SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 08:58

New Hampshire, pequeno e bom

Em meados do século XVII, os colonos do New Hampshire já tinham criado uma economia mercantil de envergadura, o que atraiu imigrantes oriundos da Massachusetts Bay Colony e de outros territórios dependentes da Coroa Britânica. Esse desenvolvimento baseava-se nos recursos florestais (madeira, peles de castor) e na riqueza das espécies pelágicas perto do litoral. Não menos importante foi a situação geográfica e o profundo estuário do rio Piscataqua. As trocas comerciais depressa assumiram valores elevados, notadamente no que toca à Europa, Antilhas inglesas (tabaco, algodão, índigo, açúcar), Canárias e Madeira (vinho).

Hoje, é o quinto estado do país com menos habitantes— um milhão e meio— contudo mantem-se entre os mais ricos em termos de rendimento familiar: cerca de 66.000 dólares.

Como no resto da Nova Inglaterra, os campanários brancos das igrejas que marcam as aldeias e vilas do New Hampshire fazem parte da imagem pacata e reconfortante que fascina os visitantes. Mas não é só esse o motivo que cativa milhões de pessoas. Há também embarcações a boiarem em enseadas amenas, magnificas estalagens rurais, veredas para intermináveis caminhadas a pé, ciclovias asfaltadas, bosques tranquilos, praias civilizadas, desportos de inverno e as inolvidáveis cores outonais.

São numerosos os turistas estrangeiros, porém é ainda maior o número de americanos que por aqui peregrinam para admirar as raízes da nação. Nenhum outro recanto contribuiu mais para a representação coletiva. Qualquer criança do Arizona ou do Alasca, do Michigan ou do Ohio, sabe explicar quem eram os “Pilgrim Fathers” , a rocha de Plymouth e como os Ameríndios acolheram os primeiros europeus.

Quase duzentos anos depois, a revolução industrial constituiu um elemento primordial da história do século XIX. A disponibilidade do capital acumulado em Boston, a abundância de cursos de água para produção de energia e de gente a querer avançar na vida, resultaram no desenvolvimento colossal do setor têxtil, sobretudo no condado de Hillsborough. Particularmente em Manchester.

Visitámos ou atravessámos o New Hampshire por diversas ocasiões. Algumas destas viagens estiveram associadas aos colóquios de estudos portugueses organizados pelo Professor Douglas L. Wheeler. Estabeleceram óptimas oportunidade para conhecer académicos e políticos interessados nas nossas coisas. É todavia o 4th International Meeting on Portugal, realizado em Setembro de 1989, que ficou na memória pela seguinte razão.

O ilustre historiador, então titular da “Prince Henry The Navigator Professorship of Portuguese History & The Discoveries”, surpreendeu os participantes com um “clambake”, no arquipélago de Shoals. Fomos de autocarro da Universidade de New Hampshire para Portsmouth e, nesta cidadezinha cuja imagem ilustra este apontamento, embarcámos no ferry “Thomas Laighton” com destino a uma ilha administrada em conjunto pelo New Hampshire e pelo Maine. Chovia bastante e mal se conseguiu assar, numa enorme fogueira, os ingredientes deste prato tão característico da costa nordeste: milho na maçaroca, batatas, uma amêijoa quahog e lagosta.

Decorrido tanto tempo, fomos refazer a excursão. No regresso a terra, e terminado o passeio pela parte baixa da cidade, regalámo-nos com outra especialidade da gastronomia local: uma malga de “clam chowder”. Esta sopa de amêijoas e creme de leite é aqui preparada de tal forma que compõe mais do que um repasto. É o convite para uma crise cardíaca. Deliciosa!

O espírito de liberdade comunitária é tão eminente que, além dos impostos federais, não há contribuições estaduais nem municipais. Tampouco existem taxas parecidas com o IVA português. Embora 1,5% da população tenha antepassados lusitanos, figurões do estilo Sócrates-Relvas-Vara-Isaltino-Coelhos-Soares-Cavaco não perduram nestas paragens. E nem sequer vale a pena mencionar os resplandecentes autarcas do rectângulo ocidental da Península Ibérica. Teriam sido julgados.

A propósito, não há poluição nem rotundas e o desemprego é dos mais baixos dos Estados Unidos. Uns invejáveis 5 %.

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