SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 01:22

Outra rodada de trocas e baldrocas

Os défices são enormes. Gasta-se mais no pagamento dos juros da dívida soberana do que se gasta com os restantes encargos da despesa pública. Ao mesmo tempo que o desemprego aumenta, continua a acumulação de tachos. Exemplos não faltam, nem no governo central nem nas autarquias.

Jovens, com mestrados e doutoramentos conseguidos à custa de muitos sacrifícios, que passaram necessidades, sem dinheiro para as propinas, com noites e fins-de-semana de estudo, a que se acrescentou o inevitável endividamento dos pais, são forçados a emigrar.

É do conhecimento geral que Sócrates, Vara e Relvas não são os únicos casos de governantes e autarcas com licenciaturazinhas manhosíssimas, adquiridas por artes mágico-performativas. Alguns consideram-se mestres nestas habilidades. Perante semelhante desrespeito por um dos pilares da credibilidade de uma nação, torna-se ensurdecedor o silêncio dos profissionais da política. Porquê?

O primeiro-ministro disse que a questão levantada à volta de Miguel Relvas era um “não caso”. Também seria oportuno que o omnipresente, mas inseguro, António José Seguro se pronunciasse sobre o assunto, i.e. as formaturas por encomenda. Um tema de grande atualidade. E, já agora, podia aproveitar para divulgar como decorreu o seu trajeto académico. Para que os cidadãos possam avaliar.

Como ficou demonstrado num trabalho realizado por António Costa Pinto e Pedro Tavares de Almeida, os governantes com carreira partidária licenciam-se mais tarde que os independentes. De novo, cumpre perguntar porquê.

Esses investigadores confirmam o que pensávamos: a atribuição de canudos a estes carreiristas é efetuada de maneira esdrúxula. Quiçá na fronteira do ilícito. Autêntica pouca vergonha! Quando do caso Sócrates, na Independente, a questão legal devia ter sido levada até ao fim e logo se teriam evitado parte das trafulhices cometidas pelo foragido de Paris. Visto que se trata de uma “profissão” em que impera a intrujice, é preciso decretar o princípio da tolerância zero para os personagens de governos passados, presentes e futuros.

Há demasiadas licenciaturas e mestrados instantâneos, que alguns presidentes e outros edis usam como penachos. A exemplo do ministro Relvas, que só fez quatro cadeiras semestrais de um curso que tinha 36. Enfim, doutorices sem pés nem cabeça.

Voltemos aos tachos. Como é possível haver tanto politiqueiro a dar aulas em instituições de ensino superior? A maioria sem doutoramento, nem investigação que credibilize os cargos universitários. Em vários países, é costume identificar a instituição onde se formam. Numa breve consulta a “sites” dos governos centrais e de municípios portugueses nota-se que há membros desta casta que não indicam onde obtiveram os diplomas. Será que têm vergonha da “alma mater”? Sentir-se-ão de tal forma vexados que nem sequer indicam o ano em que se formaram?

É óbvio que os formados por equivalências, com cursos de fim-de-semana e teses aprovadas por amigalhaços ou irmãos da loja, andam a vender gato por lebre. As suas reputações deixam muito a desejar.

Imagine-se a capacidade científica destes carapaus de corrida. Em francês, chamam-lhes “voleurs de jobs” (ladrões de empregos). Cortam as pernas aos jovens investigadores e a nação desperdiça o investimento feito na sua educação.

Escrevemos estas linhas porque recusamos acreditar que uma mentira repetida mil vezes se transforma numa verdade. É que estas confusões com as licenciaturas de Sócrates, Vara, Relvas e tantos outros arriscam ser descartadas como se estivéssemos em presença de uns miúdos quaisquer a fazer batota no jogo de berlinde.

São, porém, incidentes como estes que põem em dúvida a credibilidade dos diplomas em Portugal. Uma tremenda injustiça para milhares e milhares de alunos que levam os estudos a sério.

O líder da oposição devia questionar em público o percurso académico de Miguel Relvas. Caso contrário, vamos pensar que também não se sente confortável. Na página oficial da Assembleia da República, registou como profissão “docente universitário” e, no que toca a habilitações, pode-se ler: licenciatura em relações internacionais e FREQUÊNCIA de mestrado em ciência política (instituições privadas não identificadas). Talvez “por lapso”, como diz o outro, não colocou lá uma primeira FREQUÊNCIA em Organização e Gestão de Empresas numa faculdade pública.

O primeiro-ministro que desculpe. Esta embrulhada não é, como disse, um “não caso”. Não percebe quem é Miguel Relvas? Finge não saber, ou não quer saber? Pois, quando o seu responsável pelos assuntos parlamentares declarou que está “tudo esclarecido”, nem a si mesmo conseguiu convencer. Milhões de cidadãos ainda aguardam uma explicação.

Sim, o ministro-adjunto dos assuntos parlamentares já provou que é um artista com diversas competências (jornal “Público”, escândalo das secretas). Então não há despedimentos? Onde aparece, é assobiado e vaiado. Não nos surpreenderá se acabar por ser promovido ou reformado com uma pensão à custa do Estado. Os camelos cá estão para pagar.

Seria conveniente que se demitisse ou que alguém mostrasse o cartão vermelho a este provinciano com olhar de carneiro mal morto. É urgente! É necessário! Se assim não for, em breve, Bruxelas obrigará a presença de juízes estrangeiros nos nossos tribunais.

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