamos ter lido numa das suas obras que uma biblioteca deve ser um pouco como uma livraria de antiquário, um local onde se descobre o que não se espera encontrar.

Assim aconteceu há dias, quando, na visita diária à biblioteca, deparámos com uma colectânea de ensaios deste autor: “Costruire il nemico e altri scritti occasionali” (Construir o inimigo e outros escritos ocasionais). Alguém a tinha deixado no canto de uma estante.

Eco sabe, nós sabemos, toda a gente sabe que existem milhares de políticos que, ao venderem ilusões, servem-se a eles mesmos e, sobretudo, a ricos e poderosos. Ninguém duvida tratar-se de um talento. Um bom comunicador é, em geral, um sujeito sociável. As duas palavras são à primeira vista sinónimas. Quase, mas não completamente. De facto, conhecemos indivíduos extrovertidos que não têm nada para comunicar. Deviam ter algo “para vender” pois, como assinala o dicionário, o significado exacto é “dividir alguma coisa com alguém”.

É conveniente que o receptor da mensagem se ponha de atalaia. O risco é enorme e não importa o que esteja a ser “vendido”. Realidades materiais ou imateriais, objectos ou ideias. Inclusive automóveis sem rodas, a Torre Eiffel ou qualquer tipo de banha da cobra.

Para o comunicador, vender é uma vocação inata. Jornalistas, assessores de imprensa e políticos têm de possuir este dom. Caso contrário ficarão pelo caminho.

Os fundadores dos EUA provaram saber do ofício ao inscreverem a liberdade de expressão no “Bill of Rights” (1791). Outras democracias os seguiram de perto e, hoje, seria impensável um regime livre sem estes direitos de base.

Entristece-nos constatar como o ex-primeiro-ministro e alguns autarcas hostis à transparência republicana ameaçam processar quem expõe as burlas a que pensam ser imunes. Há juízes que alinham no folguedo.

Voltemos às interrogações de Umberto Eco, não como romancista mas como semiólogo. Quais são os sistemas de sinais utilizados na comunicação? Que simbolizam?

É fácil confirmar que os programas políticos, sejam eles da direita ou da esquerda, têm de confrontar a austeridade. Na Grécia, em Portugal ou em Espanha. Após o despesismo – haverá termos mais contundentes! – dos socialistas Papandreou, Sócrates e Zapatero, foram impostas medidas para remediar o caos nas finanças públicas.

Até a França que, nos últimos anos se tornou uma sombra do que era, tem o mesmo problema. Sem excepção, as agudezas de espírito da língua de Molière transformaram-se em “doublespeak”, tal como descrito pelo inglês George Orwell (1903-1950).

Quem estiver interessado, pode consultar “The Economist” (12.Jan.2013) e verificará que os modelos gauleses se aplicam à língua portuguesa, quer a usada pelo inenarrável Sócrates quer pelo impopular Passos Coelho.

O politicamente anémico François Hollande, considerado uma nulidade por toda a grande imprensa francesa, emprega igual manipulação do verbo para mandar milhares de trabalhadores para o desemprego. Fala de “sécurisation de l’emploi” (garantia de emprego) para não dizer “flexibilidade”. Outros exemplos destas espertezas: “redressement des comptes publics” (recuperação das contas públicas) significa cortes orçamentais e aumento de impostos. “Austérité” ou “rigueur” são vocábulos banidos. Preferem “redressement productif” (recuperação produtiva). Por isso encerraram fábricas por todo o lado, inclusive da Peugeot.

Meses antes, já tínhamos lido no quotidiano “Le Monde” um breve artigo de Claire Gatinois a propósito da “austeridade”, palavra que atemoriza os políticos. E não fosse ela francesa, não viu outra justificação senão mencionar o “Sparpaket” dos alemães e os “Austerity Packages” do governo britânico. Foi-lhe porém impossível ignorar as ordens de “assainissements” (saneamentos) e “stabilisation financière” (contenção financeira) impostas pelo Presidente Hollande.

Aplaudiremos o partido que proponha uma emenda constitucional garantindo a liberdade dos cidadãos não terem de ouvir tanto palavreado. Como escreveu Umberto Eco em “A Ilha do Dia Antes”, para sobreviver, precisam de contar histórias.

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