SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 02:30

Saldos de fim da estação

Há quem tenha feito inaugurações para comemorar o centenário da República. Com placa e discurso. Foi um profissional destas andanças, omnipresença fotográfica no semanário local e salta-pocinhas pelo mundo dos tachos e panelas. Diz hoje o que contradiz amanhã. Ineptocrata por Excelência, faz lembrar a Monarquia.

No país, nas autarquias, nas empresas e nas famílias. Em Portugal, o encurralamento é perfeito. Já não é o povo quem mais ordena. São finórios deste calibre que mais ordenham a vaca tísica e de tetas descarnadas. Ninguém duvida que assim seja.

Como afirmou o escritor Eugénio Lisboa: “O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso”.

Dirão os habituais defensores do injustificável: mas que mal tem isso? Será ilegal? Claro que não deve ser. Para esta gentinha tudo é legal. Gostaríamos que essa guarda pretoriana, a viver à custa das nossas contribuições, IMIs, IRSs, derramas, etc., reflectisse no que seria se os caciques não fossem de uma determinada cor política. Da casta que pensa estar acima de qualquer ética. Que tudo lhe deve ser permitido. Ora vão bugiar. Expatriem-se para Paris, Cabo Verde ou Timor, para fazer companhia a outros coveiros da Pátria.

Exemplos não faltam. Aqui está um, publicado no diário “I” (7.09.2012): “Secretário de Estado favoreceu mulher de ex-ministro Alberto Martins”. “DIAP arquivou processo. Todas as testemunhas, incluindo João Correia, disseram não saber com quem a magistrada era casada”. E adiante: “No mesmo dia, sobre o mesmo assunto, o ex-secretário de Estado da Justiça, João Correia, proferiu dois despachos com “orientações contraditórias”: num caso, uma magistrada teria de apresentar um Documento Único de Cobrança (DUC) e contestar; noutro caso, a magistrada não precisava de apresentar contestação. A segunda magistrada era a mulher do ex-ministro da Justiça, Alberto Martins. Maria Conceição Correia Fernandes foi a única, de sete magistrados, que apresentaram uma acção administrativa, a receber um suplemento remuneratório por acumulação de funções em 2010. As incongruências não ficam por aqui: o seu processo foi também apreendido no gabinete do ministro com “uma referência ao ano de 2011”, embora dissesse respeito a acções administrativas instauradas em 2009 e 2010. Em nenhum dos outros casos aconteceu o mesmo. E no processo, uma testemunha adiantou que tinha sido “mexido” e “alterado”. No fim, a procuradora recebeu o dinheiro no espaço de apenas cinco meses – ‘a acção em causa foi proposta em Fevereiro de 2010, e a interessada recebeu os valores relativos ao pedido que nela formulou em Julho do mesmo ano’ –, passando à frente de outros magistrados que alegadamente terão feito primeiro o pedido. Apesar de ter ficado claro que a mulher do ex-ministro da Justiça saiu beneficiada, o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa arquivou o processo. O caso teve origem em notícias de que a procuradora do Ministério Público teria recebido indevidamente 72 mil euros de suplemento remuneratório…”.

Segundo o referido jornal: “Os procuradores da 9ª secção do DIAP de Lisboa decidiram pelo arquivamento por não se terem recolhido ‘indícios suficientes da prática de conduta susceptível de integração nos tipos criminais referidos e analisados nem de quaisquer outros’”.

E andam milhões de portugueses a ser tiranizados para que estes figurões continuem a encher os bolsos em toda a impunidade. Relembramos que este conhecido político foi “deputado à Assembleia da República nas V, VI, VII, VIII e IX Legislaturas. Foi líder da bancada parlamentar, até 2009. Ocupou os cargos de Ministro da Reforma do Estado e da Administração Pública no XIV Governo Constitucional (1999-2002) e de Ministro da Justiça no XVIII Governo Constitucional (2009-2011) ”. Com passagem por Macau e não dizemos nada de novo. A culpa é da Doutora Angela Merkel, pois claro.

Esta é a enésima demonstração de que não existe justiça em Portugal. A capoeira está entregue às raposas. Que mais iremos ver neste país de escravos? Os ilusionistas de serviço continuam a palrar como se não fossem, também eles, os grandes responsáveis da hecatombe nacional. De Paris, Cabo Verde ou Timor, vão um dia regressar transvertidos em xamãs com receitas mágicas para sair da crise. Numa manhã de nevoeiro, como el-rei D. Sebastião.

Que Nossa Senhora dos Aflitos nos valha, visto que o futuro não é risonho. Justiça não virá por certo, sofrimento sim. Passem muito bem, que, entretanto, temos de ir dar água à mula. Ela está a morrer de sede.

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