SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 21:44

Paz e Sossego no “Sobrado dos Monxes”

Nos tempos que correm, os bolsos andam vazios. Sem tostão. À moda da canção francesa dos anos setenta: “Quand ya pu d’sous, ya pu d’sous”. Porém, a casta de privilegiados continua a sugar o sangue dos contribuintes. É esta porção da população que tem de ser responsabilizada pelo estado em que Portugal se encontra. Para quê expor nomes? São bem conhecidos a nível nacional e local. Como se pode ler numa carta de Eugénio Lisboa, endereçada ao primeiro-ministro, “uma grande parte do povo português, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade”.

Quem votou naqueles que agora nos esmigalham e quem aplaudiu uns outros que, antes, presidiram à festança, tem a obrigação de exigir contas. Numa democracia a sério, estes trafulhas teriam sido julgados. Nas urnas ou nos tribunais. Alguns estariam por certo no calabouço e ficamos por aqui.

E para quem não queira emigrar, não possa dar-se às luxúrias Socráticas em Paris, ou não esteja filiado no clube dos picanços de tachos, com lugares cativos em autarquias e empresas públicas, o melhor é imaginar que vive noutro sítio. Talvez noutra época.

E logo pensámos no Caminho de Santiago, onde crentes e menos crentes há séculos se buscam a eles mesmos. É uma maneira de sair da rotina. De esquecer as aldrabices e injustiças de que somos vitimas.

Na verdade, deve haver ali qualquer coisa de especial. Apesar dos bandidos, intempéries, lobos, cães selvagens, etc., houve períodos em que o número de peregrinos se aproximou do meio milhão. Iam a pé ou a cavalo para abraçar as relíquias do santo. Uma questão de fé. Ou até de turismo.

De facto, se pensarmos que a população da Europa rondaria então os 75 milhões, é significativa a percentagem que visitava os centros religiosos. Além de Compostela e Roma, também Chartres (França) e Cantuária (Inglaterra). Os grandes trabalhos literários dessa época, por exemplo a Divina Comédia de Dante Aligheri (1265-1321) ou os Contos de Cantuária de Geoffrey Chaucer (1343-1400), narram estes roteiros espirituais.

Gostamos de refazer segmentos “del Camino” e constatar que alguns dos atuais peregrinos se encaixam perfeitamente nas histórias de Chaucer. Ligamo-nos, assim, a uma comunidade que existe há mais de mil anos: os caminhantes de Santiago.

Ao longo do itinerário, não faltam mosteiros e conventos que albergam e alimentam quem passa. E, nas veredas calcorreadas por tantas pessoas, ainda se ouve o som furtivo de algum animal e o gorjear dos pássaros. Por montes e vales, reina uma quietude etérea. À distância, do cimo das serras, compreende-se melhor a insignificância humana de anões no estilo do licenciado Relvas da Lusófona, do Engenheiro da Independente, dos doutores da mula ruça com diplomas por correspondência e de tantos Pedros, Josés e Antónios que são o que todos sabem que são e não o que eles pensam ser.

Numa destas jornadas, seguimos da Corunha com destino ao Sobrado, via Betanzos e Curtis. O mosteiro foi fundado em 1192 e reconstruído entre os séculos XVI e XVIII. Impressiona o aspecto maciço dos edifícios da abadia e a fachada da igreja reflecte a exuberância de estilo churrigueresco. Diz-se que esta obra de Juan de Herrera é a mais bela do Renascimento na Galiza.

Foram os monges de cister que deram alma a um corpo tão belo. Mas também foram eles que governaram uma meia centena de priorados, mais de mil aldeias e vilas, e que exploraram os pobres agricultores das redondezas. O “Sobrado dos Monxes” acumulou riquezas enormes e era quase um reino dentro do reino das Espanhas.

Maior contraste com as humildes igrejas que se vêem por toda a Galiza seria difícil de idealizar. O frade que nos abriu a porta tinha um hábito branco com o escapulário castanho da sua ordem e deixou-nos deambular por onde nos apeteceu naquele labirinto de salas, claustros, capelas, galerias, etc..

A devoção está na base de muitas obras-primas. Imaginámos os ecos de Páscoas e Natais de outrora e saímos a magicar se teria sido a fé que se manifestou em tanto talento, ou se, pelo contrário, teria sido apenas um veículo conveniente, porventura o único, para os homens de génio dessas épocas.

Impressionou-nos o silêncio sepulcral. Apenas se ouvia a pardalada nos claustros como em “Le Grand Silence”, filmado no Val St-Martin francês. Tampouco se apagaram da memória um semicírculo de religiosos em torno do altar e o tranquilizante cântico gregoriano. A profunda espiritualidade do momento era mais que tangível. A cena era para eles e para Deus. Talvez estivéssemos ali a mais.

Quando um monge entra para o mosteiro, os irmãos perguntam-lhe: “estás verdadeiramente à procura de Deus?”. Não lhe perguntam se ele já o encontrou. O caminho de Santiago também é uma busca. E um retiro. Do mundo e das balbúrdias lusitanas.

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