SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 07:18

Balanço de mais um ano português

O céu está da cor de água de lavar pratos, o termómetro no exterior da janela marca dez graus abaixo de zero na escala de Celsius e o vento dá uma ferradela metálica na parte exposta da cara. Há cerca de três dias que não pára de nevar. Abeirando-nos do lume, a nossa opinião coincide com a de Cervantes quando ele escreveu que um homem sentado à lareira é tão importante como um rei no trono. Ora bem, seremos por umas horas o imperador da Cochinchina.

Junto às saudações natalícias, chegaram mensagens com a escolha para o prémio de aldrabão do ano. Bastantes destas nomeações recaem sobre uma personalidade que, para evitar arrelias, preferimos não identificar. Temos a repetição de 2011. Numerosos são os torrejanos que o conhecem. Porta-se como se fosse o Senhor Marquês e accionista maioritário da Companhia Colonial de Secos e Molhados, SARL. Um especialista em criatividade financeira, particularmente no ramo de Sociedades Anónimas de Responsabilidade Limitada.  Ou até de total irresponsabilidade.

Não, não se assustem. Não sendo nossa intenção enveredar hoje por esse caminho, primeiro pensámos em analisar a difícil situação em Portugal, mas logo nos demos conta que seria breve a escrevedura. Com efeito, resumir-se-ia a uma palavra: corrupção. Esticando um pouco o significado do vocábulo, também valia falar de tachismo.

Um tantinho de gente a compor a cena, mas a parecer não querer vê-la. É sabido que a corrupção e o tachismo alastram como uma mancha de tinta em papel de má qualidade. Nunca se comunica o que se devia saber e as “noticias no jornal”, tantas vezes redigidas por assessores pagos com o dinheiro dos contribuintes, não passam de propaganda. De facto, algumas são distribuídas pelas caixas do correio com os folhetos anunciando os descontos do Continente ou dos Três Mosqueteiros. Tudo, apenas e somente, para promoção de chicos-espertos e patos-bravos certificados. Quem quiser que os compre, mas cumpre avisar que o negócio é mau.

Licenciados e mestres de fim-de-semana, por correspondência e com incontáveis equivalências, estes diplomados não valem senão um 5 em cidadania. Por outro lado, merecem 20/20 em “exercícios de ambição desmedida”.

Desilude-nos gente com valor que se deixa subornar pelos vendedores de ilusões. Há um velho provérbio indiano que explica a situação: “um cão com um osso na boca, não ladra”. E quem lhe tira o osso, arrisca-se a levar uma dentada.

Os portugueses podiam compreender que, de todos os narcóticos, a droga mais dura e cruel é a ilusão. A dependência é grande. Os demais estupefacientes, em comparação, são quase como a aspirina. E, já agora, recomendamos que é conveniente não esquecer que o apetite aumenta quando se começa a comer. Olhem em torno e confirmarão que é verdade.

No blogue “Abrupto”, Pacheco Pereira escrevia esta semana que “o sistema foi feito para a mentira conveniente e uma série de profissionais dessa mentira, em nome do marketing e da assessoria de comunicação, estão aconchegados nos gabinetes do governo, para fazer essa ‘sale besogne’ de nos enganar”.

Convenhamos que a tentação é grande para coroar com o título de “Troca-Tintas de 2012” quem bem o merece. Mas tal excedia a benevolência de quem manda e transcenderia o intuito do autor destas linhas.

Cada vez que se inicia um novo ano, começa uma nova era. E esta poderia ser a da responsabilização de quem tamanho mal fez ao prometer mundos e fundos. O povo clama justiça. Parece que ela não funciona e, se é essa a verdade, pois sigam elegendo a mesma tropa fandanga. No entanto, façam o favor de não vir com as choraminguices do costume.

Não havendo justiça igual para todos os cidadãos, a nação não é digna do respeito a que se devia obrigar. Assim é na Mauritânia, Mali, Chade ou Burkina Faso. Se democracia é sinónimo de inteira dominação por uma casta de larápios, quiçá os gabirus tenham ultrapassado o ponto de não retorno.

Estávamos muito tranquilos, quando, intrigados por um artigo do “New York Times” sobre os 39 fins diferentes que Hemingway idealizou para o “Adeus às Armas”, fomos reler a famosa novela de Hemingway. Termina com Catherine e o bebé a morrerem no parto e Henry a caminhar na chuva, de regresso ao hotel. Aprendemos, contudo, que existe um manuscrito com outro “Nada Ending” para esta obra-prima. O derradeiro parágrafo podia ter sido: “É tudo o que há a dizer sobre esta história. A Catarina morreu e vocês também morrerão e eu morrerei. E isso é tudo o que vos posso prometer”.

Fazemos nossas as palavras do Nobel de 1954. Com efeito, anda quase tudo mal no nosso país e a única coisa certa é que, mais cedo ou mais tarde, ninguém cá fica: nem os políticos nem nenhum de nós. Outra certeza absoluta, os portugueses continuarão a ser defraudados pelos governantes.

Quando se partem os ovos, o melhor é fazer uma omeleta. Aproveitemo-nos, enquanto é tempo, para beber um copo de espumante e comer uma fatia de bolo-rei.

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