SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 10:19

Sinfonieta de Dezembro

Iniciámos estes parágrafos com neve no quintal e o canal congelado. Entretanto, a neve está a derreter e ainda podemos ir para a universidade de bicicleta. Um pequeno prazer a que nos habituámos há mais de três décadas. Não obstante a exposição aos elementos, com a roupa apropriada até se ouve o chilrear da passarada que aqui passa o período invernal.

A parede toda envidraçada do nosso gabinete permite admirar a cidade a metamorfosear-se semana após semana. Desvaneceram-se as cores outonais que no mês passado ainda pintavam a paisagem e, muito em breve, será a alvura monótona da neve que tudo acentuará.

Lá fora, o vento sopra do nordeste. Da Península do Labrador ou, quiçá da Groenlândia. Efectuada uma visita rápida pelas páginas do JT e deste semanário, apraz-nos registar o trabalho da autoria do antropólogo e investigador João Carlos Lopes sobre o Clube Torrejano, a associação mais antiga da nossa terra. Século e meio de existência! Uma efeméride digna de menção.

Por termos o privilégio da amizade de alguns membros e assíduos frequentadores desta colectividade, é costume partilharmos uma bebida, por vezes uma almoçarada, que serve de desculpa para trocar uns dedos de conversa naquele local. Para mais, prezamos os dotes culinários do Sr. Jorge que, quando para tal é solicitado, prepara uns petiscos “à sa manière”. É um funcionário eficiente e discreto. Também merece um louvor.

Mas orientemo-nos para outra música. Um colega sueco esteve a passar uma temporada em Portugal e ficou umas semanas em Cascais. Teve azar, pois, durante a sua estada, apanhou mais frio e dias de chuva do que teria se ficasse na cidade báltica onde reside.

No entanto, o que mais nos inquietou não foram as más condições meteorológicas. Foi sim a deplorável imagem que o país apresenta actualmente aos estrangeiros do norte da Europa.

Também nós, nados e criados no rectângulo lusitano, ficamos impressionadíssimos com as imagens arrasantes que nos chegam todos os dias, verdadeiro espelho das dificuldades com que se debatem milhões de compatriotas. Habituámo-nos à hecatombe grega, porém nunca nos passou pela cabeça que portugueses e espanhóis acabariam por seguir idêntico caminho.

Por vezes deixam-nos horrorizados. Por razões óbvias, evitamos ver os noticiários dos canais televisivos de Lisboa. É mau, por assim se comprovar que a saturação está a ultrapassar os limites. Houve quem tivesse votado em partidos que levaram o país à insolvência financeira. Pior ainda, à bancarrota moral. Alguns aproveitaram-se à grande e à francesa. E nada acontece. Tornou-se tabu pedir contas a quem nos intrujou. O silêncio da comunicação social é ensurdecedor.

Tínhamos visto no Youtube o “doutor”, semi-doutor ou não-doutor Relvas a dizer umas palavras na inauguração de uma escola do concelho. A convite de políticos locais, defendia a importância da educação. Pois bem, o necessário é que “vão estudar”. São mesmo uns cataventos em perpétua giração no vendaval actual.

E nesta sinfonia, cumpre agradecer a quem fez recuar os responsáveis pelo aumento do IMI. Como explica Inês Vidal (JT 30.11.2012, p.2): “Depois de em Setembro ter aprovado a taxa de IMI à escala máxima, isoladamente no contexto de todo o Médio Tejo diga-se, a câmara de Torres Novas deu o dito por não dito e levou esta semana à aprovação da assembleia municipal a descida da mesma”.

Recordamos que a maioria tinha determinado um aumento de 0,4 para 0,5. Depois, veio recuar para 0,39. “Ligeiro recuo”, lê-se n’O Almonda (16.11.2012). Mais um exemplo do altruísmo nobre e generoso com que foi abençoada a população, sempre reconhecida e reverenciadora!

Esqueçamos a “Pavane pour une infante défunte” e regozijemo-nos com um hino à coragem da oposição que se bateu contra mais uma sobrecarga para os contribuintes. Milhares de torrejanos agradecem que alguém os tenha defendido. É que os supostos líderes políticos têm provado que quanto mais cobram mais gastam. Os portugueses já descobriram como o dinheiro desaparece e quem dele se aproveita. Entre outros, os interessados podem consultar, entre outros, os blogues “Má despesa pública” e “Portadaloja”.

Por uns meses, a bicicleta vai ficar recolhida num canto da garagem. Também é garantido que, apesar do frio, os pássaros alegrar-nos-ão com as suas visitas aos comedouros do jardim. Só não sabemos ao certo quantos mais serão os sofrimentos impostos ao bom povo de Portugal. Certo, certinho é que os responsáveis de tanta roubalheira continuarão sãos e salvos. Até ao dia do “götterdämmerung” (crepúsculo dos deuses) como na ópera wagneriana.

Com relâmpagos, coriscos e trovões, Wotan desforrar-se-á! Nem as valquírias do Reno intercederão para lhes evitar o julgamento final.

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