SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 21:38

No inverno, sem tom nem som

Modéstia à parte, os canadianos estão convencidos que apreenderam o significado da palavra inverno. Hoje, talvez com menos frio e neve do que outrora. Mas considerando-o sempre como sendo uma época típica do calendário. Os leitores mais friorentos não acharão piada, porém temos vizinhos que preferem esta estação a qualquer outra e é vê-los nas pistas de esqui ou a patinarem no canal congelado.

Há quem entre em hibernação e sonhe com as quenturas estivais. E, quiçá por termos nascido no ventoso mas ensolarado Largo de São Sebastião como antes era conhecido, sentimos dificuldade em compreender quem não goste de ar livre.

Somos da opinião que o melhor é conciliar as actividades fora de casa com o aconchego de uma confraternização de amigos. De preferência perto da lareira, partilhando algum manjar especial.

Nem sequer lamentamos a severidades do clima nem a escassez de luminosidade natural. De facto, existe uma variedade de remédios para a depressão, aqui denominada “winter blues”.

Assim, é nestes meses glaciais que se festeja uma série de eventos. Os escoceses não esquecem o dia do poeta Robert Burns. Tampouco os irlandeses descuram o de São Patrício ou os quebequenses a Terça-feira de Carnaval. Ainda menos negligenciado será o São Valentim dos namorados. Todos canonizados por mérito próprio e, porventura, também alheio.

Durante estas semanas, à excepção dos educandos do Profeta de Meca, os norte-americanos em geral aproveitam a oportunidade para beberricarem uns golinhos de “single malt” das Highlands da Escócia ou umas cervejolas coloridas de verde em honra da Ilha Esmeralda.

Não somos apreciadores de whiskey, seja ele produzido nas “terras altas” britânicas, nas baixas do Kentucky ou no norte do Japão. Para escapar à expansão estomacal “à la autarca lusitano”, apenas tomamos cerveja no verão. Porquê? Que saibamos, São Vítor morreu mártir e não era barrigudo.

Aproveitamos os serões de sábado para ler e ouvir música, contrabalançando assim os padecimentos invernais. De preferência, no sofá com uma manta de lã sobre os joelhos. Se calhar, até em companhia de um bule de chá.

E, por o título da colaboração desta semana parafrasear um dito popular, honrámo-lo com uma olhadela em diagonal no livro “Wofür es sich zu leben lohnt. Elemente materialistischer Philosophie (O que vale a pena viver; elementos de filosofia materialista), de Robert Pfaller. Recorremos a este pensador porque sentimos poder gozar umas horas de “dolce farniente”, sacudindo do mesmo modo a inércia associada à invernia.

O referido professor defende que muitas atitudes próprias das sociedades ocidentais têm vindo a ser drasticamente alteradas desde os fins do século passado. Entre outros, dá o exemplo do narcisismo. Com efeito, a solidariedade deixou de se enquadrar no esquema tradicional e passou-se a valorizar apenas o que um individuo tolera no comportamento colectivo.

O autor conclui que a humanidade está a perder a capacidade para apreciar o que há de bom na vida. Noutros termos: pequenos prazeres nunca fizeram mal a ninguém.

Quis o acaso que fossemos ver os títulos do jornal “I” (19.01.2013). Um deles divulgava que 55% dos reformados do Estado, em 2012, tinham menos de 60 anos. Deve tratar-se de mais uma exageração a que nos habituou o jornalismo nacional. Ou — quem sabe? — outra amostra do desconhecimento do país real por parte dos estrangeiros que inspeccionam as contas portuguesas. De qualquer forma, após uma vida inteira de sacrifícios pelo bem-estar da nação, quase todos estes funcionários merecerão com certeza umas décadas de repouso. É indiscutível que, na maioria dos casos, granjearam o respeito de quem utiliza as repartições públicas, instituições estatais ou serviços autárquicos.

Coisas e loisas, sem tom nem som.

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