SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 10:59

Ai pum, catrapum!

Cada vez que vemos os telejornais ou lemos a imprensa, mais nos convencemos que desapareceram de Portugal o bom tempo e o bom pressentimento. No momento em que escrevemos estas linhas, são as notícias do furacão Gordon que aterrorizam as ilhas de São Miguel e de Santa Maria, às quais se acrescentam as descobertas de uma variedade de modelos de corrupção e aldrabices de alto gabarito.

Como alguém nos tentou convencer, os nossos políticos não são melhores nem piores do que os demais. O interlocutor era uma pessoa sisuda, mas nesta matéria assumia o papel de brincalhão. De facto, nem no grau zero da escala africana seriam classificados os muito honrados e instruídos estadistas lusitanos. Sócrates, Relvas, Vara, Catrapum! Para não mencionar autarcazitos de meia-tigela. As melgas do costume. Pum! Pum!

Com o ar mais sério deste mundo, aquele amigo tentou explicar o porquê. Sem qualquer risinho, esclareceu que pertencem a um escol dedicado ao bem da pátria. Como sabemos à perfeição, os políticos nacionais e locais nunca se venderam nem se vendem em troca de favores e mordomias. Não acumulam tachos. Nunca viram, nem vêem, envelopes passarem por baixo ou por cima da mesa. São tão obedientes à lei que jamais permitiriam construções ilegais a empresários, correligionários ou irmãos da mesma “loja”. Seja ela a Gualdim Pais ou a Andrade Corvo.

Num caso particular, fomos consultar recortes de um jornal regional e constatámos a longuíssima listagem de promessas eleitorais que foram todas cumpridas na integridade. Nem uma ficou esquecida.

Como o dinheiro não dá para manter o séquito de admiradores, remunerar os funcionários, pagar o marketing da imagem pessoal, e ainda menos para concretizar as quimeras prometidas, usam o próprio salário para completar as obras não terminadas. Deixaram de utilizar os popós e telemóveis fora das horas de trabalho.

Entrámos num arquivo da internet e lá estava um dos figurões do costume a defender o precedente aldrabão-mor. Com vivinhas desadequados, ao jeito de quem já vai no terceiro partido. Por certo, o seu objectivo não seria engraxá-lo com paninhos quentes. Ele e os da sua laia desconhecem a mentira, porque são gente honesta. Colocam sempre os interesses comunitários acima dos seus e dos do partido. São de uma extrema lealdade para com o povo. Mais vale bater-se pelo rigor, do que cair em trafulhices.

Um pouco por todo o país, é fácil constatar a veracidade do que Luís Pires escreveu no “Público” (19.08.2012): “O abandono e a degradação das baixas das nossas cidades cruzam-se com as preocupações dos autarcas, com o embelezamento de rotundas e jardins, construções de piscinas e pavilhões gimnodesportivos, realização de feiras e festas com fortes fogos-de-artifício. Não sou especialista em finanças nem em economia, mas dá para ver que existem vários tipos de investimentos. Os úteis e duradoiros e os supérfluos e voláteis”. Ámen!

Na verdade, os nossos políticos distinguem-se dos estrangeiros. Quando fazem obras, do princípio ao fim, o preço das empreitadas nunca é alterado e fica tudo concluído dentro do calendário estabelecido. Nunca lançam primeiras pedras, nem fazem inaugurações antes de a obra estar acabada.

Em matéria de finanças, são generosos na partilha com os da mesma casta. Pensam sempre nos outros e, ao perorarem sobre o bem-estar colectivo, até parecem samaritanos. Como qualquer cristão que se preze.

Contudo, quem rapinou no Estado e/ou nas câmaras vai continuar a esfolar o erário público. Pode haver um ou outro malabarista que perca a confiança dos seus pares, mas toda a gente sabe que quando morre um papa arranjam logo outro.

Ficou gravada na memória dos profissionais da educação a excitação socretina com o modelo finlandês. Só é de lamentar que o “engenheiro” da Independente e milhares dos seus camaradas não tivessem “copiado” outras práticas escandinavas. Além de Helsínquia não permitir calotes autárquicos, a Finlândia publica todos os anos um espesso livro, estilo lista telefónica, com as contribuições pagas por cada cidadão. Como é normal num regime democrático, ninguém é excluído. Nem sequer membros do governo, autarcas e outros no género.

No que toca a instrução, nem vale a pena falar. A escolarização é exemplar. “Curricula” de tal envergadura justificaria a atribuição de postos mais elevados. Só as más-línguas é que sublinham as licenciaturas e mestrados obtidos por correspondência. De preferência em Relações Internacionais, tal como o Relvas da Lusófona.

A Merkel ou o Obama não lhes chegam aos pés. A primeira, só estudou na Universidade de Leipzig e apenas obteve o doutoramento em química quântica na Academia de Ciências de Berlim. Quanto ao presidente americano, limitou-se à Columbia University, de Nova Iorque, e à Faculdade de Direito de Harvard. Estes líderes é que não conhecem a alta craveira das instituições portuguesas, nas quais se formaram tantos políticos e “professores-mestres” ou “mestres-professores”.

As causas da indigência em que caiu o país estão à vista. A votação em listas é óptima para quem não lhe interesse separar o trigo do joio. Também há membros de assembleias eleitas que, provavelmente por boa educação, não metem na ordem governantes e autarcas em perene agitação narcisista.

Quem dirige devia escolher um outro povo. Ou vice-versa!

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