SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 03:39

Cães relembrados, a propósito de uma foto

No verão de 2000, lecionámos na University of Central Missouri , em Warrensburg, uma pequena cidade a 90 Km de Kansas City.  Mal tínhamos recebido a chave da casa, logo um colega nos foi mostrar o que havia para visitar naquele burgo típico do Midwest americano.

Não esquecemos a surpresa que tivemos ao deparar com a estátua de um cão em frente da Câmara Municipal. De facto, é mais comum honrar deste modo alguém nascido na terra. Neste caso, talvez Dale Carnegie (1888-1955), o autor de livros famosos. Entre outros: “Como fazer amigos e influenciar pessoas”.

Numa placa afixada à referida estátua, está gravado a “Tribute to a Dog” da autoria de George Graham Vest, advogado interveniente no caso da morte de um cão chamado “Old Drum”. Na sua intervenção, defendeu que “o cão é o único amigo totalmente fiel que um ser humano pode ter, nunca o abandona e não é traiçoeiro nem ingrato, só ele sabe guardar o sono de um mendigo como se fosse o de um príncipe…”. Ganhou a causa e a sentença fez jurisprudência no Supremo Tribunal do Estado do Missouri.

E como também admiramos a lealdade destes animais (a Violeta, o Benfica, o Tejo, o Arroz Doce), pensámos na estátua de Warrensburg quando descobrimos a foto que acompanha o apontamento de hoje. Fazia parte de uma coleção familiar.

Alguém com talento e arte podia escrever um romance em torno desta fotografia de fins da década de cinquenta, início da de sessenta, tirada nas traseiras dos Paços do Concelho. Nela vemos um grupo de alunas da Escola Primária a intercederem junto ao Presidente (Evaristo Matos Branco) e Vice-Presidente (Fernando Cunha) em defesa de um cachorro apreendido por funcionários da autarquia. Que outras alegrias e adversidades terão tido estas meninas no decorrer da vida?

Foi há mais de meio século. E as retratadas olharão para trás com graça, quiçá com um sorriso. Nostalgia de vivências passadas que nem sempre soaram a felicidade, mas que agora parecem bastante mais leves e banais.

Recordar não se limita a uma forma de reviver com o tempo dos verbos no pretérito perfeito. É um acto saudável que irradia equilíbrio e harmonia. Refrescar a memória é contagiar os outros a rever cenas do passado. Este contágio também é positivo, se criar oportunidades para reencontrar pessoas com quem nos cruzámos durante a juventude.

Se envelhecer é uma inevitabilidade, lembrar ocorrências da história de cada um é uma obrigação. Por isso acreditamos que o correr dos anos robustece o espírito, enriquece-lo com sabedoria e virtudes.

Ficar mais velho é um pouco de tudo o que dissemos antes, mas também é uma imensidade de coisas fantásticas e extraordinárias. É encarar a vida com mais serenidade e menos pressa.

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